Paulo Sergio, palma contra o vidro

Dia dois de novembro é um dia de celebração da vida. Quando, nele, homenageamos os “finados”, na verdade lembramos e honramos o que foram em vida, o que significaram, as boas lembranças que temos deles, sejam nossos parentes, simples amigos queridos ou gênios que nos alumbraram em Artes, Filosofia, Política, Ciências ou na vida cotidiana. Nele, lembramos os mortos como e quando vivos. Dialogamos com sua memória. Um encontro programado com o passado.

Mas este dia é, para mim, o dia de Paulo Sergio, meu filho do meio. Nascido em 1967, há quarenta e nove anos, foi e é motivo de alumbramento para aquele jovem pai (24 anos) e este velho, já avô, que viaja em meio às tormentas de dois séculos que parecem um só. “Sem novidade no front”, repete o finado Erich Maria Remarque, lembrando a I Guerra Mundial, no diálogo privado que acabamos de ter.

1967 foi um ano interessante e difícil. Aliás, meus três filhos nasceram nesse tipo de anos (será que há outros?). Eu não parava nos empregos e fazia mil coisas ao mesmo tempo, escrevia, trabalhava em dois ou três lugares, escrevia freelances e estava reorganizando a juventude do Partido Comunista Brasileiro no antigo Estado do Rio.

A morte de Ernesto Guevara de La Serna, El Ché, me deixara muito triste. Antes de tornar-me comunista, ainda no Colégio Militar, já era seu admirador. Tínhamos um professor de Português muito bom, um major que chamávamos, à boca pequena, de “Amigo da Onça”, pois se parecia com o personagem de Péricles em O Cruzeiro. Ele lia as Seleções de Reader’s Digest, na qual publicavam uma coluna chamada “Meu personagem inesquecível” e mandou que escrevêssemos sobre o tema. Escrevi sobre o Ché e provoquei uma tremenda confusão. Um aluno, filho de sargento, até me chamou para uma briga e me deu uma surra para eu “deixar de ser comunista”. Era o ano de 1960. Nem Cuba nem eu éramos oficialmente comunistas. Mas não me entreguei. A briga, ou a surra, só terminou quando a guarda veio e nós debandamos para não sermos presos.

O nascimento de Paulo Sergio renovou o alento que André Luiz, o mais velho, me trouxera, pouco mais de um ano antes e que fora reduzido pela morte do meu personagem inesquecível. Ainda bebê, eu o levava para as aulas e os ensaios do grupo de teatro (Usina) que fundáramos, eu, Odila (que viria a ser minha companheira e mãe do meu terceiro filho), Fausto Amorim, Antonio Luiz Mendes Soares, as irmãs Marisa e Marilene Calheiros de Alvarenga, Imara Reis, Raquel Régis e outros jovens de Niterói. De quando em quando, Paulo protestava por estar esquecido no carrinho, no meio daquela conversa chata. Eu parava e ia acalmá-lo, com ajuda de Odila, uma grande amiga desde que a conheci, no começo de 1966, mas essa é outra história.

Só o vi crescer até os dois anos. Em 19 de novembro de 1969, quarta-feira, caí na clandestinidade. Em 1970, já preso, ele e André Luiz foram me visitar no Presídio Tiradentes, levados por Mãe Luiza (Barreto Leite) e minha irmã Sandra (ver crônica anterior). Foi maravilhoso e estranho. Por um acordo com a mãe dos meninos, não podíamos dizer que aquela era uma prisão. Era um hospital. Na volta do exílio, em 1979, soube que eles nunca tinham entendido porque havia tantos policiais em um hospital. Cáspite!

O reencontro, no retorno, foi ainda mais emocionante. Eu ainda estava no salão de bagagens e olhei para o saguão de desembarque. Havia um grupo de companheiros do Sindicato dos Artistas, liderados por Vanda Lacerda, a inesquecível atriz e Presidente da entidade, e na frente, dois garotos, de treze e doze anos. Comigo, João Luiz, de seis. Então, Paulo apertou a palma da mão direita, aberta, contra o vidro. Num impulso, cheguei até lá e coloquei minha mão contra a sua, o vidro como uma barreira a separar-nos. Deu-se ali um diálogo silencioso. Como se ambos soubéssemos que o que nos une havia sobrevivido e sobreviveria a novas dificuldades. A mão de Paulo Sergio tocando a minha, apesar do vidro, é marca indelével.

O Paulo Sergio de hoje, professor Sanz, empresário Paulo Sanz; homem bem-sucedido, pai do estudante promissor às voltas com as ciências de seu tempo Paulo Cabral Sanz, contém o Patey dos anos sessenta, aquele menino ativo que me provocou tanta aflição quando esbarrou numa estante na cozinha e tomou um banho de café fervente no apartamento da rua Itaperuna, em Santa Rosa, Niterói. O tempo, o pronto atendimento e a boa saúde logo apagaram as marcas, a não ser em minha memória.

Contém aquele menino depois de uma longa viagem que o levou aos campos da informática, da gestão, da educação e do amor, experimentando, como autônomo ou assalariado, ofícios tão diversos quanto lixar barcos e servir mesas na Califórnia, impressor em serigrafia em Maricá, dono de microlanchonete na Gomes Freire, no Rio.

Tornou-se um homem capaz de amar e de perdoar o pai que não lhe deu a atenção que merecia e necessitava. Soube traçar seus caminhos e ser melhor do que os que o antecederam.

Feliz Aniversário, feliz dia dois de novembro! Eu e a família inteira te desejamos, especialmente teus padrinhos Sandra e Tião.

Minha irmã, Sandra

Hoje, minha irmã de sangue e espírito, Sandra Barreto Sanz de Oliveira, completa 79 anos. Seis mais do que eu.

Sempre foi uma pessoa notável, de uma sabedoria que eu próprio demorei a descobrir. Odila, minha companheira de vida, sempre soube. As duas tinham muito em comum. A maneira simples, a conversa franca e direta. Corresponderam-se durante todo o nosso (de Odila e meu) tempo de exílio. Nessas cartas, Sandra deixou registrada a evolução de pensamento que nos aproximou para além do afeto.

Na nossa juventude, Sandra e eu nos afastamos por questões mal resolvidas de fé. Aos treze anos eu me batizara por influência dela e de Tião, Sebastião de Oliveira, 1972-verao-em-santiago-03-odila-e-sandra-2seu marido e meu padrinho. Aos 19, tornei-me comunista. Comportei-me muito mal com ela. Fazia provocações, como pôr o emblema da foice e do martelo no lugar da estrela de Belém na árvore de Natal. Infantilidades.

Logo, veio o golpe e ela começou a compreender melhor o nosso lado da questão. Sobretudo depois que eu fui para a clandestinidade e Sergio Sanz, nosso irmão, foi preso em meu lugar. Lembrei isto em um conto chamado Era, publicado em uma revista do exílio em Estocolmo: “Não tem tu, vai tu mesmo”. Quando fui banido, ela, os filhos Zé Luiz, Mônica e Mario Sergio, meus sobrinhos, minhas duas mães, Luiza e Maria Augusta, e minha sobrinha Jussara foram ao Chile. Aí se estreitou a relação dela com Odila (na foto, conversam em um ônibus em Santiago) e aprofundou-se nossa interlocução. Não sem tropeços.

Hoje, ela foi passar o dia na casa da neta Nathalia. Já deve haver fotos por aí, registrando o encontro. Sinal dos tempos. Não pude ir. Amanhã vou tomar um lanche com ela, Tião (que continua a ser meu padrinho, embora eu seja anarquista) e quem mais aparecer. Vamos conversar como sempre fazemos, surpresos ainda pela forma como nos tornamos tão próximos, tão amigos. Ela, sempre católica e eu cada vez mais ateu (se isso é possível). Ela, há décadas, petista. Eu, essencialmente ácrata.

Sandra se tornou a sábia anciã com quem me aconselho nas minhas angústias. Papel que era de minhas mães e de Odila. Amanhã estarei em seu apartamento para testemunhar minha admiração e carinho e pôr-me à disposição, dela e de Tião, como fizeram tantas vezes por mim, sem que eu precisasse pedir.

Em 30 de outubro de 1975, ela nos escreveu para Estocolmo. Nós estávamos nos preparando para transferir-nos a Portugal, onde eu iria trabalhar no Instituto de Cinema e Odila voltaria a estudar. Não deu certo. Vinte e cinco dias depois houve o golpe socialdemocrata que afastou a esquerda do MFA e frustrou meus planos. De alguma maneira, Sandra intuiu que isso poderia acontecer e temia uma solução mais trágica do que a que levou heróis do 25 de Abril, como os capitães Otelo e Paulino à prisão:

“Dia 22 levantei feliz, agradecendo a Deus meus 38 anos. Mais feliz fiquei com a chegada da carta de vocês. Sinto uma saudade que dói até os ossos, uma vontade enorme de estar perto, abraçar, beijar, conversar e até brigar. As cartas que chegam aumentam a saudade, mas me fazem feliz.

“Irmãos, é bom viver quando existe a esperança e o amor que a força de Cristo nos dá.

(…)

“Tenho pensado muito na ida de vocês para Portugal. No princípio, tive muito medo de vê-los sofrer mais uma vez, acreditem, a cena do Chile ainda me vem à mente e fico apavorada.”

Agradeço a ti e ao Tião por serem essencialmente bons e solidários, coerentes com o que pregam. E por tudo que fizeram por mim, minha saudosa companheira e meus filhos.

FELIZ ANIVERSÁRIO, MAIS UMA VEZ, MINHA IRMÃ!