53 anos de um anjo torto, Joca Sanz

Luiz Alberto Sanz

Torquato Neto e Jards Macalé:

“quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that”

Recorro a estes versos para comemorar o aniversário de meu caçula, aquele que o exílio chileno e minha amada Odila me presentearam quando acreditávamos ter encontrado uma segunda pátria, que chegaria pacificamente ao socialismo. Mas ele nasceu quando a ventania já trazia o golpe fascista em seu bafo, quatro dias antes do tanquetazo, balão de ensaio para o 11 de setembro. Desde então foi uma vida de correrias, fuga, viagem em avião cargueiro militar fichamentos, má alimentação, vacinações, tudo que pudesse estressar um recém-nascido.

Hoje, 25 de junho de 2026, não vou contar sua história, vou tentar homenageá-lo com imagens. Algumas que encontrei na bagunça do meu arquivo, tão incompleto.

João Luiz no meu colo, na Villa Santa Isabel, na hoje comuna de Sán Ramón, julho de 1973.





Joca só conseguiu seu passaporte, mesmo com decisão judicial favorável, depois da Anistia. Tinha 5 anos.
Primeiro café caseiro no Brasil, 10 de dezembro de 79, preparado pela Vó Iá. Bom apetite e mau humor.

Encontro de Família em Maravista: José Luiz, Mônica e André Luiz Sanz, Jussara e Maria Luiza Araújo, João Luiz e Maria Carolina Sanz.




Eleições e Partidarização no começo do recomeço

Memória:

Há 24 anos, efervesciam os conflitos resultantes da radicalização inspirada pelas primeiras eleições mais ou menos livres desde o início da Ditadura Fascista de 1964 no Brasil. Em junho se realizara o II Enclat, que decidiu pelo adiamento do Congresso das Classes Trabalhadoras para 1983. Isso deixou insatisfeitos sobretudo petistas e pedetistas, que contavam capitalizar os postos conquistados na nova Central para fortalecer suas presenças nos parlamentos e Executivos de todo o País. Afinal, eram eleições gerais, de vereador a senador, só ficaram de fora Presidente e Vice. O II Enclat se constituiu num laboratório experimental da divisão que se gestava praticamente desde que a reunião de Gragoatá, em 1979, consttuíra uma precária unidade.
Em 21 de outubro, publiquei no Jornal de Brasília, novamente como correspondente, uma análise da situação, a partir dos episódios de pugilato do Segundo Enclat fluminense, que terminou num grande confronto em que mais se feriram os que foram apartar. Mas, essa história fica para outra memória do Neném, agredido a dentadas por um metalúrgico.

Rio de Janeiro, 21 de Outubro de 1982

IDEOLOGIAS PARTIDÁRIAS DIVIDEM TRABALHADORES

Luiz Alberto Sanz (Correspondente)

INSTRUMENTALIZAÇÃO

Os pontos centrais no conflito eram a realização do congresso das classes trabalhadoras ainda em 1982 (antes das eleições), e a eleição da intersindical. Um grupo grande de delegados, que dividia ao meio os pedetistas, peemedebistas e os petistas, era pela transferência do congresso para 1983. Achavam que seria inevitável, como dizia na época um dirigente dos professores, a partidarização e a divisão do movimento em função das eleições parlamentares e governamentais. As razões, para isso, eram muitas, tantas quantos os candidatos sindicalistas distribuídos pelos diversos partidos, em todo país. Não cabem dúvidas de que o partido que conseguisse maioria, ou pelo menos os cargos mais significativos na Central Única dos Trabalhadores capitalizariam para sua campanha este fator exclusivamente sindical.

O pensamento pode ser resumido assim: Lula, é, sem dúvida, o líder sindical urbano de maior projeção nacional. O mais conhecido, com maior passagem nos meios de comunicação e que é respeitado pelos trabalhadores em todos os estados. Mas ele não é candidato a governador de São Paulo por todos os trabalhadores, apenas por aqueles que simpatizam com o PT. Assim, seria muito viável que fosse escolhido do II Conclat como secretário-geral da CUT, (Central Única dos Trabalhadores), não seria justo que capitalizasse isso para eleger-se governador.

Tal situação foi parcialmente revelada quando um estudante do PT, presente ao debate de Miro Teixeira na Universidade do Estado Rio de Janeiro, afirmou que o I Conclat decidira que todos os trabalhadores deviam organizar-se no seu partido. Possivelmente mais uma demonstração de ignorância de que mentira. Mas é possível imaginar, por exemplo, as consequências para a candidatura de Carlos Alberto de Oliveira — o popular Caó — líder dos jornalistas do Rio, se fosse eleito para posição no secretariado da CUT, às vésperas das eleições. Certamente seria uma ajuda providencial à sua candidatura para deputado federal, pelo PDT.

APARTIDÁRIO

            As propostas apresentadas na reunião dos trabalhadores fluminenses em junho, recomendando não votar no PDS, foram rejeitadas. Não que os delegados apoiassem o partido do presidente Figueiredo, pelo contrário. Mas a ideia é que isso implicaria numa definição partidária. Assim o repúdio aos parlamentares que votaram a favor do pacotão da previdência, incluía todos os representantes do partido de Moreira Franco, mas tinha um fundo absolutamente sindical.

Por outro lado, o 1º Congresso Estadual dos Metalúrgicos não foi assim tão sutil. Em Itatiaia, 175 delegados aprovaram seis pontos quanto as eleições:

“Nosso dever é participar de todos os movimentos que visem:

1º – O exercício de uma democracia plena.

2º – O estabelecimento das prerrogativas do congresso.

3º – O restabelecimento das imunidades parlamentares.

4º – Realização de eleições realmente livres, limpas e diretas em todos os níveis.

5º – Eleições de uma assembleia nacional constituinte após o fim de todas as leis de exceção.

6º – Votar na oposição com o objetivo de derrotar nas eleições o PDS.”

É lógico que, com maior ou menor variação, as posições das diversas correntes atuantes no movimento sindical são semelhantes, do ponto de vista programático. É assim que todos os candidatos sindicalistas do Rio lutam por:

  • Garantia de emprego e direito de greve para todos os trabalhadores, inclusive os servidores públicos.
  • Liberdade e autonomia sindicais.
  • Reajuste trimestral.
  • Participação dos trabalhadores na gestão da previdência social.
  • Reforma agraria ampla, massiva e imediata, com participação dos trabalhadores rurais na sua execução.
  • Fim da política econômica recessiva.
  • Revogação da lei de segurança nacional.
  • Direito de sindicalização dos servidores,
  • Assembleia constituinte livre e soberana,
  • Salário-mínimo real e unificado.

Pontos aprovados, sem divergências fundamentais, pelo conjunto das tendências reunidas no encontro estadual de junho.

LIDERANÇA

É na aplicação desse programa, na sua condução, que se concretizam as divergências que dividem os homens. Assim, da principais lideranças sindicais do Rio, o PDT deslocou Carlos Alberto de Oliveira e Sebastião Ataíde dos seus postos à frente das suas entidades de classe, para candidaturas à deputação federal. E o primeiro, presidente dos jornalistas, é considerado imprescindível, por seus companheiros, ao bom funcionamento da Intersindical. Político hábil, ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, “Caó” era capaz de costurar as situações mais delicadas; e Ataíde permitiu a partidarização do sindicato dos rodoviários ainda no tempo que andou conversando com o finado PP e depois quando passou pelo PMDB. Quando apareceu candidato pelo PDT teve que enfrentar-se com seus antigos companheiros de diretoria, que não concordaram com a “instrumentalização” do sindicato.

O PMDB também fez três deslocamentos importantes: o líder da greve mais importante realizada no Rio de Janeiro antes da abertura, Godofredo Pinto — presidente do Centro Estadual de Professores — lançou-se candidato a deputado estadual. Francisco dal Pra, presidente da Federação dos Metalúrgicos do Estado e uma das lideranças mais importantes na oposição à atual direção da CNTI — Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria — concorre ao cargo de vice-prefeito de São Gonçalo. O terceiro, menos conhecido, não é menos poderoso: Raimundo Leone Santos, presidente do Sindicato de Trabalhadores Agrícolas de Itaboraí, considerado como o segundo em peso político entre os “rurais”, devendo integrar a chapa de situação para a federação da sua categoria no cargo de secretário geral. Candidata-se a vereador na sua cidade.

O PT não deslocou nenhuma das suas lideranças principais, no campo sindical, para candidaturas. Parece entender a necessidade, aqui no estado, de fazer crescer sua influência nas entidades de classe e ajudar o movimento dos trabalhadores a crescer. Seus candidatos mais conhecidos são os presidentes dos radialistas, Antônio Luciano Fuser, o Médico Luís Tenório, que teve atuação destacada na greve da categoria em 80 mas que foi derrotado, quando concorreu, pela oposição, à diretoria do Sindicato. Luciano é candidato a deputado federal e Tenório a suplente de senador.                                             

OPÇÕES

Desde que as eleições se tornaram um fato, quando morreram as perguntas “mas você acredita mesmo que vai haver eleição?” muitas opções foram feitas. Com a recomposição partidária, aqueles sindicalistas que estavam fechados em todas as questões — praticamente — no encontro estadual dos trabalhadores se separaram. Foi o caso de Ivan Pinheiro, bancário, Secretário Administrativo da PROCUT e Secretário-Geral da INTERSINDICAL FLUMINENSE (PMDB) e Nery Onofre Rodrigues, Primeiro Secretário do Sindicato dos Gráficos e secretário de Comunicação Social da INTERSINDICAL DO RIO (PDT).

É verdade que, no plano sindical, nas formulações de classe, continuam afiados, formando um quarteto com seus companheiros Santos Nogueira, rodoviário (PMDB); Geraldo Candido da Silva, metroviário (PT); integrantes do secretário da Intersindical.

O fato mais marcante para o movimento sindical, como conjunto foi a desmobilização. O sindicato dos bancários, por exemplo, encerrou uma negociação de convenção coletiva com uma assembleia dos empregados do BANERJ — aquele onde existem mais ativistas — com a presença de treze elementos de base. A executiva do conselho Intersindical, formada por treze entidades, não tem obtido quórum para suas reuniões. Todos vivem as eleições, enquanto a vida nacional passa do lado de fora da janela, o governo aproveitando para enviar projetos ao Congresso e o governo estadual à Assembleia Legislativa, sem que os sindicatos sequer percebam.

Como vêm alguns destes homens tais problemas pelos partidos que optaram? Os do PT é fácil entender. Eles estão construindo o seu partido, têm uma estratégia com vistas voltadas para um futuro não tão próximo. E os outros?

Ivan Pinheiro diz que o PMDB “continua sendo o partido que exprime a frente e que tem condições para eleger o maior número de governadores e a bancada mais numerosa de oposição. Para ele, que conta, nas suas declarações com o apoio de Eraldo Lirio, essa é a mesma frente que conseguiu a anistia, as eleições diretas para governador e o fim das torturas. O momento é para a unidade sem discriminações”.

CAUDILHISMO

Nery, o gráfico, definiu-se:

“em primeiro lugar, pelo problema do estado. O PMDB no Rio está profundamente identificado com a patronal. Por outro lado, há o problema nacional. Os partidos agora existentes são frentes que fatalmente vão se dividir, inclusive o meu, o PDT. Agora, os chaguistas vão eleger 80 por cento dos candidatos do PMDB. O que vai ser dos oposicionistas autênticos depois das eleições?”

Reconhece, por outro lado, que o PDT sofre do problema do “Caudilhismo” de Brizola, mas isso é secundário em função da sua linha nacional”.

Ivan Pinheiro e Eraldo Lirio, membros do secretariado da PROCUT, acham que apesar de tudo, a divisão e a partidarização não prejudicaram muito a coordenação nacional do movimento: “A sectarização já era anterior. Então permaneceu tudo como era”, se bem que o camponês é mais incisivo: “Não deu para tirar o trem do caminho, mas foi necessário dobrar a paciência para progredir”.

Mas, é preocupação geral que, passadas as eleições, o movimento recomponha com o espirito de ampliação e de unidades que orientou a formação da Executiva da Intersindical, onde todas as forças importantes estão representadas.

“O movimento sindical, principalmente o operário, sofre uma fase de descenso, devida em parte também à polarização da sociedade pela questão eleitoral, quando boa parte dos quadros operários e sindicais passaram a mobilizar-se com destaque, em torno da luta geral e parlamentar e democracia. Acontecimento natural, uma vez que os dirigentes sindicais são eles próprios dos melhores quadros políticos da nação, desviou, no entanto, forças fantásticas do trabalho de organização da classe como tal, para classe como tendência política”.

Tal formulação, rejeitada no final de junho pelo 2º Encontro Estadual dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, parece escrita hoje, quando os aparelhos de alguns sindicatos se apresentam rachados de cima baixo, como no caso dos rodoviários.

Vitoriosos e derrotados, ou apenas derrotados, os peemedebistas e os pedetistas terão que conviver e apresentar-se juntos, frente à categoria, para enfrentar o descrédito que eles mesmos construíram.

INTERSINDICAL

Com o 2º encontro, o setor politicamente mais ativo do sindicalismo fluminense sofreu um redirecionamento, graças, fundamentalmente à mudança da política de alianças dos comunistas ligados ao Comitê Central. Acabaram levando à pratica o seu discurso contra a “partidarização” do CONSELHO INTERSINDICAL e trocaram uma relação “privilegiada” com o MR-8 (seu parceiro no PMDB) por uma ampliação do “leque de força”, incorporando a executiva do órgão, entidade sob a influência do PDT e do PT. Não foi, certamente, um redirecionamento pacifico. A reunião interrompida duas vezes em consequência de agressões de sindicalistas próximos ao MR-8 a dirigentes simpatizantes do PC.

Memórias do Neném: Partidarização nos sindicatos

Luiz Alberto Sanz

(Nome de guerra: Neném Barreto Leite)

“Os trabalhadores (…) têm que dar a luta política para poderem realizar seus objetivos econômicos. Em consequência, o Sindicato passa a ter uma nova meta: representar politicamente a classe, toda a classe. Aos sindicatos cabe lutar pelos interesses econômicos e políticos dos trabalhadores. Sejam de que partido forem”.

(Chapa Integração, eleita para o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado do Rio de Janeiro em 1971)

Me apresentando: No começo da década de 60, fui repórter do semanário Novos Rumos, do PCB, e editor sindical do também semanário Movimento, da UNE. No exílio, fiz parte da equipe do periódico Tribuna Sindical, editado pelo excelente jornalista alagoano Nilson Miranda, membro do Comitê Central do Partidão, de quem fiquei amigo próximo. De volta ao Brasil, em dezembro de 1979, filiei-me ao Sated/RJ, onde minha mãe (Luiza Barreto Leite), meu irmão (Sérgio Sanz) e meu “pai putativo” João Ângelo Labanca militavam e haviam participado ativamente da luta e das negociações pela regulamentação da profissão, junto com a inesquecível Presidente Vanda Lacerda. Aí, entre outras atividades e funções, editei o periódico Cena Livre, representei a categoria, junto com Labanca, na Executiva da Unidade Sindical, nos Encontros Nacionais de Artes Cênicas, nos três Enclats e dois Conclats de Praia Grande. Fui Secretário Geral na gestão da atriz Maria Pompeu e Presidente quando ela renunciou.

Em todos os países por onde passei, encontrei problemas semelhantes aos apontados pelo petroleiro Antony Devalle em seus artigos publicados no sítio da Organização Popular (OP): Mas a hstória da partidarização dos movimentos sociais vem de muito antes. Tem suas raízes mais evidentes no golpe bolchevique de novembro de 1917 que detonou a Revolução dita Soviética, começando por partidarizar os próprios sovietes (Conselhos de Operários, Soldados, Camponeses e Intelectuais que discutiam os rumos do movimento revolucionário) deixando-o na ignorância de que o comando do Partido Operário Social Democrata da Rússia já decidira tomar o poder à revelia de todos.

Todas as centrais sindicais hoje são hegemonizadas por partidos. A CUT pelo PT, a CTB pelo PCdoB, a Força Sindical (conhecida no movimento como Farsa Sindical pela sua ligação especialmente estreita com o patronato) pelo Solidariedade… A Conlutas pelo PSTU. Todas, em maior ou menor grau, atuam numa lógica de tentar fazer dos sindicatos suas sucursais.” (https://share.google/JlLzfVTVPM571bjkn)

Na Suécia, quando lá estive, era oficializado. A maior central, Lands Organizationen (LO) era (é) socialdemocrata. Não sei agora, então vou me referir no passado, salvo exceções.

Para trabalhar em determinados setores, era preciso filiar-se ao sindicato e, automaticamente, ao partido. Eu era membro da independente Federação dos Portuários Hamnarbertar Förbundet) que representa e aglutina a maioria dos estivadores, que atuam por seu intermédio.

Fundada em 1972, nela ingressei dois anos depois. Era uma sensação estimulante poder atuar e trabalhar fora da “gaiola” dos partidos e de alguma forma contribuir para uma alternativa à neutralidade que alimentava a hipocrisia do estado e dos partidos.

A Suécia de Palme e do PSD convivia e seus antigos seguidores convivem com a monarquia e estatutariamente professam o republicanismo. Apoiaram Cuba, Vietnam, a luta contra o apartheid na África do Sul e o Chile de Allende (e fizeram grandes negócios, como tinham feito na II Guerra Mundial). Acolheram refugiados de todas as partes e raros foram os que tiveram oportunidades à altura da sua capacitação.

Ali conheci gente de muitas tendências: revolucionários de Tigré, do Irã, suecos, da Eritreia… Vi o tigrino e o eritreu concordarem sobre o futuro da antiga Abissínia, apesar das divergências dos líderes de seus povos que se chocariam em uma guerra civil menos de duas décadas depois. O porto transpirava rebeldia. Finlandeses, bengalis expulsos de Uganda e rejeitados por Bangladesh, nativos que não suportavam mais as cadeias de produção… Apoiavam nosso sindicato livre, que não financiava partidos nem beijava mãos.

Quando descarregava um navio no porto de Estocolmo, fui convidado a trabalhar como arrumador de cargas, categoria subordinada à Federação do Transporte (Transport Förbundet), uma das entidades mais importantes da LO, ao lado da Federação dos Trabalhadores da Construção Civil (Svenska Byggnads arbetares förbundet). Então, conheci na prática o sindicalismo da social-democracia.

Eu precisava de dinheiro. Odila, minha companheira, trabalhava como faxineira e, depois, numa fábrica de chocolates, e ainda estudava, mas eu não mais recebia o empréstimo estudantil (o FIES de lá) que ia começar a pagar em breve. Nosso filho, Joca, crescia. Topei, mas não ingressei no Sveriges Socialdemokratiska Partiet/SDP, apesar de ter boas relações com alguns de seus membros.

A coisa começou a pesar. Os estivadores descarregavam os navios e traziam a carga até os armazéns. Nós a organizávamos no espaço para isso reservado. Todos os dias era designado para, logo cedo, fazer a faxina do armazém e do porão. Me testavam. Quem já trabalhou com isso sabe que é uma luta contra os ratos.

Um dia, ao transferir de um contêiner equipamentos óticos científicos, vimos um operador de monta-carga, homem de confiança do capataz, apropriar-se de um microscópio de alta precisão. Ele nos incitou a fazer o mesmo com outros aparelhos, mais baratos. Ficamos “na moita”, como se nada tivéssemos visto ou entendido, pois, tirando um jovem do Stockholmspartiet, éramos todos imigrantes (invandrare) que mal falávamos sueco. A pressão aumentou, o capataz nos chamou, dias depois, e perguntou se sabíamos quem tinha levado o microscópio eletrônico. Dissemos não ter ideia.

Não permaneci muito tempo como arrumador de carga. Os estivadores aprovaram um boicote internacional aos navios que transportavam cobre da ditadura chilena. Tinha um no Porto de Estocolmo. Fomos designados para descarregá-lo, substituindo o pessoal da estiva. Não podíamos nos negar, pois o sindicato dos arrumadores não aprovara o boicote. Já na hora extra, sofri um acidente. Uma barra de 125 kg caiu no meu pé esquerdo, que não quebrou por eu usar uma botina Cartepillar reforçada com biqueira e sola de aço, que aparou o impacto principal. Ali terminou minha carreira de estivador/arrumador de carga. Voltei para o Cinema, desistindo de me proletarizar.

No Chile tinha observado, embora sem a devida consciência crítica, que o movimento sindical era atrelado aos partidos da Unidade Popular, a contragosto para alguns setores e militantes, sobretudo socialistas e a oposição dos poucos anarquistas. A Central Única dos Trabalhadores era presidida por um membro do PCCh, Luís Figueroa, que assumiu o Ministério do Trabalho sem afastar-se do cargo sindical, já o Secretário Nacional, o socialista Rolando Calderón, licenciou-se para assumir o Ministério da Agricultura, mas foi substituído por seu correligionário Manoel Dinamarca. Havia membros de outros partidos na Diretoria, mas a predominância era de comunistas e socialistas.

Isso me lembrou os tempos em que militei na UNE ou em torno dela: A Presidência era sempre da AP ou de um “independente” ligado à AP. Só não foi em 64/65, quando a Diretoria foi desbaratada e Ernane Farias assumiu o cargo na clandestinidade. A composição da chapa era decidida pelos representantes dos partidos e depois levada ao plenário, sem discussão das bases.

Nesse tempo e no da “Abertura”, quando retornei ao Brasil, eu era comunista partidário, mas não aceitava a partidarização das entidades de classe ou comunitárias como “naturais”. A experiência no exílio fortaleceu tal rejeição. O papel de tais entidades é “lutar pelos interesses econômicos e políticos dos trabalhadores. Sejam de que partido forem” como afirmamos na carta de princípios que nos elegeu para o Sated/RJ.

Em 1980, como Secretário do Comitê Cultural municipal carioca do PCB escrevera num informe político:

Todos os setores (…) querem impor seus projetos, inclusive nós. Não conseguindo, vem o desespero.

Nós precisamos fazer uma análise disso e reverter a situação. Não temos tomado atitude aberta com a massa. Continuamos trabalhando em conchavo de gabinete. O trabalho no Sindicato e na Unidade Sindical tem sido feito por cima. Não é produto do pensamento da massa.

E necessário impedir que as organizações sindicais sejam utilizadas para fins partidários (…). As entidades de massas não são currais ou quintais privados de ninguém. Elas pertencem às categorias que reúnem.

Por ocasião dos 3º Enclat e 2º Conclat eu já não pertencia aos quadros do PCB, mas mantinha os princípios que sempre me guiaram. Em Praia Grande, 1983, juntamente com o petroleiro Xisto Bahía (PCdoB), de Mataripe, apresentei a moção que vetava a partidarização dos sindicatos, aprovada com maioria absoluta pelo plenário.

No período que antecedeu e se seguiu ao I Congresso, escrevi publiquei no Jornal de Brasília, do qual correspondente e chefe de redação, vários artigos e reportagens sobre o Movimento Sindical. Republico alguns trechos que tocam na questão da unidade.

Tomando como mote a peça Bella Ciao, de Luís Alberto de Abreu:

(…) e 1935. O filho preparando-se para o levante da Aliança nacional Libertadora, o pai recordando, mais uma vez, a greve de 1917, que parou o País e reuniu 50 mil operários em São Paulo. Gennarino corta: “Em 17 o movimento operário não tinha direção”; Giovanni na pontada língua: “Hoje, a direção de vocês não tem operários”.

(Gennarino cresceu. O Movimento não)

(…)

Indo direto ao assunto:

As representações a ambos os encontros preparatórios do Congresso da Classe Trabalhadora não são expressivas do conjunto do movimento sindical. Na verdade retratam o grau de participação a que a “vanguarda” dos trabalhadores foi levada. O único setor de preponderância realmente independente – o dos trabalhadores agrícolas, liderados por José Francisco, Presidente da Contag – não contam com recursos para fazer chegar todos os seus delegados a São Paulo, vindos dos recantos mais longínquos do País. A grande maioria dos participantes será, como em 1981, de profissionais liberais e categorias de classe média, munida de discurso radical mas de prática bem menos comprometida com o cotidiano dos trabalhadores: engenheiros, sociólogos, médicos, arquitetos, economistas… ou então eleitos em assembleias às quais concorrem vinte, trinta elementos que elegem oito, dez, quinze elementos de “base” em categorias nas quais jamais conseguem conquistar a diretoria.

Através da história do movimento operário brasileiro, não se conhece unidade conseguida em congresso ou reuniões. Sempre foi nas lutas e no trabalho diário que as diversas opiniões se unificaram e entenderam, dando passos adiante.

(…)

Por um lado, um setor social-democrata de extrema esquerda convoca um Conclat para São Bernardo, por outro lado um setor de extrema direita, encabeçado por Ari Campista, convoca um congresso que passa exclusivamente através da estrutura das Confederações. No meio, tentando ampliar e refletir as preocupações da sociedade brasileira, um setor de centro-esquerda organiza o Conclat para Praia Grande, nos dias 4, 5 e 6 de novembro.

(UMA RETIFICAÇÃO DO EIXO SINDICAL, 23/10/1983)

Em 2026, o panorama é outro, bem diverso, não só o líder que agia como extrema esquerda acaba de negar sequer pertencer à esquerda e desenvolve uma política de Centro-Direita, acompanhando a Social-Democracia europeia, como quase todos os outros se contentam em ter uma central só pra si ou, como o Cidadania, a versão farsesca dos que destruíram o PCB, recolher as migalhas dos liberais.

Felizmente, os libertários continuam a ser libertários.