Memórias do Neném: Partidarização nos sindicatos

Luiz Alberto Sanz

(Nome de guerra: Neném Barreto Leite)

“Os trabalhadores (…) têm que dar a luta política para poderem realizar seus objetivos econômicos. Em consequência, o Sindicato passa a ter uma nova meta: representar politicamente a classe, toda a classe. Aos sindicatos cabe lutar pelos interesses econômicos e políticos dos trabalhadores. Sejam de que partido forem”.

(Chapa Integração, eleita para o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado do Rio de Janeiro em 1971)

Me apresentando: No começo da década de 60, fui repórter do semanário Novos Rumos, do PCB, e editor sindical do também semanário Movimento, da UNE. No exílio, fiz parte da equipe do periódico Tribuna Sindical, editado pelo excelente jornalista alagoano Nilson Miranda, membro do Comitê Central do Partidão, de quem fiquei amigo próximo. De volta ao Brasil, em dezembro de 1979, filiei-me ao Sated/RJ, onde minha mãe (Luiza Barreto Leite), meu irmão (Sérgio Sanz) e meu “pai putativo” João Ângelo Labanca militavam e haviam participado ativamente da luta e das negociações pela regulamentação da profissão, junto com a inesquecível Presidente Vanda Lacerda. Aí, entre outras atividades e funções, editei o periódico Cena Livre, representei a categoria, junto com Labanca, na Executiva da Unidade Sindical, nos Encontros Nacionais de Artes Cênicas, nos três Enclats e dois Conclats de Praia Grande. Fui Secretário Geral na gestão da atriz Maria Pompeu e Presidente quando ela renunciou.

Em todos os países por onde passei, encontrei problemas semelhantes aos apontados pelo petroleiro Antony Devalle em seus artigos publicados no sítio da Organização Popular (OP): Mas a hstória da partidarização dos movimentos sociais vem de muito antes. Tem suas raízes mais evidentes no golpe bolchevique de novembro de 1917 que detonou a Revolução dita Soviética, começando por partidarizar os próprios sovietes (Conselhos de Operários, Soldados, Camponeses e Intelectuais que discutiam os rumos do movimento revolucionário) deixando-o na ignorância de que o comando do Partido Operário Social Democrata da Rússia já decidira tomar o poder à revelia de todos.

Todas as centrais sindicais hoje são hegemonizadas por partidos. A CUT pelo PT, a CTB pelo PCdoB, a Força Sindical (conhecida no movimento como Farsa Sindical pela sua ligação especialmente estreita com o patronato) pelo Solidariedade… A Conlutas pelo PSTU. Todas, em maior ou menor grau, atuam numa lógica de tentar fazer dos sindicatos suas sucursais.” (https://share.google/JlLzfVTVPM571bjkn)

Na Suécia, quando lá estive, era oficializado. A maior central, Lands Organizationen (LO) era (é) socialdemocrata. Não sei agora, então vou me referir no passado, salvo exceções.

Para trabalhar em determinados setores, era preciso filiar-se ao sindicato e, automaticamente, ao partido. Eu era membro da independente Federação dos Portuários Hamnarbertar Förbundet) que representa e aglutina a maioria dos estivadores, que atuam por seu intermédio.

Fundada em 1972, nela ingressei dois anos depois. Era uma sensação estimulante poder atuar e trabalhar fora da “gaiola” dos partidos e de alguma forma contribuir para uma alternativa à neutralidade que alimentava a hipocrisia do estado e dos partidos.

A Suécia de Palme e do PSD convivia e seus antigos seguidores convivem com a monarquia e estatutariamente professam o republicanismo. Apoiaram Cuba, Vietnam, a luta contra o apartheid na África do Sul e o Chile de Allende (e fizeram grandes negócios, como tinham feito na II Guerra Mundial). Acolheram refugiados de todas as partes e raros foram os que tiveram oportunidades à altura da sua capacitação.

Ali conheci gente de muitas tendências: revolucionários de Tigré, do Irã, suecos, da Eritreia… Vi o tigrino e o eritreu concordarem sobre o futuro da antiga Abissínia, apesar das divergências dos líderes de seus povos que se chocariam em uma guerra civil menos de duas décadas depois. O porto transpirava rebeldia. Finlandeses, bengalis expulsos de Uganda e rejeitados por Bangladesh, nativos que não suportavam mais as cadeias de produção… Apoiavam nosso sindicato livre, que não financiava partidos nem beijava mãos.

Quando descarregava um navio no porto de Estocolmo, fui convidado a trabalhar como arrumador de cargas, categoria subordinada à Federação do Transporte (Transport Förbundet), uma das entidades mais importantes da LO, ao lado da Federação dos Trabalhadores da Construção Civil (Svenska Byggnads arbetares förbundet). Então, conheci na prática o sindicalismo da social-democracia.

Eu precisava de dinheiro. Odila, minha companheira, trabalhava como faxineira e, depois, numa fábrica de chocolates, e ainda estudava, mas eu não mais recebia o empréstimo estudantil (o FIES de lá) que ia começar a pagar em breve. Nosso filho, Joca, crescia. Topei, mas não ingressei no Sveriges Socialdemokratiska Partiet/SDP, apesar de ter boas relações com alguns de seus membros.

A coisa começou a pesar. Os estivadores descarregavam os navios e traziam a carga até os armazéns. Nós a organizávamos no espaço para isso reservado. Todos os dias era designado para, logo cedo, fazer a faxina do armazém e do porão. Me testavam. Quem já trabalhou com isso sabe que é uma luta contra os ratos.

Um dia, ao transferir de um contêiner equipamentos óticos científicos, vimos um operador de monta-carga, homem de confiança do capataz, apropriar-se de um microscópio de alta precisão. Ele nos incitou a fazer o mesmo com outros aparelhos, mais baratos. Ficamos “na moita”, como se nada tivéssemos visto ou entendido, pois, tirando um jovem do Stockholmspartiet, éramos todos imigrantes (invandrare) que mal falávamos sueco. A pressão aumentou, o capataz nos chamou, dias depois, e perguntou se sabíamos quem tinha levado o microscópio eletrônico. Dissemos não ter ideia.

Não permaneci muito tempo como arrumador de carga. Os estivadores aprovaram um boicote internacional aos navios que transportavam cobre da ditadura chilena. Tinha um no Porto de Estocolmo. Fomos designados para descarregá-lo, substituindo o pessoal da estiva. Não podíamos nos negar, pois o sindicato dos arrumadores não aprovara o boicote. Já na hora extra, sofri um acidente. Uma barra de 125 kg caiu no meu pé esquerdo, que não quebrou por eu usar uma botina Cartepillar reforçada com biqueira e sola de aço, que aparou o impacto principal. Ali terminou minha carreira de estivador/arrumador de carga. Voltei para o Cinema, desistindo de me proletarizar.

No Chile tinha observado, embora sem a devida consciência crítica, que o movimento sindical era atrelado aos partidos da Unidade Popular, a contragosto para alguns setores e militantes, sobretudo socialistas e a oposição dos poucos anarquistas. A Central Única dos Trabalhadores era presidida por um membro do PCCh, Luís Figueroa, que assumiu o Ministério do Trabalho sem afastar-se do cargo sindical, já o Secretário Nacional, o socialista Rolando Calderón, licenciou-se para assumir o Ministério da Agricultura, mas foi substituído por seu correligionário Manoel Dinamarca. Havia membros de outros partidos na Diretoria, mas a predominância era de comunistas e socialistas.

Isso me lembrou os tempos em que militei na UNE ou em torno dela: A Presidência era sempre da AP ou de um “independente” ligado à AP. Só não foi em 64/65, quando a Diretoria foi desbaratada e Ernane Farias assumiu o cargo na clandestinidade. A composição da chapa era decidida pelos representantes dos partidos e depois levada ao plenário, sem discussão das bases.

Nesse tempo e no da “Abertura”, quando retornei ao Brasil, eu era comunista partidário, mas não aceitava a partidarização das entidades de classe ou comunitárias como “naturais”. A experiência no exílio fortaleceu tal rejeição. O papel de tais entidades é “lutar pelos interesses econômicos e políticos dos trabalhadores. Sejam de que partido forem” como afirmamos na carta de princípios que nos elegeu para o Sated/RJ.

Em 1980, como Secretário do Comitê Cultural municipal carioca do PCB escrevera num informe político:

Todos os setores (…) querem impor seus projetos, inclusive nós. Não conseguindo, vem o desespero.

Nós precisamos fazer uma análise disso e reverter a situação. Não temos tomado atitude aberta com a massa. Continuamos trabalhando em conchavo de gabinete. O trabalho no Sindicato e na Unidade Sindical tem sido feito por cima. Não é produto do pensamento da massa.

E necessário impedir que as organizações sindicais sejam utilizadas para fins partidários (…). As entidades de massas não são currais ou quintais privados de ninguém. Elas pertencem às categorias que reúnem.

Por ocasião dos 3º Enclat e 2º Conclat eu já não pertencia aos quadros do PCB, mas mantinha os princípios que sempre me guiaram. Em Praia Grande, 1983, juntamente com o petroleiro Xisto Bahía (PCdoB), de Mataripe, apresentei a moção que vetava a partidarização dos sindicatos, aprovada com maioria absoluta pelo plenário.

No período que antecedeu e se seguiu ao I Congresso, escrevi publiquei no Jornal de Brasília, do qual correspondente e chefe de redação, vários artigos e reportagens sobre o Movimento Sindical. Republico alguns trechos que tocam na questão da unidade.

Tomando como mote a peça Bella Ciao, de Luís Alberto de Abreu:

(…) e 1935. O filho preparando-se para o levante da Aliança nacional Libertadora, o pai recordando, mais uma vez, a greve de 1917, que parou o País e reuniu 50 mil operários em São Paulo. Gennarino corta: “Em 17 o movimento operário não tinha direção”; Giovanni na pontada língua: “Hoje, a direção de vocês não tem operários”.

(Gennarino cresceu. O Movimento não)

(…)

Indo direto ao assunto:

As representações a ambos os encontros preparatórios do Congresso da Classe Trabalhadora não são expressivas do conjunto do movimento sindical. Na verdade retratam o grau de participação a que a “vanguarda” dos trabalhadores foi levada. O único setor de preponderância realmente independente – o dos trabalhadores agrícolas, liderados por José Francisco, Presidente da Contag – não contam com recursos para fazer chegar todos os seus delegados a São Paulo, vindos dos recantos mais longínquos do País. A grande maioria dos participantes será, como em 1981, de profissionais liberais e categorias de classe média, munida de discurso radical mas de prática bem menos comprometida com o cotidiano dos trabalhadores: engenheiros, sociólogos, médicos, arquitetos, economistas… ou então eleitos em assembleias às quais concorrem vinte, trinta elementos que elegem oito, dez, quinze elementos de “base” em categorias nas quais jamais conseguem conquistar a diretoria.

Através da história do movimento operário brasileiro, não se conhece unidade conseguida em congresso ou reuniões. Sempre foi nas lutas e no trabalho diário que as diversas opiniões se unificaram e entenderam, dando passos adiante.

(…)

Por um lado, um setor social-democrata de extrema esquerda convoca um Conclat para São Bernardo, por outro lado um setor de extrema direita, encabeçado por Ari Campista, convoca um congresso que passa exclusivamente através da estrutura das Confederações. No meio, tentando ampliar e refletir as preocupações da sociedade brasileira, um setor de centro-esquerda organiza o Conclat para Praia Grande, nos dias 4, 5 e 6 de novembro.

(UMA RETIFICAÇÃO DO EIXO SINDICAL, 23/10/1983)

Em 2026, o panorama é outro, bem diverso, não só o líder que agia como extrema esquerda acaba de negar sequer pertencer à esquerda e desenvolve uma política de Centro-Direita, acompanhando a Social-Democracia europeia, como quase todos os outros se contentam em ter uma central só pra si ou, como o Cidadania, a versão farsesca dos que destruíram o PCB, recolher as migalhas dos liberais.

Felizmente, os libertários continuam a ser libertários.

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