Eleições e Partidarização no começo do recomeço

Memória:

Há 24 anos, efervesciam os conflitos resultantes da radicalização inspirada pelas primeiras eleições mais ou menos livres desde o início da Ditadura Fascista de 1964 no Brasil. Em junho se realizara o II Enclat, que decidiu pelo adiamento do Congresso das Classes Trabalhadoras para 1983. Isso deixou insatisfeitos sobretudo petistas e pedetistas, que contavam capitalizar os postos conquistados na nova Central para fortalecer suas presenças nos parlamentos e Executivos de todo o País. Afinal, eram eleições gerais, de vereador a senador, só ficaram de fora Presidente e Vice. O II Enclat se constituiu num laboratório experimental da divisão que se gestava praticamente desde que a reunião de Gragoatá, em 1979, consttuíra uma precária unidade.
Em 21 de outubro, publiquei no Jornal de Brasília, novamente como correspondente, uma análise da situação, a partir dos episódios de pugilato do Segundo Enclat fluminense, que terminou num grande confronto em que mais se feriram os que foram apartar. Mas, essa história fica para outra memória do Neném, agredido a dentadas por um metalúrgico.

Rio de Janeiro, 21 de Outubro de 1982

IDEOLOGIAS PARTIDÁRIAS DIVIDEM TRABALHADORES

Luiz Alberto Sanz (Correspondente)

INSTRUMENTALIZAÇÃO

Os pontos centrais no conflito eram a realização do congresso das classes trabalhadoras ainda em 1982 (antes das eleições), e a eleição da intersindical. Um grupo grande de delegados, que dividia ao meio os pedetistas, peemedebistas e os petistas, era pela transferência do congresso para 1983. Achavam que seria inevitável, como dizia na época um dirigente dos professores, a partidarização e a divisão do movimento em função das eleições parlamentares e governamentais. As razões, para isso, eram muitas, tantas quantos os candidatos sindicalistas distribuídos pelos diversos partidos, em todo país. Não cabem dúvidas de que o partido que conseguisse maioria, ou pelo menos os cargos mais significativos na Central Única dos Trabalhadores capitalizariam para sua campanha este fator exclusivamente sindical.

O pensamento pode ser resumido assim: Lula, é, sem dúvida, o líder sindical urbano de maior projeção nacional. O mais conhecido, com maior passagem nos meios de comunicação e que é respeitado pelos trabalhadores em todos os estados. Mas ele não é candidato a governador de São Paulo por todos os trabalhadores, apenas por aqueles que simpatizam com o PT. Assim, seria muito viável que fosse escolhido do II Conclat como secretário-geral da CUT, (Central Única dos Trabalhadores), não seria justo que capitalizasse isso para eleger-se governador.

Tal situação foi parcialmente revelada quando um estudante do PT, presente ao debate de Miro Teixeira na Universidade do Estado Rio de Janeiro, afirmou que o I Conclat decidira que todos os trabalhadores deviam organizar-se no seu partido. Possivelmente mais uma demonstração de ignorância de que mentira. Mas é possível imaginar, por exemplo, as consequências para a candidatura de Carlos Alberto de Oliveira — o popular Caó — líder dos jornalistas do Rio, se fosse eleito para posição no secretariado da CUT, às vésperas das eleições. Certamente seria uma ajuda providencial à sua candidatura para deputado federal, pelo PDT.

APARTIDÁRIO

            As propostas apresentadas na reunião dos trabalhadores fluminenses em junho, recomendando não votar no PDS, foram rejeitadas. Não que os delegados apoiassem o partido do presidente Figueiredo, pelo contrário. Mas a ideia é que isso implicaria numa definição partidária. Assim o repúdio aos parlamentares que votaram a favor do pacotão da previdência, incluía todos os representantes do partido de Moreira Franco, mas tinha um fundo absolutamente sindical.

Por outro lado, o 1º Congresso Estadual dos Metalúrgicos não foi assim tão sutil. Em Itatiaia, 175 delegados aprovaram seis pontos quanto as eleições:

“Nosso dever é participar de todos os movimentos que visem:

1º – O exercício de uma democracia plena.

2º – O estabelecimento das prerrogativas do congresso.

3º – O restabelecimento das imunidades parlamentares.

4º – Realização de eleições realmente livres, limpas e diretas em todos os níveis.

5º – Eleições de uma assembleia nacional constituinte após o fim de todas as leis de exceção.

6º – Votar na oposição com o objetivo de derrotar nas eleições o PDS.”

É lógico que, com maior ou menor variação, as posições das diversas correntes atuantes no movimento sindical são semelhantes, do ponto de vista programático. É assim que todos os candidatos sindicalistas do Rio lutam por:

  • Garantia de emprego e direito de greve para todos os trabalhadores, inclusive os servidores públicos.
  • Liberdade e autonomia sindicais.
  • Reajuste trimestral.
  • Participação dos trabalhadores na gestão da previdência social.
  • Reforma agraria ampla, massiva e imediata, com participação dos trabalhadores rurais na sua execução.
  • Fim da política econômica recessiva.
  • Revogação da lei de segurança nacional.
  • Direito de sindicalização dos servidores,
  • Assembleia constituinte livre e soberana,
  • Salário-mínimo real e unificado.

Pontos aprovados, sem divergências fundamentais, pelo conjunto das tendências reunidas no encontro estadual de junho.

LIDERANÇA

É na aplicação desse programa, na sua condução, que se concretizam as divergências que dividem os homens. Assim, da principais lideranças sindicais do Rio, o PDT deslocou Carlos Alberto de Oliveira e Sebastião Ataíde dos seus postos à frente das suas entidades de classe, para candidaturas à deputação federal. E o primeiro, presidente dos jornalistas, é considerado imprescindível, por seus companheiros, ao bom funcionamento da Intersindical. Político hábil, ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, “Caó” era capaz de costurar as situações mais delicadas; e Ataíde permitiu a partidarização do sindicato dos rodoviários ainda no tempo que andou conversando com o finado PP e depois quando passou pelo PMDB. Quando apareceu candidato pelo PDT teve que enfrentar-se com seus antigos companheiros de diretoria, que não concordaram com a “instrumentalização” do sindicato.

O PMDB também fez três deslocamentos importantes: o líder da greve mais importante realizada no Rio de Janeiro antes da abertura, Godofredo Pinto — presidente do Centro Estadual de Professores — lançou-se candidato a deputado estadual. Francisco dal Pra, presidente da Federação dos Metalúrgicos do Estado e uma das lideranças mais importantes na oposição à atual direção da CNTI — Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria — concorre ao cargo de vice-prefeito de São Gonçalo. O terceiro, menos conhecido, não é menos poderoso: Raimundo Leone Santos, presidente do Sindicato de Trabalhadores Agrícolas de Itaboraí, considerado como o segundo em peso político entre os “rurais”, devendo integrar a chapa de situação para a federação da sua categoria no cargo de secretário geral. Candidata-se a vereador na sua cidade.

O PT não deslocou nenhuma das suas lideranças principais, no campo sindical, para candidaturas. Parece entender a necessidade, aqui no estado, de fazer crescer sua influência nas entidades de classe e ajudar o movimento dos trabalhadores a crescer. Seus candidatos mais conhecidos são os presidentes dos radialistas, Antônio Luciano Fuser, o Médico Luís Tenório, que teve atuação destacada na greve da categoria em 80 mas que foi derrotado, quando concorreu, pela oposição, à diretoria do Sindicato. Luciano é candidato a deputado federal e Tenório a suplente de senador.                                             

OPÇÕES

Desde que as eleições se tornaram um fato, quando morreram as perguntas “mas você acredita mesmo que vai haver eleição?” muitas opções foram feitas. Com a recomposição partidária, aqueles sindicalistas que estavam fechados em todas as questões — praticamente — no encontro estadual dos trabalhadores se separaram. Foi o caso de Ivan Pinheiro, bancário, Secretário Administrativo da PROCUT e Secretário-Geral da INTERSINDICAL FLUMINENSE (PMDB) e Nery Onofre Rodrigues, Primeiro Secretário do Sindicato dos Gráficos e secretário de Comunicação Social da INTERSINDICAL DO RIO (PDT).

É verdade que, no plano sindical, nas formulações de classe, continuam afiados, formando um quarteto com seus companheiros Santos Nogueira, rodoviário (PMDB); Geraldo Candido da Silva, metroviário (PT); integrantes do secretário da Intersindical.

O fato mais marcante para o movimento sindical, como conjunto foi a desmobilização. O sindicato dos bancários, por exemplo, encerrou uma negociação de convenção coletiva com uma assembleia dos empregados do BANERJ — aquele onde existem mais ativistas — com a presença de treze elementos de base. A executiva do conselho Intersindical, formada por treze entidades, não tem obtido quórum para suas reuniões. Todos vivem as eleições, enquanto a vida nacional passa do lado de fora da janela, o governo aproveitando para enviar projetos ao Congresso e o governo estadual à Assembleia Legislativa, sem que os sindicatos sequer percebam.

Como vêm alguns destes homens tais problemas pelos partidos que optaram? Os do PT é fácil entender. Eles estão construindo o seu partido, têm uma estratégia com vistas voltadas para um futuro não tão próximo. E os outros?

Ivan Pinheiro diz que o PMDB “continua sendo o partido que exprime a frente e que tem condições para eleger o maior número de governadores e a bancada mais numerosa de oposição. Para ele, que conta, nas suas declarações com o apoio de Eraldo Lirio, essa é a mesma frente que conseguiu a anistia, as eleições diretas para governador e o fim das torturas. O momento é para a unidade sem discriminações”.

CAUDILHISMO

Nery, o gráfico, definiu-se:

“em primeiro lugar, pelo problema do estado. O PMDB no Rio está profundamente identificado com a patronal. Por outro lado, há o problema nacional. Os partidos agora existentes são frentes que fatalmente vão se dividir, inclusive o meu, o PDT. Agora, os chaguistas vão eleger 80 por cento dos candidatos do PMDB. O que vai ser dos oposicionistas autênticos depois das eleições?”

Reconhece, por outro lado, que o PDT sofre do problema do “Caudilhismo” de Brizola, mas isso é secundário em função da sua linha nacional”.

Ivan Pinheiro e Eraldo Lirio, membros do secretariado da PROCUT, acham que apesar de tudo, a divisão e a partidarização não prejudicaram muito a coordenação nacional do movimento: “A sectarização já era anterior. Então permaneceu tudo como era”, se bem que o camponês é mais incisivo: “Não deu para tirar o trem do caminho, mas foi necessário dobrar a paciência para progredir”.

Mas, é preocupação geral que, passadas as eleições, o movimento recomponha com o espirito de ampliação e de unidades que orientou a formação da Executiva da Intersindical, onde todas as forças importantes estão representadas.

“O movimento sindical, principalmente o operário, sofre uma fase de descenso, devida em parte também à polarização da sociedade pela questão eleitoral, quando boa parte dos quadros operários e sindicais passaram a mobilizar-se com destaque, em torno da luta geral e parlamentar e democracia. Acontecimento natural, uma vez que os dirigentes sindicais são eles próprios dos melhores quadros políticos da nação, desviou, no entanto, forças fantásticas do trabalho de organização da classe como tal, para classe como tendência política”.

Tal formulação, rejeitada no final de junho pelo 2º Encontro Estadual dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, parece escrita hoje, quando os aparelhos de alguns sindicatos se apresentam rachados de cima baixo, como no caso dos rodoviários.

Vitoriosos e derrotados, ou apenas derrotados, os peemedebistas e os pedetistas terão que conviver e apresentar-se juntos, frente à categoria, para enfrentar o descrédito que eles mesmos construíram.

INTERSINDICAL

Com o 2º encontro, o setor politicamente mais ativo do sindicalismo fluminense sofreu um redirecionamento, graças, fundamentalmente à mudança da política de alianças dos comunistas ligados ao Comitê Central. Acabaram levando à pratica o seu discurso contra a “partidarização” do CONSELHO INTERSINDICAL e trocaram uma relação “privilegiada” com o MR-8 (seu parceiro no PMDB) por uma ampliação do “leque de força”, incorporando a executiva do órgão, entidade sob a influência do PDT e do PT. Não foi, certamente, um redirecionamento pacifico. A reunião interrompida duas vezes em consequência de agressões de sindicalistas próximos ao MR-8 a dirigentes simpatizantes do PC.

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