22 anos sem Luiza Barreto Leite

☼ Santa Maria, RS, em 01/10/1909 † Rio de Janeiro, RJ, em 01/12/1996

Luiza Barreto Leite 016

Luiza Azevedo Barreto Leite Sanz foi educadora, jornalista, atriz, radialista apaixonada por seus ofícios; mãe, avó, bisavó,filha, irmã, tia, cunhada, amiga e professora amantíssima, além de esposa paciente e fiel, enquanto durou. Amor que estendia também a alguns dos seus professores e colegas. Foi também sindicalista, participando da Diretoria do Sindicato dos Artistas do Estado do Rio de Janeiro, militando no Sindicato dos Jornalistas e participando da Fundação, em 1945, do Partido Socialista Brasileiro, ao lado de seu irmão, o jornalista Barreto Leite Filho e do crítico de Arte e pensador político Mario Pedrosa. Uma das realizações de que mais se orgulhava era a criação do I Seminário de Dramaturgia Carioca. Fundou Os Comediantes, marca fundamental do moderno Teatro Brasileiro, a Cooperativa de Espetáculos Novos de Arte, a primeira iniciativa autogestionária de empresas cênicas no Brasil e pertenceu ao Teatro Popular União e Olho Vivo, praticamente desde a fundação até sua morte. Luiza foi a pessoa mais agregadora que conhecemos, como lembra meu filho André Luiz da Silva Sanz.

Durante sua vida, sobretudo na maturidade e na velhice, fez anotações em todos os papéis que tivesse às mãos, incluindo livros de contabilidade e de atas cuja vida útil já terminara. Pesquisando em caixas de papelão, pastas e envelopes para tentar recompor os registros de sua vida e recuperar obras inéditas, correspondências, versões originais de artigos, roteiros, peças e livros, alguns nunca publicados, eu as encontrei. Publico aqui algumas destas anotações, com o carinho de seus filhos Sandra, Sergio e Luiz Alberto por essa mulher preocupada com toda a Humanidade e nostálgica do seu Rio Grande do Sul.

Anotações de uma mulher preocupada

Estou sempre preocupada com alguém ou com alguma coisa. Parece-me estar sempre em dívida. Com a vida? Com a morte? Com as pessoas? Dívidas de dinheiro, jamais! Sempre pago todas em dia. Só atraso o analista e um ou outro milionário, e assim mesmo não por muito tempo. O analista é milionário? Sei lá, nem me interessa. Ou talvez seja. Milionário de ternura. Da ternura que ele sabe captar, pois conhece o segredo.

Sim, é isto: detesto dever e por isto até ternura dou mais do que me pedem. Mais do que as pessoas são capazes de suportar. Ou dava. Agora estou ficando diferente. Começo a só dar o que pedem e, então, noto o quanto as criaturas, emocionalmente, pedem pouco. Talvez desejem, mesmo ardentemente, mas não pedem e parecem sufocadas quando a gente insiste em dar nas horas fechadas.

Sim, é isto: há horas fechadas e horas abertas, como portas. Mas quem se interessa por penetrar através das portas sempre abertas? Mas, às vezes, as portas se abrem, ou são feitas de vidro, justamente para não despertar a atenção dos mexeriqueiros, dos ladrões ou da polícia. Pois só os mexeriqueiros, os ladrões e a polícia penetram onde ninguém os quer. (…)

(Escritas provavelmente em meados dos anos 60)

Aquela consciente e racional

“Aquela que traiu e aquela que foi traída
Aquela que tanto amou e aquela que foi amada
Aquela que viveu e aquela que sonhou
Aquela que tudo soube e aquela que ignorou.

Todas um dia envelhecem e,
ao encarar a face da morte,
encontram no infinito a pureza da solidão.

Por isto, é preciso rezar por aquelas que morrem cedo,
por aquelas que não sofreram e da vida nada levaram.”

Encontrei este arremedo de poema entre as mil notinhas que vivo escrevendo e perdendo — ou jogando fora. Pois vou aproveitá-las de agora em diante em homenagem aos que ainda acreditam em mim. Em homenagem sobretudo às minhas amigas Heloisa e Wanda[1], responsáveis pelo livro que talvez saia deste amontoado de fatos e memórias distorcidas. E também de Betinha e Arlette[2], que sempre acreditaram em mim, e, mais ainda, de Luiz Alberto, meu Neném, e de José Ribamar[3], que não gostam dos meus livros porque acreditam que posso fazer melhor.

Será meu o poema acima? Só pode, de tão ruim, se fosse de outra, nem a viciada em novela de Tv que minha parte consciente renega teria coragem de copiar e guardar. Pois esta sou eu, consciente, racional, conservada e cultivada

(A letra, ainda firme, indica o final dos anos 80, começo dos 90 como época provável )

Ânsia frustrada

Hoje, uma das minhas vizinhas falou:

“ Eu sempre via você no Café Amarelinho. Você sacudia lindos cabelos dourados caídos sobre os ombros e eu dizia:

‘— Não me conformo de ver uma garota tão bonita casada com um homem tão feio[4].’

“Um dia me explicaram que ele era muito inteligente e vocês se entendiam muito bem.”

“— Muito inteligente, muito mais do que ele mesmo pensa – respondi – mas, de que serve a inteligência incapaz de construir.”

E fiquei pensando: de que nos serve lutar contra a ignorância enquanto o mundo for dominado pela neurose? Há ignorâncias construtivas e genialidades piores que incêndios na mata, mas haverá neurose sem ignorância? Afinal, que será a neurose senão a obscura ânsia de realização através do conhecimento construtivo? Ânsia frustrada.

[1] As escritoras e dramaturgas Heloísa Maranhão e Wanda Fabian. Heloísa também lecionava na Escola Dramática Martins Penna, como Luiza.

[2] A editora Elizabeth Lins do Rego, responsável pela publicação de “A Mulher no Teatro Brasileiro”, de Luiza, e Arlette Neves Milito, jornalista, amiga e umbandista, como Luiza.

[3] Dr. José Ribamar Neves, irmão de Arlette, médico e intelectual brilhante, amigo fiel e leal de Luiza, a quem ela queria como um filho.

[4] José Sanz, Marido de Luiza, era crítico cinematográfico e de jazz, Curador da Cinemateca do MAM, organizou o Simpósio de Ficção Científica do FIF, foi editor, livreiro, sindicalista bancário na adolescência e juventude, fez parte da Cooperativa se Espetáculos Novos de Arte, presidida por Luiza, do Teatro Experimental do Negro, assistente do cineasta Alberto Cavalcanti, tradutor e coordenou coleções de Ficção Científica, entre outras muitas atividades.

2 comentários sobre “22 anos sem Luiza Barreto Leite

  1. Minha Avó Luíza, foi a pessoa mais agregadora de nossa Família, vejo hoje que a época em que fui mais próximo de meus tios( as) e primos (as) foi enquanto ela nos manteve próximos. Não tenho como esgotar o que pode ser dito à respeito do que ela representa para cada um dos netos, mas levar à praia um grupo de netos, sendo a única adulta, não é pra qualquer Avó. Saudades minha Avó Amada. Com Amor Dedé.

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