O turno decisivo ainda está por vir

Instituto de Estudos Libertários (IEL) – Outubro 2026

“O Fascismo não se vence nas urnas”. Essa foi a lição que nós, anarquistas, extraímos da Revolução Espanhola. Entretanto, a história tem mostrado que o fascismo vence e se impõe também pelas urnas. E é essa vitória, por vezes esmagadora, que estamos assistindo mais uma vez  em vários países do mundo. Enquanto nem nossos sonhos, nem nossos anseios políticos mais básicos cabem nas urnas, eleições podem servir como trampolim dos mais esdrúxulos projetos de poder. E é esse o risco que corre o Brasil neste segundo turno das eleições presidenciais. As razões são várias e devem ser analisadas sem deixar de considerar nossa própria responsabilidade por termos chegado a esse ponto e que mudanças devemos implementar na nossa própria atuação política para mudar esse quadro.

Alega-se que “a esquerda” abandonou as bases. Nós, anarquistas, não as abandonamos; continuamos a atuar junto a organizações de trabalhadores e trabalhadoras, estudantes, moradores e moradoras de favelas e periferias e aos povos em luta e seus movimentos sociais. Com eles construímos experiências populares de educação e cultura, espaços e bibliotecas comunitários, centros sociais e cooperativas de trabalho. Todas estas iniciativas se inspiram na horizontalidade, no apoio mútuo, no coletivismo comunitário e nos princípios básicos da autogestão generalizada. Vemos nosso papel como sincera e humilde contribuição às lutas anticoloniais e anticapitalistas indígenas, negras e populares por um mundo no qual o futuro se apresenta como possibilidade e não como abismo.

Fazemos tudo isso sem abrir mão das nossas convicções sobre o papel ilusionista e enganador da chamada democracia representativa e das eleições como estratégia transformadora da sociedade. Na verdade, para nós essa é uma equação política relativamente simples: onde sobra energia para fazer a campanha eleitoral, falta nas iniciativas populares. Um aspecto do problema que não pode ser ignorado ainda que as condições nos pareçam as mais adversas.

Sobre o voto em momentos de grande comoção

Vamos aos fatos. Se para justificar o voto nulo for preciso recorrer às falsas equivalências entre as candidaturas, estamos diante de uma desculpa e não de um argumento. No caso atual é preciso reconhecer que os programas políticos e as candidaturas têm configurações bem diferentes. Da mesma forma, se para justificar o voto útil ignora-se que o rito das eleições é burguês e que a dimensão democrática é um simulacro, estamos diante de uma alucinação política. Nesse sentido, o voto nulo e o útil se assemelham, tornando a questão da luta social um aspecto secundário.  Não se trata do que se fará nas urnas, mas daquilo que se deixou de fazer até aqui.

A grande questão está na adesão acrítica ao processo, motivada  por urgências que não fazem parte do nosso projeto de sociedade e que, acabam por substituí-lo pelo de um regime que pretendemos ver superado. Um fato que termina produzindo uma enorme confusão sobre qual é o nosso verdadeiro papel como agentes político, levando-nos, na prática, a adotar o programa dos nossos adversários.

O turno decisivo que está por vir: da urgência do momento eleitoral à urgência permanente de construir a luta no “terceiro turno”

Se o extremismo de direita e os protofascismos são fenômenos de abrangência global, é confortável demais culpar unicamente o partidarismo de esquerda, como é leviano não buscar entender o seu papel no enfraquecimento da luta antifacista. É fácil afirmar que falta uma “volta da esquerda às bases” e lamentar que apenas “a direita” estaria fazendo trabalho de base. Quem dos que dizem isso está disposto a fazer um trabalho em movimentos sociais, em organizações setoriais e de bairro, junto a iniciativas comunitárias de forma contínua? Quem está disposto a fazer da luta parte de sua vida cotidiana?

O fato da disputa política ser travada cada vez mais no mundo dos algoritmos, com alarmantes sinais de controle dos nossos cérebros e emoções, é desculpa  para não sair de casa? Ou é razão de justamente sair do sofá e do celular e voltar a apostar em relações pessoais junto a pessoas que não fazem parte do nosso círculo, em atividades que vão além de trabalho-estudo-lazer? Será que temos coragem de nos dedicar, para além da mobilização eleitoral, a trabalhos de base que mudam nossas vidas, que exigem tempo, energia, dedicação e que nos devolvam a capacidade de pautar questões sobre como vivemos em sociedade muito para além de decisões a respeito do que consumimos, de quem seguimos ou de quem ganhamos likes, ou em quem votamos?

Se é fato que o projeto da extrema direita avança se o bolsonarismo tomar o governo pela segunda vez, é perigosa a esperança de que um novo mandato do Lula fará o fascismo recuar. É por isso que estamos preocupados e precisamos nos preparar para o terceiro turno. E esse se inicia no dia 26 de outubro e durará quatro anos, oito anos, nossas vidas inteiras. Temos que resgatar capilaridade social com aquilo que fazemos e defendemos. O destaque está no fazer: para propor alternativas, precisamos estar fazendo; fazendo juntos e fazendo diferente. 

Depois do segundo turno, vamos esquecer do medo e do susto? Se o Lula vencer de virada, cada um/a voltará para suas zonas de conforto? Ou se o Lula perder vamos cair em uma apatia semelhante àquela do primeiro desgoverno bolsonarista? Ou vamos despertar com o susto e nos organizar a médio e longo prazo?

Se o fascismo pode vencer nas urnas, ele constrói seu projeto de poder muito antes e muito além delas. Por isso, somente é possível vencê-lo todos os dias do ano, em todas as nossas relações, nos trabalhos que realizamos fora da nossa zona de conforto e que tenham alcance para além das nossas bolhas. O futuro próximo do Brasil vai ser diferente a depender de quem vai ganhar as eleições. Nossa luta e a urgência do trabalho das, nas, pelas e para as bases, não. Enquanto estamos juntos na esperança que Flávio Bolsonaro possa ser barrado no segundo turno, vamos nos preparar para o turno decisivo? O terceiro turno  está apenas começando!

https://ielibertarios.wordpress.com

Formar núcleos de resistência para avançar

às urnas, em defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores

Luiz Alberto Barreto Leite Sanz

Com o respeito inabalável que dedico a todos os camaradas que têm a coragem de assumir-se como libertários e/ou anarquistas, mergulhando nas tarefas cotidianas de mudar o mundo mesmo que saibamos que a maior parte de nós não o verá mudado, argumento que estamos tomando por estratégica uma palavra de ordem tática. Nem sempre os anarquistas se abstiveram ou anularam seus votos. Em 1936, no Estado Espanhol, os anarquistas foram às urnas em apoio à Frente Popular, da qual não faziam parte, para impedir a vitória eleitoral do fascismo. Em 2018, os libertários mexicanos reunidos em torno do EZLN e do Conselho Nacional Indígena lançaram à Presidência da República a médica tradicional do povo nahua María de Jesús Patrício Martínez, porta-voz do Conselho Indígena de Governo. O objetivo? Deixar claro o caráter enganador das eleições gerais mexicanas e a independência do movimento indígena ante os conluios eleitorais.

Penso que estamos em uma situação semelhante à vivida no Estado Espanhol na que foi a última eleição da II República. A Frente Popular não era muito diferente do que é a aliança em torno a Lula e a Frente Nacional de Gil Robles tampouco diferia muito do que é o amontoado direitista de Bolsonaro. Em lugar do clero católico encabeçado pela Opus Dei, temos os neopentecostais.

Eu me abstive no primeiro turno, coerente com a convicção de que deveria ficar patente que a rejeição ao sistema é tão grande que torna ilegítima a vitória de qualquer das partes. Neste segundo turno, frente à possibilidade de vitória eleitoral dos fascistas e a ameaça de golpe implícita na ascensão da ultradireita ao controle do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, que terá quatro membros indicados pelo próximo presidente,

votarei #contraofascismo

votarei #13,

sem que isto signifique que apoio sua política e seus aliados. E convido a todos que prefiram lutar em liberdade por uma sociedade mais justa para que se somem à

#ResistênciaAntifascista,

Preparando desde já o

#terceiroturno.

Articulando e organizado as bases antifascistas e populares, sem sectarismos ou pretensões hegemônicas, porque a ultradireita e seus aliados internacionais não sossegarão, derrotados ou vitoriosos.

PALAVRAS DE CARLA SALINAS QUANDO DA MORTE DE JUAN ALISTE

14 de outubro de 2026

Este texto foi lido nas cerimônias de despedida de Juan, que morreu no dia 11 de outubro, após um longo período de doença, no Hospital Penal da Penitenciária de Santiago de Chile. Sua esposa, a cineasta, pesquisadora e professora anarquista Carla Salinas, pôde acompanhá-lo em seus últimos dias. Lá estava quando “ele deixou de respirar e perdeu o calor”, como descreveu. Juan era um revolucionário, SUBVERSIVO como se apresentava, e ficou mais de 15 anos preso por um crime que lhe imputaram. Permanecerá em nossas memórias.

Hoje, precisamente hoje, falar de Juan parece impossível e ridículo, hoje, que é um dia como estes dias que parecem um tempo disperso e alheio.

É ridículo tão só pensar em como falar de Juan, talvez como falar com Juan ou desde Juan, falar com Juan. Ponderar que historia eleger ao narrar, que episódio entre milhares, que paisagem, que decisão, que conquista. Qual sensação descrever, qual carícia, qual riso ou desconcerto. Propor um tom a cerca de Juan.

Tudo disto e daquilo que eu possa dizer de Juan, tem origem e destino último em uma verdade total e indiscutível: Juan foi a pessoa mais livre que conheci.

Abraçou a Liberdade como ao mais belo dos riscos e à vida lhe ocorreu estrondosa e intensa. A vida se arriscou nele, a vida o envolveu incandescente, a vida emanou do pacto intransigente com os mortos,com a memória e com a História.

Essa experiência transtornadora de liberdade encontrou asilo em uma vontade férrea, uma delirante obstinação que dominou cada decisão e cada ação desde muito pequeno até a última das forças.

Aquela liberdade vital caminhou de mãos dadas com os medos. Domesticou com ternura o medo à solidão, à dor, ao amor, ao apego, às palavras ou ao silêncio. A liberdade vital desafiou fortemente o medo a confiar, submeteu o medo à traição, ao perdão, ao cisma.

O medo à adulação, ao elogio, ao oportunismo e ao protagonismo deu vida à liberdade vital.

Nunca houve medo aos inimigos.

Juan e eu nos conhecemos há quase 19 anos, num tempo de céu, mar, noite, juventude e vigor. Também nos conhecemos desde sempre, em um tempo de brincadeira e cumplicidade, de imaginação, sonhos e memórias. Juan e eu nos amamos, nos acompanhamos, nos contivemos e nos aprendemos quase sempre com amor. Juntos vagueamos e juntos traquinamos em algum esquivo acerto.

Agora que veio esta morte, falar de Juan parece impossível e ridículo, incômodo, torpe e muito triste. Todxs somos muitos e estamos em muitos lugares. Todxs temos muita dor e temos medo a esta dor.

Finalmente, se é questão de especular, creio que Juan, se padecesse a esta dor, estaria assustado frente ao medo, assim como todxs estamos. Também creio que Juan frente a este medo, pouco a pouco, dia a dia, o moldaria pequeno, denso e aerodinâmico para percuti-lo sem medo contra o medo e contra o inimigo. Também creio que, passo a passo, o tornaria pó que deflagra e rompe. Uma vez incriminado o medo se poria a gozar o cheiro seco no ar e o momento surdo de ruído.

53 anos de um anjo torto, Joca Sanz

Luiz Alberto Sanz

Torquato Neto e Jards Macalé:

“quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that”

Recorro a estes versos para comemorar o aniversário de meu caçula, aquele que o exílio chileno e minha amada Odila me presentearam quando acreditávamos ter encontrado uma segunda pátria, que chegaria pacificamente ao socialismo. Mas ele nasceu quando a ventania já trazia o golpe fascista em seu bafo, quatro dias antes do tanquetazo, balão de ensaio para o 11 de setembro. Desde então foi uma vida de correrias, fuga, viagem em avião cargueiro militar fichamentos, má alimentação, vacinações, tudo que pudesse estressar um recém-nascido.

Hoje, 25 de junho de 2026, não vou contar sua história, vou tentar homenageá-lo com imagens. Algumas que encontrei na bagunça do meu arquivo, tão incompleto.

João Luiz no meu colo, na Villa Santa Isabel, na hoje comuna de Sán Ramón, julho de 1973.





Joca só conseguiu seu passaporte, mesmo com decisão judicial favorável, depois da Anistia. Tinha 5 anos.
Primeiro café caseiro no Brasil, 10 de dezembro de 79, preparado pela Vó Iá. Bom apetite e mau humor.

Encontro de Família em Maravista: José Luiz, Mônica e André Luiz Sanz, Jussara e Maria Luiza Araújo, João Luiz e Maria Carolina Sanz.




Eleições e Partidarização no começo do recomeço

Memória:

Há 24 anos, efervesciam os conflitos resultantes da radicalização inspirada pelas primeiras eleições mais ou menos livres desde o início da Ditadura Fascista de 1964 no Brasil. Em junho se realizara o II Enclat, que decidiu pelo adiamento do Congresso das Classes Trabalhadoras para 1983. Isso deixou insatisfeitos sobretudo petistas e pedetistas, que contavam capitalizar os postos conquistados na nova Central para fortalecer suas presenças nos parlamentos e Executivos de todo o País. Afinal, eram eleições gerais, de vereador a senador, só ficaram de fora Presidente e Vice. O II Enclat se constituiu num laboratório experimental da divisão que se gestava praticamente desde que a reunião de Gragoatá, em 1979, consttuíra uma precária unidade.
Em 21 de outubro, publiquei no Jornal de Brasília, novamente como correspondente, uma análise da situação, a partir dos episódios de pugilato do Segundo Enclat fluminense, que terminou num grande confronto em que mais se feriram os que foram apartar. Mas, essa história fica para outra memória do Neném, agredido a dentadas por um metalúrgico.

Rio de Janeiro, 21 de Outubro de 1982

IDEOLOGIAS PARTIDÁRIAS DIVIDEM TRABALHADORES

Luiz Alberto Sanz (Correspondente)

INSTRUMENTALIZAÇÃO

Os pontos centrais no conflito eram a realização do congresso das classes trabalhadoras ainda em 1982 (antes das eleições), e a eleição da intersindical. Um grupo grande de delegados, que dividia ao meio os pedetistas, peemedebistas e os petistas, era pela transferência do congresso para 1983. Achavam que seria inevitável, como dizia na época um dirigente dos professores, a partidarização e a divisão do movimento em função das eleições parlamentares e governamentais. As razões, para isso, eram muitas, tantas quantos os candidatos sindicalistas distribuídos pelos diversos partidos, em todo país. Não cabem dúvidas de que o partido que conseguisse maioria, ou pelo menos os cargos mais significativos na Central Única dos Trabalhadores capitalizariam para sua campanha este fator exclusivamente sindical.

O pensamento pode ser resumido assim: Lula, é, sem dúvida, o líder sindical urbano de maior projeção nacional. O mais conhecido, com maior passagem nos meios de comunicação e que é respeitado pelos trabalhadores em todos os estados. Mas ele não é candidato a governador de São Paulo por todos os trabalhadores, apenas por aqueles que simpatizam com o PT. Assim, seria muito viável que fosse escolhido do II Conclat como secretário-geral da CUT, (Central Única dos Trabalhadores), não seria justo que capitalizasse isso para eleger-se governador.

Tal situação foi parcialmente revelada quando um estudante do PT, presente ao debate de Miro Teixeira na Universidade do Estado Rio de Janeiro, afirmou que o I Conclat decidira que todos os trabalhadores deviam organizar-se no seu partido. Possivelmente mais uma demonstração de ignorância de que mentira. Mas é possível imaginar, por exemplo, as consequências para a candidatura de Carlos Alberto de Oliveira — o popular Caó — líder dos jornalistas do Rio, se fosse eleito para posição no secretariado da CUT, às vésperas das eleições. Certamente seria uma ajuda providencial à sua candidatura para deputado federal, pelo PDT.

APARTIDÁRIO

            As propostas apresentadas na reunião dos trabalhadores fluminenses em junho, recomendando não votar no PDS, foram rejeitadas. Não que os delegados apoiassem o partido do presidente Figueiredo, pelo contrário. Mas a ideia é que isso implicaria numa definição partidária. Assim o repúdio aos parlamentares que votaram a favor do pacotão da previdência, incluía todos os representantes do partido de Moreira Franco, mas tinha um fundo absolutamente sindical.

Por outro lado, o 1º Congresso Estadual dos Metalúrgicos não foi assim tão sutil. Em Itatiaia, 175 delegados aprovaram seis pontos quanto as eleições:

“Nosso dever é participar de todos os movimentos que visem:

1º – O exercício de uma democracia plena.

2º – O estabelecimento das prerrogativas do congresso.

3º – O restabelecimento das imunidades parlamentares.

4º – Realização de eleições realmente livres, limpas e diretas em todos os níveis.

5º – Eleições de uma assembleia nacional constituinte após o fim de todas as leis de exceção.

6º – Votar na oposição com o objetivo de derrotar nas eleições o PDS.”

É lógico que, com maior ou menor variação, as posições das diversas correntes atuantes no movimento sindical são semelhantes, do ponto de vista programático. É assim que todos os candidatos sindicalistas do Rio lutam por:

  • Garantia de emprego e direito de greve para todos os trabalhadores, inclusive os servidores públicos.
  • Liberdade e autonomia sindicais.
  • Reajuste trimestral.
  • Participação dos trabalhadores na gestão da previdência social.
  • Reforma agraria ampla, massiva e imediata, com participação dos trabalhadores rurais na sua execução.
  • Fim da política econômica recessiva.
  • Revogação da lei de segurança nacional.
  • Direito de sindicalização dos servidores,
  • Assembleia constituinte livre e soberana,
  • Salário-mínimo real e unificado.

Pontos aprovados, sem divergências fundamentais, pelo conjunto das tendências reunidas no encontro estadual de junho.

LIDERANÇA

É na aplicação desse programa, na sua condução, que se concretizam as divergências que dividem os homens. Assim, da principais lideranças sindicais do Rio, o PDT deslocou Carlos Alberto de Oliveira e Sebastião Ataíde dos seus postos à frente das suas entidades de classe, para candidaturas à deputação federal. E o primeiro, presidente dos jornalistas, é considerado imprescindível, por seus companheiros, ao bom funcionamento da Intersindical. Político hábil, ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, “Caó” era capaz de costurar as situações mais delicadas; e Ataíde permitiu a partidarização do sindicato dos rodoviários ainda no tempo que andou conversando com o finado PP e depois quando passou pelo PMDB. Quando apareceu candidato pelo PDT teve que enfrentar-se com seus antigos companheiros de diretoria, que não concordaram com a “instrumentalização” do sindicato.

O PMDB também fez três deslocamentos importantes: o líder da greve mais importante realizada no Rio de Janeiro antes da abertura, Godofredo Pinto — presidente do Centro Estadual de Professores — lançou-se candidato a deputado estadual. Francisco dal Pra, presidente da Federação dos Metalúrgicos do Estado e uma das lideranças mais importantes na oposição à atual direção da CNTI — Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria — concorre ao cargo de vice-prefeito de São Gonçalo. O terceiro, menos conhecido, não é menos poderoso: Raimundo Leone Santos, presidente do Sindicato de Trabalhadores Agrícolas de Itaboraí, considerado como o segundo em peso político entre os “rurais”, devendo integrar a chapa de situação para a federação da sua categoria no cargo de secretário geral. Candidata-se a vereador na sua cidade.

O PT não deslocou nenhuma das suas lideranças principais, no campo sindical, para candidaturas. Parece entender a necessidade, aqui no estado, de fazer crescer sua influência nas entidades de classe e ajudar o movimento dos trabalhadores a crescer. Seus candidatos mais conhecidos são os presidentes dos radialistas, Antônio Luciano Fuser, o Médico Luís Tenório, que teve atuação destacada na greve da categoria em 80 mas que foi derrotado, quando concorreu, pela oposição, à diretoria do Sindicato. Luciano é candidato a deputado federal e Tenório a suplente de senador.                                             

OPÇÕES

Desde que as eleições se tornaram um fato, quando morreram as perguntas “mas você acredita mesmo que vai haver eleição?” muitas opções foram feitas. Com a recomposição partidária, aqueles sindicalistas que estavam fechados em todas as questões — praticamente — no encontro estadual dos trabalhadores se separaram. Foi o caso de Ivan Pinheiro, bancário, Secretário Administrativo da PROCUT e Secretário-Geral da INTERSINDICAL FLUMINENSE (PMDB) e Nery Onofre Rodrigues, Primeiro Secretário do Sindicato dos Gráficos e secretário de Comunicação Social da INTERSINDICAL DO RIO (PDT).

É verdade que, no plano sindical, nas formulações de classe, continuam afiados, formando um quarteto com seus companheiros Santos Nogueira, rodoviário (PMDB); Geraldo Candido da Silva, metroviário (PT); integrantes do secretário da Intersindical.

O fato mais marcante para o movimento sindical, como conjunto foi a desmobilização. O sindicato dos bancários, por exemplo, encerrou uma negociação de convenção coletiva com uma assembleia dos empregados do BANERJ — aquele onde existem mais ativistas — com a presença de treze elementos de base. A executiva do conselho Intersindical, formada por treze entidades, não tem obtido quórum para suas reuniões. Todos vivem as eleições, enquanto a vida nacional passa do lado de fora da janela, o governo aproveitando para enviar projetos ao Congresso e o governo estadual à Assembleia Legislativa, sem que os sindicatos sequer percebam.

Como vêm alguns destes homens tais problemas pelos partidos que optaram? Os do PT é fácil entender. Eles estão construindo o seu partido, têm uma estratégia com vistas voltadas para um futuro não tão próximo. E os outros?

Ivan Pinheiro diz que o PMDB “continua sendo o partido que exprime a frente e que tem condições para eleger o maior número de governadores e a bancada mais numerosa de oposição. Para ele, que conta, nas suas declarações com o apoio de Eraldo Lirio, essa é a mesma frente que conseguiu a anistia, as eleições diretas para governador e o fim das torturas. O momento é para a unidade sem discriminações”.

CAUDILHISMO

Nery, o gráfico, definiu-se:

“em primeiro lugar, pelo problema do estado. O PMDB no Rio está profundamente identificado com a patronal. Por outro lado, há o problema nacional. Os partidos agora existentes são frentes que fatalmente vão se dividir, inclusive o meu, o PDT. Agora, os chaguistas vão eleger 80 por cento dos candidatos do PMDB. O que vai ser dos oposicionistas autênticos depois das eleições?”

Reconhece, por outro lado, que o PDT sofre do problema do “Caudilhismo” de Brizola, mas isso é secundário em função da sua linha nacional”.

Ivan Pinheiro e Eraldo Lirio, membros do secretariado da PROCUT, acham que apesar de tudo, a divisão e a partidarização não prejudicaram muito a coordenação nacional do movimento: “A sectarização já era anterior. Então permaneceu tudo como era”, se bem que o camponês é mais incisivo: “Não deu para tirar o trem do caminho, mas foi necessário dobrar a paciência para progredir”.

Mas, é preocupação geral que, passadas as eleições, o movimento recomponha com o espirito de ampliação e de unidades que orientou a formação da Executiva da Intersindical, onde todas as forças importantes estão representadas.

“O movimento sindical, principalmente o operário, sofre uma fase de descenso, devida em parte também à polarização da sociedade pela questão eleitoral, quando boa parte dos quadros operários e sindicais passaram a mobilizar-se com destaque, em torno da luta geral e parlamentar e democracia. Acontecimento natural, uma vez que os dirigentes sindicais são eles próprios dos melhores quadros políticos da nação, desviou, no entanto, forças fantásticas do trabalho de organização da classe como tal, para classe como tendência política”.

Tal formulação, rejeitada no final de junho pelo 2º Encontro Estadual dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, parece escrita hoje, quando os aparelhos de alguns sindicatos se apresentam rachados de cima baixo, como no caso dos rodoviários.

Vitoriosos e derrotados, ou apenas derrotados, os peemedebistas e os pedetistas terão que conviver e apresentar-se juntos, frente à categoria, para enfrentar o descrédito que eles mesmos construíram.

INTERSINDICAL

Com o 2º encontro, o setor politicamente mais ativo do sindicalismo fluminense sofreu um redirecionamento, graças, fundamentalmente à mudança da política de alianças dos comunistas ligados ao Comitê Central. Acabaram levando à pratica o seu discurso contra a “partidarização” do CONSELHO INTERSINDICAL e trocaram uma relação “privilegiada” com o MR-8 (seu parceiro no PMDB) por uma ampliação do “leque de força”, incorporando a executiva do órgão, entidade sob a influência do PDT e do PT. Não foi, certamente, um redirecionamento pacifico. A reunião interrompida duas vezes em consequência de agressões de sindicalistas próximos ao MR-8 a dirigentes simpatizantes do PC.

Memórias do Neném: Partidarização nos sindicatos

Luiz Alberto Sanz

(Nome de guerra: Neném Barreto Leite)

“Os trabalhadores (…) têm que dar a luta política para poderem realizar seus objetivos econômicos. Em consequência, o Sindicato passa a ter uma nova meta: representar politicamente a classe, toda a classe. Aos sindicatos cabe lutar pelos interesses econômicos e políticos dos trabalhadores. Sejam de que partido forem”.

(Chapa Integração, eleita para o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado do Rio de Janeiro em 1971)

Me apresentando: No começo da década de 60, fui repórter do semanário Novos Rumos, do PCB, e editor sindical do também semanário Movimento, da UNE. No exílio, fiz parte da equipe do periódico Tribuna Sindical, editado pelo excelente jornalista alagoano Nilson Miranda, membro do Comitê Central do Partidão, de quem fiquei amigo próximo. De volta ao Brasil, em dezembro de 1979, filiei-me ao Sated/RJ, onde minha mãe (Luiza Barreto Leite), meu irmão (Sérgio Sanz) e meu “pai putativo” João Ângelo Labanca militavam e haviam participado ativamente da luta e das negociações pela regulamentação da profissão, junto com a inesquecível Presidente Vanda Lacerda. Aí, entre outras atividades e funções, editei o periódico Cena Livre, representei a categoria, junto com Labanca, na Executiva da Unidade Sindical, nos Encontros Nacionais de Artes Cênicas, nos três Enclats e dois Conclats de Praia Grande. Fui Secretário Geral na gestão da atriz Maria Pompeu e Presidente quando ela renunciou.

Em todos os países por onde passei, encontrei problemas semelhantes aos apontados pelo petroleiro Antony Devalle em seus artigos publicados no sítio da Organização Popular (OP): Mas a hstória da partidarização dos movimentos sociais vem de muito antes. Tem suas raízes mais evidentes no golpe bolchevique de novembro de 1917 que detonou a Revolução dita Soviética, começando por partidarizar os próprios sovietes (Conselhos de Operários, Soldados, Camponeses e Intelectuais que discutiam os rumos do movimento revolucionário) deixando-o na ignorância de que o comando do Partido Operário Social Democrata da Rússia já decidira tomar o poder à revelia de todos.

“Todas as centrais sindicais hoje são hegemonizadas por partidos. A CUT pelo PT, a CTB pelo PCdoB, a Força Sindical (conhecida no movimento como Farsa Sindical pela sua ligação especialmente estreita com o patronato) pelo Solidariedade… A Conlutas pelo PSTU. Todas, em maior ou menor grau, atuam numa lógica de tentar fazer dos sindicatos suas sucursais.” (https://share.google/JlLzfVTVPM571bjkn)

Na Suécia, quando lá estive, era oficializado. A maior central, Lands Organizationen (LO) era (é) socialdemocrata. Não sei agora, então vou me referir no passado, salvo exceções.

Para trabalhar em determinados setores, era preciso filiar-se ao sindicato e, automaticamente, ao partido. Eu era membro da independente Federação dos Portuários Hamnarbertar Förbundet) que representa e aglutina a maioria dos estivadores, que atuam por seu intermédio.

Fundada em 1972, nela ingressei dois anos depois. Era uma sensação estimulante poder atuar e trabalhar fora da “gaiola” dos partidos e de alguma forma contribuir para uma alternativa à neutralidade que alimentava a hipocrisia do estado e dos partidos.

A Suécia de Palme e do PSD convivia e seus antigos seguidores convivem com a monarquia e estatutariamente professam o republicanismo. Apoiaram Cuba, Vietnam, a luta contra o apartheid na África do Sul e o Chile de Allende (e fizeram grandes negócios, como tinham feito na II Guerra Mundial). Acolheram refugiados de todas as partes e raros foram os que tiveram oportunidades à altura da sua capacitação.

Ali conheci gente de muitas tendências: revolucionários de Tigré, do Irã, suecos, da Eritreia… Vi o tigrino e o eritreu concordarem sobre o futuro da antiga Abissínia, apesar das divergências dos líderes de seus povos que se chocariam em uma guerra civil menos de duas décadas depois. O porto transpirava rebeldia. Finlandeses, bengalis expulsos de Uganda e rejeitados por Bangladesh, nativos que não suportavam mais as cadeias de produção… Apoiavam nosso sindicato livre, que não financiava partidos nem beijava mãos.

Quando descarregava um navio no porto de Estocolmo, fui convidado a trabalhar como arrumador de cargas, categoria subordinada à Federação do Transporte (Transport Förbundet), uma das entidades mais importantes da LO, ao lado da Federação dos Trabalhadores da Construção Civil (Svenska Byggnads arbetares förbundet). Então, conheci na prática o sindicalismo da social-democracia.

Eu precisava de dinheiro. Odila, minha companheira, trabalhava como faxineira e, depois, numa fábrica de chocolates, e ainda estudava, mas eu não mais recebia o empréstimo estudantil (o FIES de lá) que ia começar a pagar em breve. Nosso filho, Joca, crescia. Topei, mas não ingressei no Sveriges Socialdemokratiska Partiet/SDP, apesar de ter boas relações com alguns de seus membros.

A coisa começou a pesar. Os estivadores descarregavam os navios e traziam a carga até os armazéns. Nós a organizávamos no espaço para isso reservado. Todos os dias era designado para, logo cedo, fazer a faxina do armazém e do porão. Me testavam. Quem já trabalhou com isso sabe que é uma luta contra os ratos.

Um dia, ao transferir de um contêiner equipamentos óticos científicos, vimos um operador de monta-carga, homem de confiança do capataz, apropriar-se de um microscópio de alta precisão. Ele nos incitou a fazer o mesmo com outros aparelhos, mais baratos. Ficamos “na moita”, como se nada tivéssemos visto ou entendido, pois, tirando um jovem do Stockholmspartiet, éramos todos imigrantes (invandrare) que mal falávamos sueco. A pressão aumentou, o capataz nos chamou, dias depois, e perguntou se sabíamos quem tinha levado o microscópio eletrônico. Dissemos não ter ideia.

Não permaneci muito tempo como arrumador de carga. Os estivadores aprovaram um boicote internacional aos navios que transportavam cobre da ditadura chilena. Tinha um no Porto de Estocolmo. Fomos designados para descarregá-lo, substituindo o pessoal da estiva. Não podíamos nos negar, pois o sindicato dos arrumadores não aprovara o boicote. Já na hora extra, sofri um acidente. Uma barra de 125 kg caiu no meu pé esquerdo, que não quebrou por eu usar uma botina Cartepillar reforçada com biqueira e sola de aço, que aparou o impacto principal. Ali terminou minha carreira de estivador/arrumador de carga. Voltei para o Cinema, desistindo de me proletarizar.

No Chile tinha observado, embora sem a devida consciência crítica, que o movimento sindical era atrelado aos partidos da Unidade Popular, a contragosto para alguns setores e militantes, sobretudo socialistas e a oposição dos poucos anarquistas. A Central Única dos Trabalhadores era presidida por um membro do PCCh, Luís Figueroa, que assumiu o Ministério do Trabalho sem afastar-se do cargo sindical, já o Secretário Nacional, o socialista Rolando Calderón, licenciou-se para assumir o Ministério da Agricultura, mas foi substituído por seu correligionário Manoel Dinamarca. Havia membros de outros partidos na Diretoria, mas a predominância era de comunistas e socialistas.

Isso me lembrou os tempos em que militei na UNE ou em torno dela: A Presidência era sempre da AP ou de um “independente” ligado à AP. Só não foi em 64/65, quando a Diretoria foi desbaratada e Ernane Farias assumiu o cargo na clandestinidade. A composição da chapa era decidida pelos representantes dos partidos e depois levada ao plenário, sem discussão das bases.

Nesse tempo e no da “Abertura”, quando retornei ao Brasil, eu era comunista partidário, mas não aceitava a partidarização das entidades de classe ou comunitárias como “naturais”. A experiência no exílio fortaleceu tal rejeição. O papel de tais entidades é “lutar pelos interesses econômicos e políticos dos trabalhadores. Sejam de que partido forem” como afirmamos na carta de princípios que nos elegeu para o Sated/RJ.

Em 1980, como Secretário do Comitê Cultural municipal carioca do PCB escrevera num informe político:

Todos os setores (…) querem impor seus projetos, inclusive nós. Não conseguindo, vem o desespero.

Nós precisamos fazer uma análise disso e reverter a situação. Não temos tomado atitude aberta com a massa. Continuamos trabalhando em conchavo de gabinete. O trabalho no Sindicato e na Unidade Sindical tem sido feito por cima. Não é produto do pensamento da massa.

E necessário impedir que as organizações sindicais sejam utilizadas para fins partidários (…). As entidades de massas não são currais ou quintais privados de ninguém. Elas pertencem às categorias que reúnem.

Por ocasião dos 3º Enclat e 2º Conclat eu já não pertencia aos quadros do PCB, mas mantinha os princípios que sempre me guiaram. Em Praia Grande, 1983, juntamente com o petroleiro Xisto Bahía (PCdoB), de Mataripe, apresentei a moção que vetava a partidarização dos sindicatos, aprovada com maioria absoluta pelo plenário.

No período que antecedeu e se seguiu ao I Congresso, escrevi publiquei no Jornal de Brasília, do qual correspondente e chefe de redação, vários artigos e reportagens sobre o Movimento Sindical. Republico alguns trechos que tocam na questão da unidade.

Tomando como mote a peça Bella Ciao, de Luís Alberto de Abreu:

(…) e 1935. O filho preparando-se para o levante da Aliança nacional Libertadora, o pai recordando, mais uma vez, a greve de 1917, que parou o País e reuniu 50 mil operários em São Paulo. Gennarino corta: “Em 17 o movimento operário não tinha direção”; Giovanni na pontada língua: “Hoje, a direção de vocês não tem operários”.

(Gennarino cresceu. O Movimento não)

(…)

Indo direto ao assunto:

As representações a ambos os encontros preparatórios do Congresso da Classe Trabalhadora não são expressivas do conjunto do movimento sindical. Na verdade retratam o grau de participação a que a “vanguarda” dos trabalhadores foi levada. O único setor de preponderância realmente independente – o dos trabalhadores agrícolas, liderados por José Francisco, Presidente da Contag – não contam com recursos para fazer chegar todos os seus delegados a São Paulo, vindos dos recantos mais longínquos do País. A grande maioria dos participantes será, como em 1981, de profissionais liberais e categorias de classe média, munida de discurso radical mas de prática bem menos comprometida com o cotidiano dos trabalhadores: engenheiros, sociólogos, médicos, arquitetos, economistas… ou então eleitos em assembleias às quais concorrem vinte, trinta elementos que elegem oito, dez, quinze elementos de “base” em categorias nas quais jamais conseguem conquistar a diretoria.

Através da história do movimento operário brasileiro, não se conhece unidade conseguida em congresso ou reuniões. Sempre foi nas lutas e no trabalho diário que as diversas opiniões se unificaram e entenderam, dando passos adiante.

(…)

Por um lado, um setor social-democrata de extrema esquerda convoca um Conclat para São Bernardo, por outro lado um setor de extrema direita, encabeçado por Ari Campista, convoca um congresso que passa exclusivamente através da estrutura das Confederações. No meio, tentando ampliar e refletir as preocupações da sociedade brasileira, um setor de centro-esquerda organiza o Conclat para Praia Grande, nos dias 4, 5 e 6 de novembro.

(UMA RETIFICAÇÃO DO EIXO SINDICAL, 23/10/1983)

Em 2026, o panorama é outro, bem diverso, não só o líder que agia como extrema esquerda acaba de negar sequer pertencer à esquerda e desenvolve uma política de Centro-Direita, acompanhando a Social-Democracia europeia, como quase todos os outros se contentam em ter uma central só pra si ou, como o Cidadania, a versão farsesca dos que destruíram o PCB, recolher as migalhas dos liberais.

Felizmente, os libertários continuam a ser libertários.

Anarquismo e adicção. Mantenha a mente aberta.

Antônio Carlos … Para baixar o texto integral com formatação original, clique no link a seguir ou pode lê-lo na sequência: … Anarquismo e adicção. Mantenha a mente aberta. … … Só por Hoje Só por hoje eu não quero mais chorarSó por hoje eu espero conseguirAceitar o que passou o que viráSó por hoje […]

Anarquismo e adicção. Mantenha a mente aberta.

Memória do 14 de Janeiro de 1971

https://wp.me/p7mAtk-14b

Luiza Barreto Leite como Mariana Pineda

Há cem anos Marianita Pineda dorme bem junto ao nosso peito

Este artigo é uma atualização do ensaio Mariana Pineda ─ personagem em busca de intérprete, assinado por Luiza Barreto Leite, publicado nos dias 12 (1ª parte) e 19 (2ª parte) de setembro de 1970 na coluna Folhetim, à página 10 do 1º caderno do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. O texto é fruto da correspondência que Luiza manteve com seu filho Luiz Alberto Sanz durante o período em que ele esteve encarcerado no Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a ditadura fascista. É, assim, o primeiro artigo que escreveram a quatro mãos. O esboço consta de uma carta de Luiz com data de 05 de agosto daquele ano, em que foram tratados outros assuntos. Luiza melhorou e aprofundou o ensaio e o publicou apenas com sua assinatura porque de outra maneira não passaria pela censura. Agora, Luiz Alberto fez umas revisões e atualizou datas e algumas palavras que ele próprio não traduzira e Luiza respeitara na versão impressa.

Mariana Pineda ─ personagem em busca de intérprete

Luiza Barreto Leite

Há um século (08.01.1925), Federico García Lorca terminava de escrever um dos mais belos poemas dramáticos da literatura mundial: Mariana Pineda[1]. Anos mais tarde, quando da estreia da peça tantas vezes recusada pelo teatro profissional, Federico diria que

Na multidão das sombras poéticas, Mariana Pineda vinha pedindo justiça por boca de poeta. Rodearam-na de trombetas e ela era uma lira. Igualaram com Judite e ela ia na sombra buscando a mão de Julieta sua irmã, cingiram sua garganta partida com o colar da ode e ela pedia o madrigal libertado. Todos cantavam a águia que partia de um golpe a dura barra de metal e ela balia antes como o cordeiro, abandonado de todos, sustentada tão só pelas estrelas.

Realmente, como é humana a heroína de Lorca. Como traz no seio a própria Granada da infância do poeta, que

será sempre mais plástica que filosófica. Mais lírica que dramática.

E o drama é intenso em Mariana, trazendo para seu seio a tragédia mesma de Espanha:

Oh, que dia tão triste em Granada,
Que às pedras fazia chorar
Ao ver que Marianita morre
No cadafalso por não declarar

É uma personagem que o autor chama de “duende”, alma de seu país.

Ninguém se diverte no baile espanhol nem nos touros, o duende se encarrega de fazer sofrer por meio do drama, sobre formas vivas, e prepara as escadas para uma evasão da realidade que circunda.

…o duende fere e na cura desta ferida que não se fecha nunca está o insólito, o inventado da obra de um homem.

…o duende não chega se não vê possibilidade de morte…

Creio que uma das questões mais importantes levantadas, logo no início, em Mariana Pineda, é a humanidade dos personagens. É tradição no teatro clássico — transportada em grande parte para o drama burguês — erguer os heróis com todas as suas virtudes de fortaleza e esboçá-los nos traços mais grandiosos. O traçado de Marianita é aquele de Granada:

solitária e pura, apequena-se, cinge sua alma extraordinária e não tem mais saída senão encontrar seu alto posto, natural entre as estrelas. Por isto, porque não tem sede de aventuras, dobra-se sobre si mesma e usa o diminutivo para recolher sua imaginação, como recolhe seu corpo para evitar o voo excessivo e harmonizar sobriamente suas arquiteturas interiores com as vivas arquiteturas da cidade. (…) O granadino está rodeado pela natureza mais esplêndida, mas não vai a ela. (…) As paisagens são extraordinárias, mas o granadino prefere olhá-las da sua janela. Assustam-no os elementos e despreza o vulgo vozeador, que não é de nenhuma parte, como é homem de fantasia, não é, naturalmente, homem de coragem. Prefere o ar suave e frio de sua neve, ao vento terrível e áspero que se ouve em Ronda, por exemplo, e está disposto a pôr sua alma em diminutivo a trazer o mundo dentro de seu quarto.

Lorca busca um tema simples: Uma jovem aristocrata, apaixonada, une-se aos liberais por amor a seu líder.
Isto acontece no século XIX. A jovem se verá, com o tempo, transformada no próprio símbolo e força daquilo em que penetrou sem consciência mais profunda:

Como lírio cortaram o lírio
mais formosa sua alma ficou.

O trabalho do autor é o engrandecimento do processo de transformação da “triste amiga, Marianita Pineda.”, naquela que bradará quase ao final, quando atinge sua individuação, sua consciência plena:

Morrer! Que grande sonho sem sonhos nem sombras!
Pedro, quero morrer pelo que tu não morres,
pelo mais puro ideal que iluminou teus olhos!

E este processo não é o da construção de uma estátua, inquebrantável. mas o de uma mulher fraca, dependente, vacilante e terna que, de repente. percebe que lhe coube o principal e mais duro papel num dos atos da História. O caminho de Mariana até este ponto não encontra loas, mas lamentações. O coro não a engrandece, não elogia suas virtudes de combate, mas enaltece suas fraquezas de mulher. Por vezes buscará influir para que abandone o caminho escolhido:

Já não verão teus olhos as laranjas de luz
que a tarde porá nos telhados de Granada

Quem é a personagem? Ela inicia a peça fazendo um bordado, o da bandeira dos liberais. É algo insignificante: um simples bordado. Sua aplicação prática é nenhuma: para que servirá uma bandeira, se não é hasteada? Mas as ligações psicológicas que carrega a tornam pesada. Mariana não borda por convicção, mas por amor. É extremamente ligada à sua família, pelo sentimento. No entanto, a primeira cena em que aparece já trará uma figura amputada sentimentalmente pela enormidade do encargo que assumiu e que não é mais do que bordar o símbolo e ajudar o seu amante. A angústia está em cada uma das palavras que pronuncia, dirigindo-se às jovens que lhe fazem companhia enquanto borda:

Que bem me causais
com vossa alegria de meninas!
A mesma alegria que a velhinha
sente quando o sol dorme nas suas mãos
e ela o acaricia crendo que nunca
a noite e o frio cercarão sua casa.

Mas ao ficar sozinha, expande-se:

Hora redonda e escura
que me pesa nas pestanas.
Dor de velho luzeiro
detido em minha garganta.
(...)
Esta noite que não chega!
Noite temida e sonhada;
que me fere já de longe
com longuíssimas espadas!

Há personalidades que não cabem apenas no espaço reservado às histórias que de verdade aconteceram. Elas trazem a dimensão da poesia e quando encontram quem as defina passam à História nelas envoltas. Mariana Pineda, a heroína da Espanha livre e Garcia Lorca, seu poeta, completam-se de tal forma e acabaram coexistindo no mesmo trágico destino, transformando-se em idêntica expressão de um mesmo símbolo: aquela liberdade da qual não tiveram consciência senão depois de havê-la perdido. pela qual não lutaram senão através da resistência passiva de quem vai tomando conhecimento do valor e da importância daquilo que sempre possuiu e, por isto, não sabe o quanto vale.

Garcia Lorca foi o poeta do povo por simples amor à sua terra e às coisas a ela inerentes. Marianita, embora encerrada em seu mundo de mulher frágil e aristocrática, é também ligada às mesmas coisas, à mesma tradição que vem desse povo. E Lorca faz tudo isto desfilar ante seus olhos, como dizendo: “olha o que tens a perder”. Um dos mais fortes momentos de transposição da vida espanhola ao ambiente íntimo de Mariana é quando as suas jovens amigas carregam a “plaza de toros” de Ronda para sua sala de visitas:

Na maior corrida
vista em Ronda, a velha.
cinco touros de azeviche
com divisa verde e negra.
A praça, com o gentio
“acanalhado” e altos pentes
girava como um zodíaco
de risos brancos e negros.
Que grande equilíbrio o seu
com a capa e a muleta!
Cinco touros matou; cinco,
com divisas verde e negra

E Lorca dá a esta transferência a força de sua própria definição:

Na Espanha o duende tem um campo sem limites (…) em toda a liturgia dos touros, autêntico drama religioso onde, da mesma forma que na missa, se adora e se sacrifica a um Deus.

E tudo forma um painel doloroso para a mulher que confessa: Tenho o coração louco e não sei o que quero.

Lorca contrasta o drama íntimo da personagem, faz contraponto de narrativas; raras coisas acontecem. Quase sempre intui e sugere o drama profundo de Mariana através de palavras inconscientes de outros personagens. O clima de lirismo torna delicado e cativante o sentimento mais sofrido. É como se Mariana Pineda tivesse os seus últimos momentos trabalhados em cores pastel, mais destinadas a entristecer-nos do que a nos fazer viver o drama:

Ah. duque de Lucena,
Já não te verá mais!
A bandeira que te bordo
de nada servirá.

A canção popular que as crianças cantam adianta o rumo do amante:

Adeus menina linda,
espigada e esbelta,
vou para Sevilha,
onde sou capitão.

Fernando, o jovem que, embora não correspondido, permanece fiel a seu amor por ela, diz no final:

Não virá porque nunca te quis, Marianita.
Já estará na Inglaterra com outros liberais.
Te abandonaram todos os teus antigos amigos.
Somente meu jovem coração te acompanha.

Mas Mariana já terá crescido tanto que nem ela mesma pode mais conter-se ou recuar. Talvez o seu “duende”, trazido pela proximidade da morte, a houvesse transformado da suplicante e insegura:

Pedro, toma teu cavalo
ou vem montado no dia.
Mas rápido! Que já vêm
para tirar-me a vida!

Na arrogante e decidida:

Se eu trair. até as pedras de Granada 
já dirão com medo o teu nome querido.
Ah, meus filhos não hão de desprezar-me
e seu nome terá claridades de lua.
Em seus rostos haverá um resplendor
que não se apagará com os anos nem com os ares.

É o fim do processo de individuação, o encontro com sua verdadeira natureza, a transformação e crescimento de Marianita, impresso no desenvolvimento teatral da personagem, aquilo que a engrandece. Lorca não explora um esquema barato para fazer dela uma supermulher, pois se trata de algo muito maior, a arte de apresentar uma jovem quebradiça, do mais fino cristal, que precisa encontrar forças na fraqueza das pessoas a ela ligadas e às quais ama, para transformar-se no símbolo daquilo que nunca pretendera significar:

Dai-me um ramo de flores!
Nas minhas últimas horas, quero engalanar-me toda.
Quero sentir a dura caricia de meu anel
e prender no corpo minha mantilha de renda
(...)
Pedro. quando eu morrer, hás de querer-me tanto.
que sem mim já não poderás viver um só momento.
Olha, Pedro, a que altura o teu amor me leva,
eu sou a Liberdade, pela qual me deixaste,
eu sou a Liberdade, a que os homens feriram.

E segue para morte quase cantando:

Liberdade da altura, oh liberdade certa,
acende para mim os teus astros distantes.
Amor, amor, amor e eternas ilusões...

A mulher dependente e apaixonada, a mulher frágil, delicada, nascida e criada para os segundos planos. Esta mulher tornou-se símbolo de algo mais forte que a própria Espanha, de algo mais poderoso que todas as lutas; o verdadeiro sentido do viver, do amar. Mariana Pineda é meu personagem preferido, aquele que nunca interpretarei, mas que procurei transmitir a muitas pessoas amadas. Uma delas, uma das mais amadas e de maior identidade comigo, disse certa vez:

“Marianita Pineda dorme bem junto do meu peito, eu que também quereria”:

Sonhar na verbena e no jardim
de Cartagena, luminoso e fresco...

[1] Mariana Pineda Muñoz nasceu em 1º de setembro de 1804 e foi executada em 26 de maio de 1931, aos 26 anos, tendo seu pescoço estraçalhado pelo “garrote vil”, um dos recursos mais cruéis adotados no mundo para destruir inimigos do estado e que continuou a existir na Espanha até 02 de março de 1974, quando foi executado o anarquista Salvador Puig Antich.