PALAVRAS DE CARLA SALINAS QUANDO DA MORTE DE JUAN ALISTE

14 de outubro de 2026

Este texto foi lido nas cerimônias de despedida de Juan, que morreu no dia 11 de outubro, após um longo período de doença, no Hospital Penal da Penitenciária de Santiago de Chile. Sua esposa, a cineasta, pesquisadora e professora anarquista Carla Salinas, pôde acompanhá-lo em seus últimos dias. Lá estava quando “ele deixou de respirar e perdeu o calor”, como descreveu. Juan era um revolucionário, SUBVERSIVO como se apresentava, e ficou mais de 15 anos preso por um crime que lhe imputaram. Permanecerá em nossas memórias.

Hoje, precisamente hoje, falar de Juan parece impossível e ridículo, hoje, que é um dia como estes dias que parecem um tempo disperso e alheio.

É ridículo tão só pensar em como falar de Juan, talvez como falar com Juan ou desde Juan, falar com Juan. Ponderar que historia eleger ao narrar, que episódio entre milhares, que paisagem, que decisão, que conquista. Qual sensação descrever, qual carícia, qual riso ou desconcerto. Propor um tom a cerca de Juan.

Tudo disto e daquilo que eu possa dizer de Juan, tem origem e destino último em uma verdade total e indiscutível: Juan foi a pessoa mais livre que conheci.

Abraçou a Liberdade como ao mais belo dos riscos e à vida lhe ocorreu estrondosa e intensa. A vida se arriscou nele, a vida o envolveu incandescente, a vida emanou do pacto intransigente com os mortos,com a memória e com a História.

Essa experiência transtornadora de liberdade encontrou asilo em uma vontade férrea, uma delirante obstinação que dominou cada decisão e cada ação desde muito pequeno até a última das forças.

Aquela liberdade vital caminhou de mãos dadas com os medos. Domesticou com ternura o medo à solidão, à dor, ao amor, ao apego, às palavras ou ao silêncio. A liberdade vital desafiou fortemente o medo a confiar, submeteu o medo à traição, ao perdão, ao cisma.

O medo à adulação, ao elogio, ao oportunismo e ao protagonismo deu vida à liberdade vital.

Nunca houve medo aos inimigos.

Juan e eu nos conhecemos há quase 19 anos, num tempo de céu, mar, noite, juventude e vigor. Também nos conhecemos desde sempre, em um tempo de brincadeira e cumplicidade, de imaginação, sonhos e memórias. Juan e eu nos amamos, nos acompanhamos, nos contivemos e nos aprendemos quase sempre com amor. Juntos vagueamos e juntos traquinamos em algum esquivo acerto.

Agora que veio esta morte, falar de Juan parece impossível e ridículo, incômodo, torpe e muito triste. Todxs somos muitos e estamos em muitos lugares. Todxs temos muita dor e temos medo a esta dor.

Finalmente, se é questão de especular, creio que Juan, se padecesse a esta dor, estaria assustado frente ao medo, assim como todxs estamos. Também creio que Juan frente a este medo, pouco a pouco, dia a dia, o moldaria pequeno, denso e aerodinâmico para percuti-lo sem medo contra o medo e contra o inimigo. Também creio que, passo a passo, o tornaria pó que deflagra e rompe. Uma vez incriminado o medo se poria a gozar o cheiro seco no ar e o momento surdo de ruído.