O turno decisivo ainda está por vir

Instituto de Estudos Libertários (IEL) – Outubro 2026

“O Fascismo não se vence nas urnas”. Essa foi a lição que nós, anarquistas, extraímos da Revolução Espanhola. Entretanto, a história tem mostrado que o fascismo vence e se impõe também pelas urnas. E é essa vitória, por vezes esmagadora, que estamos assistindo mais uma vez  em vários países do mundo. Enquanto nem nossos sonhos, nem nossos anseios políticos mais básicos cabem nas urnas, eleições podem servir como trampolim dos mais esdrúxulos projetos de poder. E é esse o risco que corre o Brasil neste segundo turno das eleições presidenciais. As razões são várias e devem ser analisadas sem deixar de considerar nossa própria responsabilidade por termos chegado a esse ponto e que mudanças devemos implementar na nossa própria atuação política para mudar esse quadro.

Alega-se que “a esquerda” abandonou as bases. Nós, anarquistas, não as abandonamos; continuamos a atuar junto a organizações de trabalhadores e trabalhadoras, estudantes, moradores e moradoras de favelas e periferias e aos povos em luta e seus movimentos sociais. Com eles construímos experiências populares de educação e cultura, espaços e bibliotecas comunitários, centros sociais e cooperativas de trabalho. Todas estas iniciativas se inspiram na horizontalidade, no apoio mútuo, no coletivismo comunitário e nos princípios básicos da autogestão generalizada. Vemos nosso papel como sincera e humilde contribuição às lutas anticoloniais e anticapitalistas indígenas, negras e populares por um mundo no qual o futuro se apresenta como possibilidade e não como abismo.

Fazemos tudo isso sem abrir mão das nossas convicções sobre o papel ilusionista e enganador da chamada democracia representativa e das eleições como estratégia transformadora da sociedade. Na verdade, para nós essa é uma equação política relativamente simples: onde sobra energia para fazer a campanha eleitoral, falta nas iniciativas populares. Um aspecto do problema que não pode ser ignorado ainda que as condições nos pareçam as mais adversas.

Sobre o voto em momentos de grande comoção

Vamos aos fatos. Se para justificar o voto nulo for preciso recorrer às falsas equivalências entre as candidaturas, estamos diante de uma desculpa e não de um argumento. No caso atual é preciso reconhecer que os programas políticos e as candidaturas têm configurações bem diferentes. Da mesma forma, se para justificar o voto útil ignora-se que o rito das eleições é burguês e que a dimensão democrática é um simulacro, estamos diante de uma alucinação política. Nesse sentido, o voto nulo e o útil se assemelham, tornando a questão da luta social um aspecto secundário.  Não se trata do que se fará nas urnas, mas daquilo que se deixou de fazer até aqui.

A grande questão está na adesão acrítica ao processo, motivada  por urgências que não fazem parte do nosso projeto de sociedade e que, acabam por substituí-lo pelo de um regime que pretendemos ver superado. Um fato que termina produzindo uma enorme confusão sobre qual é o nosso verdadeiro papel como agentes político, levando-nos, na prática, a adotar o programa dos nossos adversários.

O turno decisivo que está por vir: da urgência do momento eleitoral à urgência permanente de construir a luta no “terceiro turno”

Se o extremismo de direita e os protofascismos são fenômenos de abrangência global, é confortável demais culpar unicamente o partidarismo de esquerda, como é leviano não buscar entender o seu papel no enfraquecimento da luta antifacista. É fácil afirmar que falta uma “volta da esquerda às bases” e lamentar que apenas “a direita” estaria fazendo trabalho de base. Quem dos que dizem isso está disposto a fazer um trabalho em movimentos sociais, em organizações setoriais e de bairro, junto a iniciativas comunitárias de forma contínua? Quem está disposto a fazer da luta parte de sua vida cotidiana?

O fato da disputa política ser travada cada vez mais no mundo dos algoritmos, com alarmantes sinais de controle dos nossos cérebros e emoções, é desculpa  para não sair de casa? Ou é razão de justamente sair do sofá e do celular e voltar a apostar em relações pessoais junto a pessoas que não fazem parte do nosso círculo, em atividades que vão além de trabalho-estudo-lazer? Será que temos coragem de nos dedicar, para além da mobilização eleitoral, a trabalhos de base que mudam nossas vidas, que exigem tempo, energia, dedicação e que nos devolvam a capacidade de pautar questões sobre como vivemos em sociedade muito para além de decisões a respeito do que consumimos, de quem seguimos ou de quem ganhamos likes, ou em quem votamos?

Se é fato que o projeto da extrema direita avança se o bolsonarismo tomar o governo pela segunda vez, é perigosa a esperança de que um novo mandato do Lula fará o fascismo recuar. É por isso que estamos preocupados e precisamos nos preparar para o terceiro turno. E esse se inicia no dia 26 de outubro e durará quatro anos, oito anos, nossas vidas inteiras. Temos que resgatar capilaridade social com aquilo que fazemos e defendemos. O destaque está no fazer: para propor alternativas, precisamos estar fazendo; fazendo juntos e fazendo diferente. 

Depois do segundo turno, vamos esquecer do medo e do susto? Se o Lula vencer de virada, cada um/a voltará para suas zonas de conforto? Ou se o Lula perder vamos cair em uma apatia semelhante àquela do primeiro desgoverno bolsonarista? Ou vamos despertar com o susto e nos organizar a médio e longo prazo?

Se o fascismo pode vencer nas urnas, ele constrói seu projeto de poder muito antes e muito além delas. Por isso, somente é possível vencê-lo todos os dias do ano, em todas as nossas relações, nos trabalhos que realizamos fora da nossa zona de conforto e que tenham alcance para além das nossas bolhas. O futuro próximo do Brasil vai ser diferente a depender de quem vai ganhar as eleições. Nossa luta e a urgência do trabalho das, nas, pelas e para as bases, não. Enquanto estamos juntos na esperança que Flávio Bolsonaro possa ser barrado no segundo turno, vamos nos preparar para o turno decisivo? O terceiro turno  está apenas começando!

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