Luiza Barreto Leite como Mariana Pineda

Há cem anos Marianita Pineda dorme bem junto ao nosso peito

Este artigo é uma atualização do ensaio Mariana Pineda ─ personagem em busca de intérprete, assinado por Luiza Barreto Leite, publicado nos dias 12 (1ª parte) e 19 (2ª parte) de setembro de 1970 na coluna Folhetim, à página 10 do 1º caderno do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. O texto é fruto da correspondência que Luiza manteve com seu filho Luiz Alberto Sanz durante o período em que ele esteve encarcerado no Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a ditadura fascista. É, assim, o primeiro artigo que escreveram a quatro mãos. O esboço consta de uma carta de Luiz com data de 05 de agosto daquele ano, em que foram tratados outros assuntos. Luiza melhorou e aprofundou o ensaio e o publicou apenas com sua assinatura porque de outra maneira não passaria pela censura. Agora, Luiz Alberto fez umas revisões e atualizou datas e algumas palavras que ele próprio não traduzira e Luiza respeitara na versão impressa.

Mariana Pineda ─ personagem em busca de intérprete

Luiza Barreto Leite

Há um século (08.01.1925), Federico García Lorca terminava de escrever um dos mais belos poemas dramáticos da literatura mundial: Mariana Pineda[1]. Anos mais tarde, quando da estreia da peça tantas vezes recusada pelo teatro profissional, Federico diria que

Na multidão das sombras poéticas, Mariana Pineda vinha pedindo justiça por boca de poeta. Rodearam-na de trombetas e ela era uma lira. Igualaram com Judite e ela ia na sombra buscando a mão de Julieta sua irmã, cingiram sua garganta partida com o colar da ode e ela pedia o madrigal libertado. Todos cantavam a águia que partia de um golpe a dura barra de metal e ela balia antes como o cordeiro, abandonado de todos, sustentada tão só pelas estrelas.

Realmente, como é humana a heroína de Lorca. Como traz no seio a própria Granada da infância do poeta, que

será sempre mais plástica que filosófica. Mais lírica que dramática.

E o drama é intenso em Mariana, trazendo para seu seio a tragédia mesma de Espanha:

Oh, que dia tão triste em Granada,
Que às pedras fazia chorar
Ao ver que Marianita morre
No cadafalso por não declarar

É uma personagem que o autor chama de “duende”, alma de seu país.

Ninguém se diverte no baile espanhol nem nos touros, o duende se encarrega de fazer sofrer por meio do drama, sobre formas vivas, e prepara as escadas para uma evasão da realidade que circunda.

…o duende fere e na cura desta ferida que não se fecha nunca está o insólito, o inventado da obra de um homem.

…o duende não chega se não vê possibilidade de morte…

Creio que uma das questões mais importantes levantadas, logo no início, em Mariana Pineda, é a humanidade dos personagens. É tradição no teatro clássico — transportada em grande parte para o drama burguês — erguer os heróis com todas as suas virtudes de fortaleza e esboçá-los nos traços mais grandiosos. O traçado de Marianita é aquele de Granada:

solitária e pura, apequena-se, cinge sua alma extraordinária e não tem mais saída senão encontrar seu alto posto, natural entre as estrelas. Por isto, porque não tem sede de aventuras, dobra-se sobre si mesma e usa o diminutivo para recolher sua imaginação, como recolhe seu corpo para evitar o voo excessivo e harmonizar sobriamente suas arquiteturas interiores com as vivas arquiteturas da cidade. (…) O granadino está rodeado pela natureza mais esplêndida, mas não vai a ela. (…) As paisagens são extraordinárias, mas o granadino prefere olhá-las da sua janela. Assustam-no os elementos e despreza o vulgo vozeador, que não é de nenhuma parte, como é homem de fantasia, não é, naturalmente, homem de coragem. Prefere o ar suave e frio de sua neve, ao vento terrível e áspero que se ouve em Ronda, por exemplo, e está disposto a pôr sua alma em diminutivo a trazer o mundo dentro de seu quarto.

Lorca busca um tema simples: Uma jovem aristocrata, apaixonada, une-se aos liberais por amor a seu líder.
Isto acontece no século XIX. A jovem se verá, com o tempo, transformada no próprio símbolo e força daquilo em que penetrou sem consciência mais profunda:

Como lírio cortaram o lírio
mais formosa sua alma ficou.

O trabalho do autor é o engrandecimento do processo de transformação da “triste amiga, Marianita Pineda.”, naquela que bradará quase ao final, quando atinge sua individuação, sua consciência plena:

Morrer! Que grande sonho sem sonhos nem sombras!
Pedro, quero morrer pelo que tu não morres,
pelo mais puro ideal que iluminou teus olhos!

E este processo não é o da construção de uma estátua, inquebrantável. mas o de uma mulher fraca, dependente, vacilante e terna que, de repente. percebe que lhe coube o principal e mais duro papel num dos atos da História. O caminho de Mariana até este ponto não encontra loas, mas lamentações. O coro não a engrandece, não elogia suas virtudes de combate, mas enaltece suas fraquezas de mulher. Por vezes buscará influir para que abandone o caminho escolhido:

Já não verão teus olhos as laranjas de luz
que a tarde porá nos telhados de Granada

Quem é a personagem? Ela inicia a peça fazendo um bordado, o da bandeira dos liberais. É algo insignificante: um simples bordado. Sua aplicação prática é nenhuma: para que servirá uma bandeira, se não é hasteada? Mas as ligações psicológicas que carrega a tornam pesada. Mariana não borda por convicção, mas por amor. É extremamente ligada à sua família, pelo sentimento. No entanto, a primeira cena em que aparece já trará uma figura amputada sentimentalmente pela enormidade do encargo que assumiu e que não é mais do que bordar o símbolo e ajudar o seu amante. A angústia está em cada uma das palavras que pronuncia, dirigindo-se às jovens que lhe fazem companhia enquanto borda:

Que bem me causais
com vossa alegria de meninas!
A mesma alegria que a velhinha
sente quando o sol dorme nas suas mãos
e ela o acaricia crendo que nunca
a noite e o frio cercarão sua casa.

Mas ao ficar sozinha, expande-se:

Hora redonda e escura
que me pesa nas pestanas.
Dor de velho luzeiro
detido em minha garganta.
(...)
Esta noite que não chega!
Noite temida e sonhada;
que me fere já de longe
com longuíssimas espadas!

Há personalidades que não cabem apenas no espaço reservado às histórias que de verdade aconteceram. Elas trazem a dimensão da poesia e quando encontram quem as defina passam à História nelas envoltas. Mariana Pineda, a heroína da Espanha livre e Garcia Lorca, seu poeta, completam-se de tal forma e acabaram coexistindo no mesmo trágico destino, transformando-se em idêntica expressão de um mesmo símbolo: aquela liberdade da qual não tiveram consciência senão depois de havê-la perdido. pela qual não lutaram senão através da resistência passiva de quem vai tomando conhecimento do valor e da importância daquilo que sempre possuiu e, por isto, não sabe o quanto vale.

Garcia Lorca foi o poeta do povo por simples amor à sua terra e às coisas a ela inerentes. Marianita, embora encerrada em seu mundo de mulher frágil e aristocrática, é também ligada às mesmas coisas, à mesma tradição que vem desse povo. E Lorca faz tudo isto desfilar ante seus olhos, como dizendo: “olha o que tens a perder”. Um dos mais fortes momentos de transposição da vida espanhola ao ambiente íntimo de Mariana é quando as suas jovens amigas carregam a “plaza de toros” de Ronda para sua sala de visitas:

Na maior corrida
vista em Ronda, a velha.
cinco touros de azeviche
com divisa verde e negra.
A praça, com o gentio
“acanalhado” e altos pentes
girava como um zodíaco
de risos brancos e negros.
Que grande equilíbrio o seu
com a capa e a muleta!
Cinco touros matou; cinco,
com divisas verde e negra

E Lorca dá a esta transferência a força de sua própria definição:

Na Espanha o duende tem um campo sem limites (…) em toda a liturgia dos touros, autêntico drama religioso onde, da mesma forma que na missa, se adora e se sacrifica a um Deus.

E tudo forma um painel doloroso para a mulher que confessa: Tenho o coração louco e não sei o que quero.

Lorca contrasta o drama íntimo da personagem, faz contraponto de narrativas; raras coisas acontecem. Quase sempre intui e sugere o drama profundo de Mariana através de palavras inconscientes de outros personagens. O clima de lirismo torna delicado e cativante o sentimento mais sofrido. É como se Mariana Pineda tivesse os seus últimos momentos trabalhados em cores pastel, mais destinadas a entristecer-nos do que a nos fazer viver o drama:

Ah. duque de Lucena,
Já não te verá mais!
A bandeira que te bordo
de nada servirá.

A canção popular que as crianças cantam adianta o rumo do amante:

Adeus menina linda,
espigada e esbelta,
vou para Sevilha,
onde sou capitão.

Fernando, o jovem que, embora não correspondido, permanece fiel a seu amor por ela, diz no final:

Não virá porque nunca te quis, Marianita.
Já estará na Inglaterra com outros liberais.
Te abandonaram todos os teus antigos amigos.
Somente meu jovem coração te acompanha.

Mas Mariana já terá crescido tanto que nem ela mesma pode mais conter-se ou recuar. Talvez o seu “duende”, trazido pela proximidade da morte, a houvesse transformado da suplicante e insegura:

Pedro, toma teu cavalo
ou vem montado no dia.
Mas rápido! Que já vêm
para tirar-me a vida!

Na arrogante e decidida:

Se eu trair. até as pedras de Granada 
já dirão com medo o teu nome querido.
Ah, meus filhos não hão de desprezar-me
e seu nome terá claridades de lua.
Em seus rostos haverá um resplendor
que não se apagará com os anos nem com os ares.

É o fim do processo de individuação, o encontro com sua verdadeira natureza, a transformação e crescimento de Marianita, impresso no desenvolvimento teatral da personagem, aquilo que a engrandece. Lorca não explora um esquema barato para fazer dela uma supermulher, pois se trata de algo muito maior, a arte de apresentar uma jovem quebradiça, do mais fino cristal, que precisa encontrar forças na fraqueza das pessoas a ela ligadas e às quais ama, para transformar-se no símbolo daquilo que nunca pretendera significar:

Dai-me um ramo de flores!
Nas minhas últimas horas, quero engalanar-me toda.
Quero sentir a dura caricia de meu anel
e prender no corpo minha mantilha de renda
(...)
Pedro. quando eu morrer, hás de querer-me tanto.
que sem mim já não poderás viver um só momento.
Olha, Pedro, a que altura o teu amor me leva,
eu sou a Liberdade, pela qual me deixaste,
eu sou a Liberdade, a que os homens feriram.

E segue para morte quase cantando:

Liberdade da altura, oh liberdade certa,
acende para mim os teus astros distantes.
Amor, amor, amor e eternas ilusões...

A mulher dependente e apaixonada, a mulher frágil, delicada, nascida e criada para os segundos planos. Esta mulher tornou-se símbolo de algo mais forte que a própria Espanha, de algo mais poderoso que todas as lutas; o verdadeiro sentido do viver, do amar. Mariana Pineda é meu personagem preferido, aquele que nunca interpretarei, mas que procurei transmitir a muitas pessoas amadas. Uma delas, uma das mais amadas e de maior identidade comigo, disse certa vez:

“Marianita Pineda dorme bem junto do meu peito, eu que também quereria”:

Sonhar na verbena e no jardim
de Cartagena, luminoso e fresco...

[1] Mariana Pineda Muñoz nasceu em 1º de setembro de 1804 e foi executada em 26 de maio de 1931, aos 26 anos, tendo seu pescoço estraçalhado pelo “garrote vil”, um dos recursos mais cruéis adotados no mundo para destruir inimigos do estado e que continuou a existir na Espanha até 02 de março de 1974, quando foi executado o anarquista Salvador Puig Antich.

INSTITUTO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS ENTREVISTA GUALTIERO MARINI

Excelente entrevista. Corajosa e solidária. Uma aula de História muito necessária. Parabéns, reduziu minha ignorância.

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Janeiro de 2023

Gualtiero Marini

1) Quem é Gualtiero Marini?

Um italiano “auto-exilado” que chegou no Brasil em 2011 e que pouco tempo atrás descobriu que sua bisavó paterna nasceu numa pequena cidade de Minas Gerais, no final do século XIX. O ciclo eterno das migrações na sociedade capitalista às vezes surpreende de forma positiva… No meu caso, a crise econômica de 2008 foi uma das principais razões que me forçaram a deixar a Itália e, graças a um contato na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), tive a oportunidade de fazer um doutorado em Ciência Política e descobrir esse país maravilhoso que se tornou minha nova casa. Apaixonado pela filosofia, pela política e pela música (em vinil, melhor), professor de italiano por profissão e pós-doutorando em História na Universidade Federal de São Paulo por prazer e necessidade.

2) Como se deu a sua aproximação com o anarquismo?

Na adolescência já…

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Liberdade para Kirill Ukraintsev, sindicalista, vítima do regime russo!

Avatar de colibevPortal Anarquista

.

Com mais de 20 anos à frente da Federação Russa, Putin tem travado uma verdadeira guerra contra o povo da Rússia, cuja situação económica e social continua a piorar. Para tentar esconder a situação, além do desenvolvimento de campanhas de intoxicação e propaganda, o regime silencia por todos os meios aqueles que ousam falar alto e lutar por mais liberdade e justiça. Sindicalistas, anarquistas e, em geral, defensores dos direitos humanos estão particularmente na sua mira… A guerra desencadeada após a invasão do território ucraniano aumentou a brutalidade da repressão por parte do Estado russo, que agora nem sequer finge respeitar a sua própria legalidade.

Kirill Ukraintsev é um simples trabalhador precário, um estafeta que faz entrega de refeições, e que com outros colegas, em 2020 teve a coragem de dizer “niet” ao seu patrão-oligarca e de criar um sindicato para exigir respeito pela sua dignidade. Desde 2020, eles…

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O ARQUIVO NACIONAL HOJE THE ARQUIVO NACIONAL OF BRAZIL TODAY EL ARQUIVO NACIONAL DE BRASIL HOY

Como arquivistas e profissionais do setor, conhecedores do papel fundamental dos
arquivos nacionais na promoção dos direitos dos cidadãos e na preservação dos
documentos da administração pública, assistimos com preocupação aos
acontecimentos envolvendo o Arquivo Nacional do Brasil.
Tal órgão, que realizou, com ajuda internacional, na década de 1980, um projeto de
modernização, assumindo um papel de destaque nacional e internacional, tem sido
alvo frequente nas redes sociais e em jornais de notícias que parecem indicar uma
alteração no seu perfil institucional. Nelas discutem-se aspectos há muito consagrados
na profissão, como o papel dos arquivos nacionais na gestão de documentos da
administração pública, aprovando planos de classificação, tabelas de destinação e
ações de eliminação de documentos, realizando recolhimentos com regularidade,
dando acesso a tais registros e na proteção do patrimônio arquivístico nacional, seja o
de origem privada ou pública, com especial destaque para aqueles documentos
relevantes para memória e reparação de violações de direitos humanos.
Ainda que essas funções sejam sempre difíceis e desafiadoras, não podem ser
negligenciadas por arquivos, entidades ao mesmo tempo culturais e administrativas,
que pertencem ao Estado e aos cidadãos, e que atendem não só ao presente, mas
também às necessidades das gerações futuras.
As recentes alterações no quadro de profissionais do Arquivo Nacional, com
devolução de pessoal especializado cedido, transferência de profissionais, com larga
experiência, dos setores aonde exerciam suas atividades para outros, com requisitos
de habilidades diversas, o esvaziamento da área de gestão de documentos digitais,
em que a instituição desempenhou um papel de vanguarda no Brasil e a passagem do
MAPA (Memória da Administração Pública Brasileira) da área de gestão de
documentos, onde servia ao controle dos acervos produzidos pelos órgãos e à área de
tratamento da documentação permanente, para a coordenação de publicações, mais
afeita a pesquisas essencialmente históricas, reforça a inquietação sobre o presente e
o futuro do órgão e do seu acervo, atual e vindouro.
Esperamos que o Arquivo Nacional do Brasil, atento à sua história e à teoria
arquivística, consiga ultrapassar os problemas hoje enfrentados e se manter fiel à sua
missão de servir ao Estado e ao cidadão, de hoje e do futuro.
________________________________________
As archivists and persons of related professions, we are aware of the fundamental role
of national archives in promoting the rights of citizens and preserving the records of
public administration for history. Consequently, we are watching with deep concern the
events currently involving the Arquivo Nacional of Brazil.
The Arquivo Nacional, which with international help in the 1980s carried out a
modernization project, has a prominent national and international role. Recently,
however, it has become a frequent target on social networks and in newspapers,
seemingly indicating a change in its public institutional profile. These media discuss
functions that have long been recognized as an integral part of the archival profession,
such as the role of a national archives in managing the records of public administration,
making decisions on what records to preserve and which to destroy, regularly
accessioning and providing access to permanently valuable records, and protecting the
national archival heritage, whether of private or public origin, with special emphasis on
documents important for historical memory and for safeguarding of human rights.
Although these functions are always challenging to carry out, they cannot be neglected
by a public archives, which has both a cultural and an administrative role. The archives
held by the Arquivo Nacional belong to the State and the citizens, serving not only
present needs but also those of future generations.
We, the undersigned, are concerned by the recent staff changes at the Arquivo, with
the abrupt reassignment of personnel with extensive specialized experience from the
areas in which they have expertise to other areas with difference skill requirements. We
are dismayed by the decisions which have hollowed out work on digital document
management, an area in which the Arquivo has played a leading role in Brazil. And we
deplore the transfer of MAPA (Memória da Administração Pública Brasileira), which
served to manage the creation of records by agencies and other public administration
bodies and also to support the arrangement and description of the historical archives,
from the section of document management to the section controlling publications which
is essentially devoted to historical research not interactions with government
administration. All these changes heighten our concern about the present and future of
the Arquivo and its holdings.
We hope the Arquivo Nacional of Brazil, respecting its history and relying on archival
principles, will be able to overcome the problems it faces today and will remain faithful
to its mission of serving the State and its citizens, today and for the future.
________________________________________
Como archivistas y profesionales del área, conscientes del papel fundamental de los
archivos nacionales en la promoción de los derechos de la ciudadanía y la
preservación de los documentos de la administración pública, observamos con
preocupación los hechos que involucran al Arquivo Nacional de Brasil.
Esta institución, desde la década de 1980, llevó a cabo – con ayuda internacional – un
proyecto de modernización con el que asumió un destacado papel nacional e
internacional. En el último tiempo, ha sido un blanco frecuente en las redes sociales y
en los periódicos que parecen indicar un cambio en su perfil institucional. Se discuten
aspectos que desde hace mucho tiempo son reconocidos en la profesión: el papel de
los archivos nacionales en la gestión de documentos de la administración pública, la
aprobación de cuadros de classificación, tablas de plazos de guarda y acciones de
eliminación de documentos, la importancia de realizar ingresos periódicos, dar acceso
a su acervo y proteger el patrimonio archivístico nacional-ya sea de origen privado o
público- con especial énfasis en los documentos relevantes para la memoria y
reparación de las violaciones de derechos humanos.
Si bien estas funciones son siempre difíciles y desafiantes, no pueden ser
desatendidas por los archivos, entidades que son culturales y administrativas a la vez,
pertenecientes al Estado y a la ciudadanía, y que sirven no solo al presente sino
también a las necesidades de las generaciones futuras.
Los recientes cambios en la plantilla del Arquivo Nacional, que implicaron el regreso
de personal especializado asignado y el traslado de profesionales con dilatada
experiencia de los sectores en los que ejercían su actividad a otros con diferente
exigencia de competencias; el vaciado del área de gestión documental digital, en la
que la institución tuvo un papel protagónico en Brasil; y el paso del MAPA (Memória da
Administração Pública Brasileira) del área de gestión documental, donde sirvió para
controlar la documentación producida por los organismos y para el área de
procesamiento de documentación permanente, al de coordinación de publicaciones,
más dedicada a la investigación esencialmente histórica; refuerza la preocupación por
el presente y futuro del órgano y su acervo, actual y por venir.
Esperamos que el Arquivo Nacional de Brasil, atento a su historia y adscripción a la
teoría archivística, logre superar los problemas que enfrenta hoy y se mantenga fiel a
su misión de servicio al Estado y a la ciudadanía, hoy y en el futuro.
________________________________________
C’est avec inquiétude qu’en tant qu’archivistes et professionnels du secteur, conscients
du rôle fondamental des archives nationales dans la promotion des droits des citoyens
et la préservation des documents de l’administration publique, que nous avons assisté
à des événements concernant les Archives nationales du Brésil.
L’Arquivo Nacional, qui a réalisé un projet de modernisation avec l’aide internationale
dans les années 1980, joue un rôle national et international de premier plan.
Récemment cependant, il est devenu une cible fréquente sur les réseaux sociaux et
dans les journaux, ce qui semble indiquer un changement dans son profil institutionnel
public. Ces médias débattent de fonctions qui sont depuis longtemps reconnues
comme faisant partie intégrante de la profession d’archiviste, comme le rôle des
Archives nationales dans la gestion de l’archivage dans l’administration publique, la
responsabilité des décisions sur les documents à préserver et ceux à détruire, la prise
en charge régulière des documents à conservation permanente, la garantie de l’accès
à ces documents, ainsi que la protection du patrimoine archivistique national, qu’il soit
d’origine privée ou publique, en mettant l’accent sur les documents importants pour la
mémoire historique et pour la réparation des violations des droits de l’Homme.
Bien que ces fonctions soient toujours difficiles à remplir et posent des défis, elles ne
peuvent être négligées par les Archives, qui ont un rôle à la fois culturel et
administratif, qui appartiennent à l’État et aux citoyens et servent non seulement les
besoins actuels mais aussi ceux des générations futures.
Or plusieurs faits sont particulièrement préoccupants, qui renforcent notre inquiétude
quant à l’avenir de l’organisme et des archives qu’il conserve, aujourd’hui et dans le
futur : les changements récents de personnel aux Archives nationales, avec le retour
d’agents spécialisés détachés, et le transfert de professionnels très expérimentés de
leur secteur d’activité à d’autres exigeant des compétences différentes ; le retrait
significatif de ressources humaines du secteur de l’archivage numérique, dans lequel
l’institution a joué un rôle d’avant-garde au Brésil ; le transfert de la MAPA (Memória da
Administração Pública Brasileira -Mémoire de l’administration publique brésilienne) du
secteur de la gestion de l’archivage, où elle contrôlait la production documentaire des
organismes et le traitement des archives à conservation permanente, au secteur de la
coordination des publications, plus particulièrement dédié à la recherche historique.
Nous espérons que l’Arquivo Nacional du Brésil, en respectant son histoire et en
s’appuyant sur les principes archivistiques, sera en mesure de surmonter les difficultés
qu’il rencontre actuellement, et restera fidèle à sa mission de service de l’Etat et des
citoyens, aujourd’hui et à l’avenir.

NOME / NAME / NOMBREPAÍS / COUNTRY
/ PAÍS
1.Trudy H. PetersonUSA
2.Antonio González QuintanaEspanha
3.Mariana NazarArgentina
4.Jaime Antunes da SilvaBrasil / RJ
5.Vitor FonsecaBrasil / RJ
6.Silvia de MouraBrasil / RJ
7.Margareth da SilvaBrasil / RJ
8.Celina Vargas do Amaral PeixotoBrasil / RJ
9.Aline LacerdaBrasil / RJ
10.Agnès MagnienFrança
11.Luciana Quillet HeymannBrasil / RJ
12.Ana Celeste IndolfoBrasil / RJ
13.Vera Lúcia Hess de Mello LopesBrasil / RJ
14.Francisco Carlos Teixeira da SilvaBrasil / RJ
15.David SuttonUnited Kingdom
16.Michael J. FoxUSA
17.Paulo Elian dos SantosBrasil / RJ
18.Beatriz KushnirBrasil / RJ
19.Georgete Medleg RodriguesBrasil / DF
20.Welder SilvaBrasil /MG
21.Anna SzlejcherArgentina
22.Elisabete Gonçalves SouzaBrasil / RJ
23.Marieta de Moraes FerreiraBrasil / RJ
24.Perrine CanavaggioFrança
25.Lucia LippiBrasil / RJ
26.Daniel PittiUSA
27.Deborah JenkinsUnited Kingdom
28.Rosale de Mattos SouzaBrasil / RJ
29.Sara SchliepUSA
30.Ismênia de Lima MartinsBrasil / RJ
31.Cynthia RoncaglioBrasil / DF
32.Audra Eagle YunUSA
33.Maria Celina D’ AraujoBrasil / RJ
34.Eliane Braga de OliveiraBrasil / DF
35.Thereza BaumannBrasil / RJ
36.Ivan de Sá RezendeBrasil / RJ
37.Tânia BessoneBrasil / RJ
38.Renata BorgesBrasil / RJ
39.Victoria Crosman de RezendeBrasil / RJ
40.Rodrigo EstevãoBrasil /SP
41.João FonsecaUSA
42.Courtney Ivins PriceUSA
43.Vânia Leda CunhaBrasil / RJ
44.Renato de MattosBrasil / RJ
45.José Francisco Guelfi CamposBrasil / MG
46.Evelin MInteguiBrasil / RS
47.Michael RushUSA
48.Gilda VerriBrasil / PE
49.Luiza Crosman de RezendeBrasil / SP
50.Alzira Alves de AbreuBrasil / RJ
51.João Luiz de Araújo RibeiroBrasil / RJ
52.Stefano VitaliItália
53.Maria Lúcia Cerrutti MiguelBrasil / RJ
54.Renato VenâncioBrasil / MG
55.Lúcia BastosBrasil / RJ
56.Lygia GuimarãesBrasil / RJ
57.Guilherme Pereira das NevesBrasil / RJ
58.Marcos Guedes VeneuBrasil / RJ
59.Clarissa SchmidtBrasil / RJ
60.Francisco CougoBrasil / RS
61.Renato Motta Rodrigues da SilvaBrasil / PE
62.Christine MartinezFrança
63.Luciana DurantiCanadá
64.Roberta Pinto MedeirosBrasil / RS
65.Carlos Alberto Ávila AraújoBrasil / MG
66.Cintia Aparecida ChagasBrasil / MG
67.Silvano G. A. Benito MoyaArgentina
68.Maria Leandra BizelloBrasil / SP
69.Marcelo Tadeu Bauman BurgosBrasil / RJ
70.Alba Gisele GougetBrasil / RJ
71.Patricia HuanuqueoChile
72.Adrian CunnighamAustrália
73.Paulo KnaussBrasil / RJ
74.Diana Gonçalves VidalBrasil / SP
75.Marcia Cristina de Carvalho Pazin VitorianoiBrasil / SP
76.Rosely RondinelliBrasil / RJ
77.Gilberto G. CândidoBrasil / PA
78.Roberto Lopes dos Santos JúniorBrasil / PA
79.Iane Maria da Silva BatistaBrasil / PA
80.Natália Marinho do NascimentoBrasil / PA
81.Mônica TenagliaBrasil / PA
82.Jorge Eduardo Enriquez VivarBrasil / RS
83.Dina Elisabete UlianBrasil / SP
84.Andreas NefSuíça
85.Hildete Pereira de MeloBrasil / RJ
86.Heloisa PauloPortugal
87.Enrique Coraza de los SantosMéxico
88.Vittório CappelliItália
89.Aderson BussingerBrasil / RJ
90.Luis Reis TorgalPortugal
91.Alberto Pena RodríguezEspanha
92.Mariza Soares CarvalhoBrasil / RJ
93.Antonio Edmilson RodriguesBrasil / RJ
94.Maria Teresa MatosBrasil / BA
95.Lucia Maria Velloso de OliveiraBrasil / RJ
96.João Marcus Figueiredo AssisBrasil / RJ
97.Antonio Herculano LopesBrasil / RJ
98.Fernando de Assis RodriguesBrasil / PA
99.Maria Ana QuaglinoBrasil / RJ
100.Michael ConniffUSA
101.Helena BomenyBrasil / RJ
102.Joan OsbourneTrinidad & Tobago
103.Andre Luiz Vieira de CamposBrasil / RJ
104.Maria Regina Celestino de AlmeidaBrasil / RJ
105.Hebe Maria MattosBrasil / RJ
106.José Almino AlencarBrasil / RJ
107.Rita de Cássia Portela da SilvaBrasil / RS
108.Clara Marli KurtzBrasil / RS
109.Glaucia Vieira Ramos KonradBrasil / RS
110.André Vieira de Freitas AraújoBrasil / RJ
111.Juan Jose AlonsoEspanha
112.Cristina EmperadorEspanha
113.Mercedes Martin-PalominoEspanha
114.Andrea Telo da CorteBrasil / RJ
115.Luiz Cleber GakBrasil / RJ
116.Luís FarinhaPortugal
117.Frederico Alexandre HeckerBrasil / SP
118.Gizlene NederBrasil / RJ
119.Renato Janine RibeiroBrasil / SP
120.Wilma Peres CostaBrasil / SP
121.Laura de Mello e SouzaBrasil / SP
122.Jorge Fernandes AlvesPortugal
123.Daniel Aarão ReisBrasil / RJ
124.Angela de Castro GomesBrasil / RJ
125.Lucia Maria Paschoal GuimarãesBrasil / RJ
126.Blanca I. BazacoEspanha
127.Eliete SantosBrasil / PB
128.Telma Campanha de Carvalho MadioBrasil / SP
129.Natália Bolfarini TognoliBrasil / RJ
130.Regina da Luz MoreiraBrasil / RJ
131.Margarete Farias de MoraesBrasil / ES
132.Julieta SahadeArgentina
133.Ingrid JaschekArgentina
134.Leonardo MelladoChile
135.Rodrigo SandovalChile
136.Andrés Pak LinaresArgentina
137.Ana GuerraArgentina
138.Vera de la FuenteArgentina
139.Rocío CaldenteyArgentina
140.Cecilia García NovariniArgentina
141.Eugenia AlvesArgentina
142.Valentina RojasChile
143.María MontenegroChile
144.Rodrigo CarrazanaChile
145.Claudio OgassChile
146.Viviana PinochetChile
147.Bruno Henrique MachadoBrasil / SP
148.Jorge Alberto Soares CruzBrasil / RS
149.Johanna SmitBrasil / SP
150.Sonia Elisabete ConstanteBrasil / RS
151.Carlos Augusto AddorBrasil / RJ
152.Mariléia InoueBrasil / RJ
153.Fania FridmanBrasil / RJ
154.Rodrigo Patto Sá MottaBrasil / MG
155.Benito Bisso SchmidtBrasil / RS
156.Armelle EndersFrança
157.Angélica MüllerBrasil / RJ
158.Camille GoirandFrança
159.Ana Célia Navarro de AndradeBrasil / SP
160.Evergton Sales SouzaBrasil / BA
161.Danilo BarbieroBrasil / RS
162.Francisco Cesar Alves FerrazBrasil / PR
163.Karina Veras Praxedes dos SantosBrasil / RJ
164.Karin Christine SchwarzboldBrasil / RS
165.Flávio Leal da SilvaBrasil / RJ
166.Andrea Gonçalves dos SantosBrasil / RS
167.Mariana Batista do NascimentoBrasil / MG
168.Eliane Monteiro ConsideraBrasil / RJ
169.Almir Chaiban El-KarehBrasil / RJ
170.Luiz Carlos SoaresBrasil / RJ
171.Alexandre SamisBrasil / RJ
172.Jorge FerreiraBrasil / RJ
173.José Carlos Sebe Bom MeihyBrasil / SP
174.Fernanda RibeiroPortugal
175.Bruno Ferreira LeiteBrasil / RJ
176.Regina A. HatakeyamaBrasil
177.Ana Maria MauadBrasil / RJ
178.Ana Maria de Almeida CamargoBrasil / SP
179.Valéria Raquel BertottiBrasil / RS

Feliz aniversário, André Luiz! Seja feliz, sempre!

Luiz Alberto Sanz

O dia 23 de setembro tem, para mim, um brilho especial, que vai além da primeira alvorada da Primavera. Em 1966 nasceu meu primeiro filho, André Luiz, mais conhecido como André Sanz) e algumas décadas depois nasceria meu quarto sobrinho neto, Lucas, filho de Cláudia e neto de Sergio Sanz. Ambos neste mesmo dia.

Para ressaltar a importância da data, fui buscar no fundo do poço da memória a cópia de uma carta que escrevi para o André em 20 de setembro de 1974 e lhe enviei do nosso (de Odila, Joca e meu) exílio em Estocolmo. Odila, minha companheira, e André já se conheciam. Ele lhe deu o apelido de Didi quando ainda falava poucas palavras e foi ela que o chamou de Dedé pela primeira vez. Joca é o meu terceiro filho, nascido no Chile, e só veio a conhecer seus irmãos em dezembro de 1969, quando, anistiados, retornamos ao Brasil.

Aqui vai o fac-símile da carta:

Primeiro de Maio de 1971

Luiz Aberto Sanz

Há 50 anos, recém chegado ao Chile, realizei um pequeno filme, 16 mm, cinco minutos de duração, “Primero de Mayo”, reunindo uma equipe de jovens bambas e bambas veteranos, Luiz Alberto Sanz (Dirección), Toño Ríos,(Dirección de Fotografía), Carlos Gonzales (Dirección de Fotografía), Luiz Alberto Sanz (Montaje), Sergio Sanz (Montaje), Luis Mora (Producción ejecutiva), Leonardo Céspedes (Sonido), Mario Contreras (Sonido), Cine Experimental de la Universidad de Chile (Producción). Logo, menos de três anos depois e agora, tornou-se memória do 1º Primeiro de Maio da Unidade Popular, quer dizer Allende e os partidos que o apoiavam, no Governo. Ainda está vivo!

Un solo color

No link, está seguido do segundo filme que fiz no Chile,ainda em dezembro de 1970, Un solo color, producción de Icira, Instituto de Capacitación y Información de la Reforma Agraria, sob a orientação do poeta amazonense e um dos melhores do Brasil Thiago de Melo, então diretor de comunicação do Instituto. No total, chega a uns doze minutos. Vivíssimo, nele os mapuches de Cautín chamam os camponeses chilenos, de todas as origens, à unidade, a juntar los palos y luchar.

FECHA DE REALIZACIÓN

1970

PAÍS

Chile

DURACIÓN

7m 0.0s

IDIOMA

Español

SINOPSIS

Película colectiva realizada en el periodo de la Unidad Popular por campesinos de Cautín y que revisa los problemas del campesinado local. 

Sobre la Obra: 

Película producida por el INDAP y de la cual no se tenía antecedentes de su existencia, se conservó una copia en la Cineteca de la Universidad de Chile. 

Participación: 
Alejandro González 
Alicia Gordon 
Chac Manzana 
Juan L. Gutiérrez 
Luiz Alberto Sanz 
Marlen Lolas 
Thiago de Mello

CRÉDITOS

Luiz Alberto Sanz (Dirección)
Instituto de Desarrollo Agropecuario INDAP (Producción)
Instituto de Capacitación y Investigación en Reforma Agraria (Producción)
Thiago De Mello (Producción)

DERECHOS DE AUTOR


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Porque comemoramos o 25 de abril

Saudemos a Revolução dos Cravos e seu conteúdo libertário! Lembremos os anarquistas que lutaram e pereceram na luta contra o fascismo integralista desde os primeiros momentos, antes mesmo do golpe de 1926. à sua memória!

Avatar de colibevPortal Anarquista

Comemora-se este domingo o 47º aniversário do movimento insurreccional de cariz militar que pôs fim a 48 anos de fascismo.

Militares de carreira, convencidos de que a guerra colonial não tinha saída senão através de conversações e da independência das colónias, desencadearam o golpe militar que, desde logo, teve um imenso apoio popular e que desencadeou, nos dias e nos meses que se lhe seguiram, um verdadeiro movimento popular de desmantelamento das estruturas fascistas e de construção de espaços de afirmação autónomos de trabalhadores, moradores, estudantes, etc.

Foi o tempo de ocupação de fábricas, casas, terras, da autogestão colocada como forma possível e necessária de gestão das nossas vidas, sem estruturas intermediárias, fossem elas estatais ou meramente representativas. Durante vários meses o “sonho” esteve nas ruas e mobilizou milhões de portugueses por todo o país, transformando o que tinha sido um golpe militar…

Ver o post original 383 mais palavras

Dia 2 de fevereiro é dia de festa no mar![i]

Luiz Alberto Sanz

Um mar de flores contorna a murada e desce pelas escadas em direção à areia; os pontos acompanham, cantados por quase todos

Já não posso ser o primeiro a saudar Yemanjá, pois é de tarde e, neste 2021 não houve participação de fiéis e curiosos nem festejos nas areias do Rio Vermelho. Mas tentei, à vera, ser o primeiro há 52 anos. Só que não dava. Eram muitos primeiros. Uma multidão cobria o Rio Vermelho. Cada vez que vou no bairro sinto uma grande emoção, apesar de todas as modificações por lá acontecidas.

Para lembrar, envio aos amigos a reportagem que publiquei no Suplemento Cultural do Jornal do Commercio. Fiquei todo bobo quando o mestre Edison Carneiro, em visita à redação, me cumprimentou e incentivou a continuar nessa linha de pesquisa. Não ouvi o mestre e fiquei vagando entre objetos de atenção, mais um especialista em generalidades, como um dia formulou Décio Pignatari.

Axé (Pura Energia)!


[i] Esta introdução foi publicada em 6 de Março de 2007, portanto, há mais de 42 anos da publicação da reportagem que apresenta. Fiz pequenos remendos para esta nova edição, em https://mosaicomourisco.blog e na Rede Sina, trocando a referência de afastamento temporal de 42 para 56 anos e acrescentado comentários sobre 2021 e sobre as razões da minha estada na Bahia..


Salve Mãe Yemanjá, Janaina!
Orixá maior do fundo do Mar

Texto e fotos de Luiz Alberto

Jornal do Commercio – Suplemento Dominical – Rio de Janeiro – domingo, 21 de fevereiro de 1965


TERÇA-FEIRA, 2 de fevereiro de 1965. Rio Vermelho já amanhece movimentado. Cedo se ouvem os atabaques, mas pelo fim da tarde será quase impossível caminhar entre as barracas. O calor, me dizem, é o maior já feito em Salvador. Nada de igual, mas milhares de pessoas suportarão o vento e o sol abrasante para render homenagem ao mais forte Orixá dos mares, ainda mais por sua poderosa identificação com Nanã, mãe de todos os orixás; e Oxum, rainha das fontes e dos rios. Yemanjá tem sua festa maior, a maior do Brasil.

Vinte saveiros levarão os presentes e os devotos. Cortarão as ondas e os gritos de Salve Dona Oxum, Salve Janaína, Salve Rainha do Mar, marcarão todo o percurso até o Mar Grande, onde fica a sua «loca». O misto dos ritos Nagô, Jêje, Caboclo, Angola e Congo torna a festa mais bonita e estranha. A Bahia vibra, quase parada na mística que arrasta grande parte de sua população, praticamente de negros e mestiços, os tradicionalmente explorados.

Recusa

Se o seu presente surgir na praia, Yemanjá o recusou. Se você tem dívidas com ela, manterá a obrigação. Se foi um pedido, não será satisfeito. A oferenda deve ser lançada em alto mar, levada em saveiros ou jangadas, entre cantos Nagô (mais comuns), Angola, Congo, ou Jêje.

Todos os tipos de pedido são feitos enquanto as oferendas tocam direto na vaidade da deusa: perfumes caros, flores belíssimas, joias de ouro, pentes de prata, relógios, espelhos, pó-de-arroz, sabonetes, laços de fita acompanhados de pequenos bilhetes. O que mais se quer é saúde e a volta do amado. Todos esperam que a «Mãe» o faça.

A casa

No Rio Vermelho, pela hora da festa, não se encontra lugar para ficar, a «Casinha» já não mais suporta os presentes. São colocados ao seu redor. Ainda é imensa a fila. Do mais pobre ao mais rico, homens e mulheres de branco trazem sua fé e sua esperança.

Pela manhã começa o movimento, baseado no horário da natureza. Com o Sol, temos o dia da festa. O povo se desloca de todas as partes para Itapuã, Amoreira e Rio Vermelho. As barracas já estão montadas para a venda de comidas baianas e bebidas. Em Rio Vermelho restará uma semana, até o domingo de Senhora Sant’Anna, primeiro depois de Dona Janaína.

A casa, minúscula, com a mesa para as oferendas e o retrato da Mãe, fica exatamente ao lado de imensa igreja em construção. A «Casinha» de Yemanjá é ainda menor pela proximidade da obra nada simples dos católicos. Para estes, a festa é interior e não em 2 de fevereiro (Purificação e Senhor dos Passos). Para os milhares de devotos de Janaína, a festa é pública, sob o céu de Olorum.

A Deusa

1ª página do Suplemento Dominical do Jornal do Commercio de 21 de fevereiro de 1965, Coleção Digital de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional.

Inaê, Janaína, Dona Janaína, Marabô, Dona Maria, Princesa ou Rainha do Mar, Princesas do Aruka ou Aiuká, Sereia, Sereia do Mar, Sereia Mucunã, Dandalunda e Kaiala estão entre os nomes da mais festejada das deusas. Seu reino é o fundo do Mar, onde é o mais poderoso dos orixás. A deusa divide sua festa com Nanã e Oxum, que vêm a se confundir em seus traços.

A tradição nagô divide a semana por seus deuses. Oxum e Yemanjá são donas do sábado, dia possuidor da água do mar e da água doce. Os outros dias estão entregues a Exu e Omólu (segunda-feira) para que a semana seja feliz e cheia de saúde; e Nanã e Oxunmarê (terça) pela chuva e o arco-íris, a Xangô e Iansã (quarta) pelos raios e os ventos, a Oxóssi e Ogum (quinta) pela caça e artes manuais. Oxalá é dono da sexta-feira, influência católica, com o culto do Senhor do Bonfim. Todos os deuses têm dedicado o domingo.

Datas

Oculto normal, a 2 de fevereiro, é de Oxum, sendo Yemanjá a 8 de dezembro e Nanã a 26 de julho. No entanto, Salvador as identifica e dedica a data da deusa das fontes e dos regatos à Senhora do Mar.

Yemanjá tem setenta e duas nações, variando suas cores e seu culto. A festa de 2 de fevereiro é caracterizada pelo branco, cada «cavalo», «filha de santo» ou «vôdunsi» (caboclo, nagô ou jêje) trazendo colares com as cores de seus santos. Yemanjá propriamente tem a base no azul e no vermelho, e seu culto é mais realizado em público que dentro do Candomblé.

Origem

Cada nação africana tinha sua religião particular, mas diversos fatores, como o tráfico externo e interno de escravos, serviram para promover uma unificação do culto, pelo menos em seus pontos essenciais. Os primeiros negros trazidos vinham da Costa da Malagueta (desde o Senegal a Serra Leoa), das tribos Fula e Mandinga, alcançadas pela expansão do Islã, sem serem de todo islamizadas. Foram levadas para as áreas dos canaviais. Quando da colonização amazônica, foram ainda os elementos da Guiné os escravizados. Desde os primeiros dias do século XVII, segundo Edison Carneiro, Angola foi a maior praça de escravos do Brasil. Pouco depois da ocupação pelos portugueses, os holandeses foram desalojá-los, passando a trazer escravos para a Nova Holanda. Os portugueses, em seguida, reconquistaram o litoral angolense, que ia até a embocadura do Congo. Edison Carneiro mostra que de Angola e Congo vieram para o Brasil negros de língua banto e de Moçambique, muito pouco pelos custos, pequenos contingentes de macuas e anjicos. Foram trazidos ainda muitos, por muito tempo, da Costa da Mina, absorvidos pela Bahia e transportados para as Minas Gerais, ao trabalho de mineração.

Cadinho

A guerra contra os holandeses, a mudança do interesse econômico do açúcar para ouro, do ouro para o café, transformou o país em um cadinho de raças. Com o fim da época do ouro, os negros foram dispersos, restando alguns na Bahia, outros seguindo para Pernambuco e Maranhão, e muitos sendo vendidos para o Sul. Mais negros eram trazidos da África e cruzavam com crioulos (negros nascidos no Brasil). O intercâmbio linguístico, sexual e religioso entre escravos e ex-escravos foi assim favorecido, e mesmo provocado, pelo tráfico negreiro, que, diz Edison Carneiro, «deu o retoque final à concentração de negros nagôs na Bahia, em fins do século XVIII, quando os mineradores, desinteressados da minas, já não precisavam dos negros procedentes da Costa da Mina, nem se dispunham a pagar os altos preços que os traficantes por eles pediam».

Quase todas as nações vizinhas professavam religiões semelhantes às dos nagôs, enquanto as divindades jêjes e seu culto eram praticamente «nacionais». Os nagôs gozavam de prestígio pelo seu avanço cultural e passaram a constituir uma elite que veio a impor sua religião à massa escrava desordenada que não podia entender o catolicismo que lhe procuravam impor sem ter ligação alguma com seus costumes primitivos.

Edison Carneiro lembra que os malês (mulçumanos), que poderiam dividir e concorrer com os nagôs, afastavam de si a escravaria, em manifestação sectária.

A Festa

Os «candomblés», em geral, não podem ser fotografados, mas no ato público permitem o registro. Pessoas de todas as classes, crentes ou profanas, mesclam-se na apreciação. As «mães de santo», desde a manhã, cantam pontos e dançam no «barracão», ao lado da «casinha». É um caramanchão coberto de palma onde se reúnem as «filhas e mães de santo», ao som do atabaques sob a orientação de um «pai de santo». Em torno, todas as barracas da festa estão cercadas de palma. Dentro do barracão já penetram estranhos, mas a profanação não atinge os devotos. Parece que é uma festa de todos. O interior da «casinha», proíbem-nos de fotografá-lo. Lá está o retrato da «Mãe-d’água».

A fila cresce, os saveiros já começam a tocar a praia, vêm receber os presentes. Muitas pessoas já estão sob a ação do álcool. As mulheres esperam ansiosas por seguirem para o mar. Na praia e nas calçadas, milhares de pessoas comprimem-se alheias às misérias e aos sofrimentos. A mística primitiva lhes traz a esperança. Tudo melhorará, creem, pela graça da Rainha do Mar. Os presentes serão lançados, os cânticos, em português, nagô e jêje durarão longo tempo, fora e sobre o mar.

A partida

A maré sobe. Da «casinha» saem os pescadores, marinheiros, suas mulheres e mulheres do povo carregando as oferendas. Um mar de flores contorna a murada e desce pelas escadas em direção à areia; os pontos acompanham, cantados por quase todos. Os saveiros esperam homens e mulheres que penetram até a cintura pelas águas e formam um cordão que entregará à tripulação os presentes. As faces trazem uma luz diferente, refletem um culto de raízes mais velhas do que podem lembrar. Dos outros barcos são lançados foguetes.

Ao meu lado, uma jovem senhora de cor[i] grita inteiramente tomada de esperança. Pede a um colega de saveiro que escreva um bilhete em seu nome para a Mãe D’Água. Pede a volta do marido: «Ele tem que voltar, tem que voltar», diz. Olha para mim: «Molhe a cabeça e faça o pedido». Minha companheira[ii] e eu esticamos o braço e molhamos os cabelos. Ela quer molhar a minha cabeça, mas a mulher intervém: «Que seja ele mesmo». Vejo sua fé e o faço.

Voltando à praia, a festa continuará por toda à noite e até o fim da semana.

A Volta

Os saveiros vêm deixar os que continuarão em Rio Vermelho. O barco «Pilôto», portador dos presentes principais, segue para a Barra. Os pescadores recolhem suas jangadas e saveiros. O nosso barco passa por uma catraia onde vão um homem e um garoto. O mar encrespa-se. O timoneiro oferece reboque, prepara acorda. O homem recusa e persiste no remo. Chegará, por mais tempo que leve, mesmo que seja noite, mas não irá areboque. Seguiu os saveiros na leva do presente sem reboque, na volta não irá aceitá-lo. Prosseguimos e arribamos. Já escurece. Tempo para um banho e voltar à festa.

Saltamos do barco para aágua. A roupa de banho nos facilita, mas o barqueiro carrega no colo os que estão de terno, como Gumercindo Doria e Rangel, o repórter de Salvador. Em todo o caso, a fatiota não ficará impune, pois são depositados em plena água. Calças molhadas, em todo o caso, não preocuparão com o calor enorme.

À noite

Capoeiras formam grupos nas esquinas. Os «berimbaus» tocam os ritmos mais diversos. Dançam, ágeis, enquanto «sambas de roda» são cantados junto às barracas ou pelas esquinas. Saem brigas, provocadas pelo álcool e pela moral. Todos passeiam, parando de quando em quando para comer um acarajé, ou jantar, desde angu até um magnífico sarapatel.

O samba prossegue: «Sai, sai, sai, ô Piau, das águas da lagoa»…

Mais embaixo, um show promovido por uma estação de rádio divulga músicas de carnaval dando mais e mais uma composição confusa de feira, onde os boleros que as vitrolas de algumas barracas tocam formam com os berimbaus, os violões de seresta, as palmas de sambas e as esquisitas músicas carnavalescas, uma feira de sons. O primeiro dia de festa está quase no fim. Os outros dias serão parcos e miseráveis, nenhuma manifestação maior, só as barracas armadas.


[i] Mantenho a forma usual naquele tempo, embora, hoje a considere racista e depreciativa. Mas, o registro histórico impõe a constatação de que, mesmo não sendo racista, eu e outros como eu, utilizávamos palavras com tonalidade afetiva contrária ao que eu queria dizer.

[ii] Essa companheira, a poeta e secundarista Jussara de Moraes, filha do sociólogo Walfrido de Moraes (autor de Jagunços e Heróis), foi uma das razões principais de minha estada na Bahia, gozando as férias. Eu estava apaixonado por ela, mas ela não estava por mim. Não deu certo. Paralelamente, recebera de Norberto Macdonald (codinome de um companheiro baiano do CC do PCB que estava clandestino no Rio) o encargo de contactar políticos e intelectuais seus conterrâneos para o projeto de editar um semanário nacional, com sede no Rio, que seria dirigido por Mario Pedrosa. Não deu certo, também.

SUBSTITUTIVO PARA A MORTE

Luiz Alberto Sanz

Em novembro de 1969 já começara o período de repressão mais violenta e cruel à resistência brasileira. Eu ainda atuava legalmente, dirigindo a Imprensa Universitária da UFF, escrevendo críticas de Cinema e Teatro (estas, cobrindo licença de Luiza Barreto Leite) no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Clandestinamente, fazia parte da rede logística da Vanguarda Armada Revolucionária (VAR) Palmares na qual se haviam fundido a antiga Vanguarda Popular Revolucionária e o Comando de Libertação Nacional (Colina), organização com a qual colaborava anteriormente, em Niterói. Eu já sentia que minha situação estava mudando e que, breve, eu teria que passar à clandestinidade.

Já publiquei aqui, sob o título geral de “Balanço amargo e otimista em 1969”, o último artigo que escrevi antes de fugir para São Paulo, com os “verdes” no meu encalço: “A vez do cavalo perneta perdedor, ou vamos botar pra quebrar, seu Edgard”. Mas, no começo do mês, eu publicara a crítica sobre Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht, em montagem do Teatro Oficina dirigida por José Celso Martinez Corrêa, que continua a ser referência das dramaturgias rebeldes em nosso país. Eu a republico aqui por identificar no atual momento brasileiro, em todos seus aspectos, os sintomas da falência moral, cultural e política que caracterizaram a ditadura iniciada em 1964, sobretudo quando gerida pelo General Médici. Dizem que a História se repete como farsa, então me passa pela cabeça que a crueldade de um tenente expulso do Exército reproduz a crueldade de um General com bizarrice. Tempos bizarros os que vivemos, exigem a desconstrução da sociedade para construir uma Federação de Comunidades. Na Selva das Cidades é atual como foi atual quando escrita pelo jovem Brecht, nos anos 20, influenciado pelo Anarquismo, e quando montada pelo já maduro José Celso, em 1969.

O ensinamento do caos ou os caminhos do ódio [i]

Luiz Alberto Sanz

Ítala Nandi, ao centro, momentos antes da cena do estupro, em “Na selva das cidades” (1969), do repertório do Teatro Oficina (Fotos: Arquivo) https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/o-primeiro-nu-frontal-a-gente-nao-esquece/

Decidi preparar-me. Uma crítica sobre um espetáculo alicerçado em Brecht torna-se elemento importante para sustentar ou derrubar um jovem intelectual. Dá status. Fui em busca da bibliografia mínima necessária a um crítico de respeito. Espalhei pela mesa os 134 livros, 300 revistas e 2.000 recortes considerados básicos à compreensão de Bertolt Brecht, Homem e Obra. Achei-me equipado desta forma, em condições de não enrubescer diante dos melhores de nossos críticos. Sentei diante de toda esta memória e opinião, convicto de estar prestes a honrar os melhores elogios e ocupar aquela posição decisiva como intelectual, posição que vinha chutando constantemente, por irreverência malsã.

Sentei (talvez Brunstein, Willett e outros tão importantes exegetas já se houvessem colocado nessa mesma posição um dia) e pensei em Brecht: “O ponto de vista estético não é adequado para as obras que estão sendo escritas hoje, mesmo se conduz a julgamentos favoráveis. Pode se verificar isso em qualquer movimento em favor dos novos dramaturgos. Mesmo quando o instinto dos críticos os orientou corretamente, seu vocabulário estético deu-lhes muito poucos argumentos para sua atitude favorável e nenhum meio adequado de informar o público. Além disso, o teatro, enquanto encorajava a produção de novas peças tão forneceu nenhum guia prático. Assim, no fim das contas, as novas peças apenas serviram ao velho teatro e ajudaram a adiar o colapso do qual depende o seu próprio futuro”.

UM PENSAMENTO SOCIOLÓGICO

Lembrei ainda as continuações destas palavras de 1927, tentando fazer com que não atrapalhassem minhas disposições de glória:

“É impossível entender o que está sendo escrito hoje, ignorando-se a ativa hostilidade da geração presente a tudo o que a precedeu e participando-se da crença generalizada de que essa hostilidade é um clamor sem importância que deve ser desprezado. Esta geração não quer simplesmente capturar o teatro com suas plateias e o resto, para apresentar boas peças contemporâneas na mesma sala de espetáculo e para o mesmo público; nem tem ela nenhuma possibilidade disso. Mas tem a possibilidade e o dever de capturar o teatro para um público diferente. As obras que estão sendo agora escritas estão, cada vez mais, conduzindo ao grande teatro épico que corresponde à situação sociológica; nem o seu conteúdo nem a sua forma podem ser entendidos senão pela minoria que compreendeu isso. Não vão satisfazer a velha estética; vão destruí-la”.

É o caos, e com ele o fechamento das milhares de fontes básicas, a subversão do pensamento, a deterioração do compreensivo e do racional, o despencar da Arte (e não é ela eterna?), da Harmonia (e não é ela fundamental?), da Beleza (e não é ela intrínseca à criação artística?) e dos conceitos teatrais básicos. Se a sociologia é permitida (e científica) e se a arte deve ser entendida sociologicamente, então tudo é permitido. E não adianta pensar, como sempre se pensou, que não vamos entender o que está acontecendo; e não adianta ir às fontes, que elas servem licores preciosos a quem sofre de cirrose; e não adianta olhar com os olhos do Perene o que é novo e perecível, o que elimina o passado para eliminar-se em breve. Instituída a Sociologia nas relações artísticas, não sobra pedra sobre pedra. É no caos que se vai buscar a luz.

A OFICINA DA DESTRUIÇÃO

O palco do João Caetano estremece, enquanto as poltronas rugem. Não são poucos os que se lançam à comparação: “Galileu era melhor!”, “Você lembra dela no Galileu?”; ou os que vociferam: “Isto Brecht nunca fez, “Os atores não sabem falar, eu não disse que os jovens atores não sabem falar?

Sobre os tablados de madeira, os intérpretes atiram cadeiras contra as paredes do cenário, queimam papel, jogam areia nas próprias caras, sujam-se de peixes e fazem gestos indecorosos sem reparar que a Direita Baixa está cobrindo a Direita Alta, ou que as peças do cenário ocultam a máscara de cada um. A plateia repara nos gestos e na sujeira, sente o cheiro do incenso mas se esforça violentamente para entender, para encontrar símbolos, para ver sequer um esboço daquele Brecht que os críticos ou repórteres costumam descrever.

Mas o jovem Brecht encontrou-se violentamente com o maduro José Celso no jovem Brasil. E o jovem Brecht escreveu a sua peça há 47 anos, quando os fluidos anárquicos rondavam sua cabeça à busca da luta de classes, antes de compreender o que viria a traduzir em suas teorias como o teatro épico e (posteriormente) dialético. Escreveu-a quando ainda não existiam as condições sociais específicas imprescindíveis ao desenvolvimento do teatro épico (apesar de, somente um ano antes, Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht terem liderado a revolta espartaquista). O Maduro José Celso vem há cinco anos preparando-se para a empreitada: montar Na selva das cidades. Mas vivia um processo, o de ter-se formado na compreensão dos valores fundamentais do Teatro, o de ter criado e elevado um grupo de jovens com as melhores montagens de Odetts, Gorki, Fischer e de, após conquistar todos os corações (da burguesia paulistana, à procura de um substituto para o moribundo TBC, aos estudantes da classe média sedentos de alguma coisa indefinível para eles) ter entendido não valer nada o que tinha feito até então.

OS DENTES CERRADOS

O encontro foi de dentes cerrados, de voz na garganta. O maduro Oficina e o jovem Brecht tinham algumas coisas em comum. Para os que gostam de enumerações: 1. Um país conturbado e ainda desorganizado (caos); 2. Um método de pensamento dominante e perfeitamente incapaz de conduzir às soluções exigidas pelo mundo; 3. Um patrimônio cultural perfeitamente imbecil (insatisfatório se preferirem); 4 Ausência de condições para propor alguma coisa em substituição.

Estes pontos determinaram uma explosão: se não há o que pôr, basta-nos tirar, destruir para que alguma coisa possa surgir no lugar, fruto da própria destruição do pensamento das relações, dos hábitos e do comportamento atuais.

Se o público está acostumado a uma forma de Interpretação, a uma impostação do espetáculo, aos conceitos perenes, não há que modificá-los ou tentar torná-los mais atraentes — costurando mais uma vez a vela da jangada para mantê-la em uso — há que destruí-los, fazer com que se tornem cinzas, acabar com a hipnose de espectadores — “intelectuais” ou não — e deixá-los ao léu, impotentes, sem nada que lhes sirva de ponto de referência, exigindo que pensem novamente, que adquiram as verdades que estão no cotidiano, na vida por trás das tradições, da moral, do espiritual.

E é com os dentes cerrados que isto se dá: José Celso, Fernando Peixoto, Othon Bastos, Renato Borghi, Fábio São Tiago, Samuca, Ítala Nandi, Margot Baird, Renato Dobal e quantos hajam sido esquecidos (Luiz Fernando, lá na produção e Lina Bo Bardi na programação visual) nos propõem um novo sentimento inerente ao novo teatro, como à vida que começamos a viver: o ódio.

Antes era o Amor, esta “força avassaladora que a tudo redime e que traz a compreensão e o perdão”. Agora, o presente espetáculo é como a semente que Luiz Carlos Maciel já começara a lançar (e eu não soube ver) e deposita o ódio como a força do nosso tempo.

E os dentes cerrados do ódio não vão para o palco simbolicamente, vão todos, de inteiro. Eles não fingem o ódio do texto, nem precisam imprimir-lhe um tom de estranheza, que ele já é bastante estranho ao público. Os atores, como o encenador e o próprio autor, lançam-se decididamente a falar uma língua inusual para o público (apesar de que as palavras são exatamente as dos dicionários e os gestos os mesmos que qualquer Nelson Rodrigues poderia usar). E não se esforçam para isto: eles falam realmente uma linguagem diferente daquela do seu público. E nos fica bastante claro que o teatro que se faz hoje no Brasil já não serve. É preciso destruí-lo e consequentemente destruir o seu público.

O Oficina está nesta tarefa. Impossibilitado, pelas condições conjunturais, de realizar um teatro científico, de subsistir como profissional fazendo um teatro frontalmente oposto (em termos de a quem dirigir-se) ao existente, lança-se a tarefa de miná-lo, de semear a tempestade do pensamento desenfreado.

E os caminhos do ódio, no teatro como na vida, não se permitem a paralelos. Não serão os psicanalistas que poderão explicá-los, pois se colocam fora do recuperável, do conciliável. É um sentimento sociológico (ah! como isto pode inspirar um admirável artigo de N.R., o poeta das frases feitas) posto no campo das relações impessoais. Há que odiar, para destruir o inimigo e não deixar um resto, um pó, uma pitada de suas ideias, de seus hábitos, de seus conceitos

O SUBSTITUTIVO PARA A MORTE

Mas o público se recupera do primeiro golpe e procura assimilar no nível da superfície, como fez com o Rei da vela e Roda viva, fatores profundamente estranhos ao momento da estreia. E José Celso sabe disto. A guerra que tem que mover é incansável. E terminará por levá-lo ao novo encontro, aquele capaz de propor aos indivíduos restantes da destruição do teatro o novo pensamento, criador e liberto, construtor de gigantes.

Mas os meios são difíceis: em primeiro lugar há que aprender a destruir. Por vezes, o próprio veículo, o ator, pode ser um obstáculo à destruição (como o cenário, a música etc.). Ele foi formado nos moldes do que é preciso destruir então é preciso que se decomponha pessoalmente, descobrindo o que é preciso ficar e o que é preciso expurgar. Do que fica é necessário discernir como torná-lo positivo, como tornar potenciais em forças efetivas. É preciso não conformar-se, nem aceitar simplesmente, duvidar como método e questionar até o último momento a validade de um gesto, de uma palavra, de uma entonação, de uma postura. Elas nos foram legadas e ainda estamos nos primeiros passos.

Então os nossos jovens atores falam mal (não é verdade? não é difícil entendê-los? não é pouco claro o som que projetam? não somos obrigados a nos esforçarmos para entendê-los, ficando desconfortavelmente expostos ao sacrifício de aguçarmos os ouvidos?). Pois, os nossos atores falam maravilhosamente mal. Eles e seus dentes cerrados, suas vozes na gargantas, seus gestos aparentemente mal estudados, corpos largados e posições nada estéticas nos forçam a querer entendê-los. E, aí, o maior problema. Eles não falam nada que o nosso raciocínio bem-comportado posso entender. É preciso abrir o peito à destruição e gritar com eles e lançar manuais e os repositórios da moral à estante mais segura, para só abri-los quando pudermos encará-los criticamente.

Então, descobrimos que os nossos jovens atores estão nos ensinando a representar, pois o que usam é a voz, os braços, o corpo, as roupas e a nudez para atingir exatamente o que atingem — um espetáculo novo, incendiário e destruidor, capaz de impedir que durmamos à sombra da perene estética, da perene técnica teatral, das perenes regras da comunicabilidade. Não há, neste momento, para este público, nestas condições de sub-existência, o que comunicar. Há o que destruir e o que inquietar.

Talvez aí a justificativa do final romântico que José Celso deu à peça, substituindo uma rubrica de Brecht: Garga queima o dinheiro e se vai livre, enquanto BB fazia com que ele guardasse bem guardados os seus dólares. A inquietação mais uma vez substitui a consciência de que, mesmo vencedor, o contendor permanecerá no sistema.


[i] Publicado no Caderno de Domingo do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 02 de novembro de 1969, como análise crítica do espetáculo Na selva das cidades, de Bertolt Brecht, montado pelo Teatro Oficina sob a direção de José Celso Martinez Corrêa.