20 de novembro de 1969 Caminhada para a fuga

Luiz Alberto Sanz

À meia-noite em ponto, o ônibus deixou a Rodoviária Novo Rio rumo a São Paulo. Dez horas depois, eu me tornaria oficialmente um fugitivo. Era a madrugada do dia 20/11/1969. Eu tinha passado o dia anterior nas tratativas da fuga.

Acordei cedo e fui encontrar “Rex”, meu assistente na VAR-Palmares, em um botequim de Ipanema. Penso, agora, no fato curioso de que, tendo morado e passado uma parte considerável de minha juventude na boemia local, jamais pisara ali. Sentei-me, pedi média com pão e manteiga e pus-me à espera. Na minha frente surgiu Zé Wilker, um quase irmão com quem morei em três apartamentos: o da minha mãe, um alugado por Cesarion Praxedes (ambos na Senador Vergueiro) e outro na Prudente de Moraes, que os três compartilhamos com Antonio Roosevelt Chrysóstomo de Oliveira (meu parente por afeição, já que era primo de meu cunhado e padrinho Sebastião de Oliveira e um notável jornalista). Reflito: os quatro nos destacamos profissional e pessoalmente, mas também tivemos vidas atormentadas.

Fiquei inquieto: meu encontro com Rex era clandestino. Não convinha que Wilker o conhecesse. Pode ser que tenham vindo a se conhecer no futuro, pois Rex (não revelo o nome, pois não lhe pedi autorização) teve papel importante em cargo da confiança de Fernando Henrique presidente. Mas não deveria acontecer ali. Por outro lado, era provavelmente minha despedida de Wilker, meu irmão de sonhos revolucionários, empreendimentos malsucedidos e rebeliões. Eu não contava sair vivo da empreitada em que estava mergulhando. E se saísse, quem seríamos no futuro? Conversamos um pouco e deixei o Zé saber que eu tinha um “ponto” e não podia me alongar.

Depois que saiu, Rex se aproximou. Contei-lhe que o feroz Delegado Agra chefe do DOPS do antigo Estado do Rio queria me ver e que dias antes minha mãe recebera um telefonema do Cosme Alves Neto (Conservador da Cinemateca do MAM), que precisava falar comigo. Tinha um recado. O “Conservador”, grande amigo e companheiro contou que Roberto Amaral, editor-chefe da Editora da FGV, onde eu trabalhara, fora procurado pelos “verdes”, que queriam saber de mim.

O quadro se completava. Fausto Fleury (fotógrafo e estudante de Cinema da UFF que viria a se tornar Chefe da Cineteca da Universidade do Chile no seu exílio em Santiago), com quem eu compartilhava um quarto e sala na Senador Vergueiro, já estava em São Paulo, para onde seguira quando recebemos informações sobre a queda do “aparelho” alugado pela VAR em seu nome para abrigar “Sergio” (Francisco Celso Calmon) e outros companheiros, que o abandonaram sem destruir ou levar documentos comprometedores. Pouco depois, Calmon, sua companheira e mais uma militante foram detidos e os militares foram ao meu último endereço conhecido, no qual eu recebera Calmon, ferido, e onde as moças o iam visitar.

Combinamos, Rex e Eu, que não voltaríamos a nos ver (só aconteceu na Oban, em São Paulo, em fins de maio, começo de junho, de 1970. Marcamos um ponto dele com Maria Odila Rangel, minha companheira, para pô-lo a par dos acontecimentos e para que me desse formas de recontatar a organização.

Saí dali, fui à UFF, onde o chefe do gabinete do Reitor Manuel Barreto Neto, José Carlos de Almeida, me pediu para ir falar com o subchefe Vinícius Gomes, que ele estava recebendo visitantes. Eles eram meus chefes diretos, já que eu tinha sido nomeado recentemente Diretor da Imprensa Universitária, para implantar o órgão. Vinícius me recebeu, ansioso e afável. Foi direto: “O delegado Agra quer falar contigo. Pediu para você ir lá no DOPS. Vai e fala sinceramente com ele, ele já sabe que você é da confiança do Reitor e nossa. Parece que tem alguma coisa a ver com o Fausto”. Fausto era bolsista no Setor de Arte Cinematográfica, então Vinícius o conhecia.

Fui para a minha sala, retirei qualquer coisa que pudesse ser considerada comprometedora. Avisei à Odila (que era estagiária no Ateliê de Criação da Imprensa) e lhe disse para ir para a casa de sua mãe, onde pernoitava.

Aproveitei o resto da manhã para ir ao DOPS. Agra, não sei se acreditou em mim ou não quis ficar mal com seus e meus amigos da Reitoria. Recentemente, o gabinete do Reitor havia me defendido quando o órgão de informação do MEC pediu explicações por eu ter sido nomeado Diretor da IU, ressaltando eu ser fichado por minha atuação, sobretudo, junto à UNE, em 63/64/65 e 66. Então, me disse para ir para casa, preparar uma valise e voltar no dia seguinte às 10 horas, pois aquele 19 de novembro era um quarta-feira, então não adiantava nada ele me levar antes de quinta-feira à 2ª Seção da 1ª Região Militar (que viria a transformar-se no DOI-Codi).

Voltei à Reitoria. Pedi ao Érico Silveira, outro estagiário da IU, para encaminhar meus exemplares de “Positif” e “Cahiers de Cinéma” para a Biblioteca montada pela diretora do Iacs, Hagar Espanha Gomes, intelectual e personalidade por quem tenho, até hoje, afeto e admiração. Fiz um outro pacote com materiais mais “perigosos”, cujo conteúdo escapa na minha memória. Carreguei-o comigo. Procurei o dirigente estudantil José da Silva, com quem compartilhara lides intelectuais e boêmias antes que ambos viéssemos para a UFF, em quem podia confiar, e lhe pedi que me seguisse na longa caminhada que faria até o MAM. Saí da Reitoria, a pé, e fui até a Rua Presidente Domiciano 102, onde ficava o Instituto Mario de Andrade, curso pré-vestibular criado pelo saudoso militante anarquista Robson Achiamé, que assumiu a responsabilidade por guardar aqueles documentos e, se eu sobrevivesse, devolvê-los a mim quando fosse possível. O que aconteceu em 1980, quando nos reencontramos. Nos despedimos com carinho. Ele mandou um beijo afetuoso para Odila.

Dali, caminhei até às Barcas, atravessei a baía e continuei a pé até o MAM. Onde esperei o Zé da Silva que vinha alguns metros atrás e confirmou que eu não fora seguido. Emocionados nos despedimos. Só o reencontrei, por acaso, mais de dez anos depois, na entrada do Fórum do Rio. Ele, advogado bem-sucedido. Eu, um desempregado tentando me divorciar da primeira mulher, para viver em paz com Odila. Foi a última vez que nos vimos.

Do museu fui à oficina de serigrafia do Raul, um artista plástico forjado nos primeiros anos da UnB, a quem pedi que levasse um recado para a mãe dos meus filhos já nascidos e que fora uma militante comunista muito engajada: Ela seria convocada no próximo dia pelo Serviço Secreto do Exército e que, em seu depoimento, evitasse dizer coisas por rancor que pudessem prejudicar a Odila, cuja militância era nenhuma naquele então.

Despedi-me de Raul, mais tarde, de minha família, arrumei algumas roupas em uma valise. Fui encontrar Odila no ateliê de Domenico Lazzarini, grande mestre pintor, professor de minha amada companheira e meu amigo, Odila pernoitaria ali. Lazzarini me levaria à Rodoviária, com a cobertura de meu amigo e primo por afinidade, Pedro Moraes, companheiro de minha prima Vera Valdez e pai de Mariana de Moraes, recém-nascida, a quem apelidei de Sofará (homenagem ao personagem de Joanna Fomm em “Macunaíma”. Pedro deveria certificar-se, do mezanino da Rodoviária, que eu havia embarcado sem problemas.

Com Pedro me reencontrei algumas vezes depois de voltar ao Brasil, ainda tenho notícias por suas filhas Mariana e Julia. Lazzarini não vi mais. Puta saudade. No final dos anos 80, em uma vernissage de meu primo Luiz Gonzaga de Mello Gomes, na galeria Bonino, fiquei sabendo por Caio Mourão que ele morrera.

Cheguei a São Paulo pelas seis, sete da manhã, na velha Rodoviária. Fui para a casa de Duddu Barreto Leite, minha irmã, prima, amada, companheira de tantas histórias de vida. Ficaria com ela pouco tempo, só até Odila chegar. Fausto já estava lá. Sairíamos os três para o apartamento de outra personalidade notável, também atriz, produtora, amiga, companheira: Moema Brum, gaúcha de faca na bota. Começava um novo capítulo em nossas vidas, o da Clandestinidade.

Precisei lembrar aquele dia 20 de novembro. Está encravado em mim. Como estão entranhados os personagens que o habitam. E que tornou-se também a data convencional da nossa União, da Odila comigo e de mim com a Odila e que não se encerrou, sequer com sua morte em 07 de abril de 2009.

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