(estado espanhol) Jornal da CNT em PDF com um amplo dossier sobre o Covid-19

Importante dossiê sobre a situação político-sanitária no Estado Espanhol.

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Neste número (baixar aqui)

  • PRIMERA PLANA: Reflexiones en torno al Covid-19
    • Covid-19: De crisis sanitaria a crisis social
    • Haz el amor y no la guerra
    • Sí es lo que parece
    • Palabras padentro: Y aprendimos las palabras
    • Ante la represión del Covid-19 dentro de los Centros Penitenciarios
  • EDITORIAL
    • La eterna lucha del proletariado
  • SINDICAL
    • Huelga indefinida de CNT en Productos Florida
    • La belleza de un jueves de lucha en las calles
    • Jerez inicia el año marcado por los conflictos sindicales
    • Formanortex no cumple el convenio ni paga las horas extras por sistema
    • Zona Lumbar: El vertedero
  • DOSIER: Lucha de clases
    • Feminismo de clase ¿pasado o presente?
    • El cuarto oscuro: Clases de lucha
    • La ciudad contra la clase
    • La lucha de clases continua: una visión económica del conflicto
    • Lucha de clases y Anarquismo
    • Funámbulos: ¿Pero tú de qué vives?
  • NOSOTRAS
    • Trillar la parva del patriarcado
    • La trinchera coeducativa
    • De…

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20 de novembro de 1969 Caminhada para a fuga

Luiz Alberto Sanz

À meia-noite em ponto, o ônibus deixou a Rodoviária Novo Rio rumo a São Paulo. Dez horas depois, eu me tornaria oficialmente um fugitivo. Era a madrugada do dia 20/11/1969. Eu tinha passado o dia anterior nas tratativas da fuga.

Acordei cedo e fui encontrar “Rex”, meu assistente na VAR-Palmares, em um botequim de Ipanema. Penso, agora, no fato curioso de que, tendo morado e passado uma parte considerável de minha juventude na boemia local, jamais pisara ali. Sentei-me, pedi média com pão e manteiga e pus-me à espera. Na minha frente surgiu Zé Wilker, um quase irmão com quem morei em três apartamentos: o da minha mãe, um alugado por Cesarion Praxedes (ambos na Senador Vergueiro) e outro na Prudente de Moraes, que os três compartilhamos com Antonio Roosevelt Chrysóstomo de Oliveira (meu parente por afeição, já que era primo de meu cunhado e padrinho Sebastião de Oliveira e um notável jornalista). Reflito: os quatro nos destacamos profissional e pessoalmente, mas também tivemos vidas atormentadas.

Fiquei inquieto: meu encontro com Rex era clandestino. Não convinha que Wilker o conhecesse. Pode ser que tenham vindo a se conhecer no futuro, pois Rex (não revelo o nome, pois não lhe pedi autorização) teve papel importante em cargo da confiança de Fernando Henrique presidente. Mas não deveria acontecer ali. Por outro lado, era provavelmente minha despedida de Wilker, meu irmão de sonhos revolucionários, empreendimentos malsucedidos e rebeliões. Eu não contava sair vivo da empreitada em que estava mergulhando. E se saísse, quem seríamos no futuro? Conversamos um pouco e deixei o Zé saber que eu tinha um “ponto” e não podia me alongar.

Depois que saiu, Rex se aproximou. Contei-lhe que o feroz Delegado Agra chefe do DOPS do antigo Estado do Rio queria me ver e que dias antes minha mãe recebera um telefonema do Cosme Alves Neto (Conservador da Cinemateca do MAM), que precisava falar comigo. Tinha um recado. O “Conservador”, grande amigo e companheiro contou que Roberto Amaral, editor-chefe da Editora da FGV, onde eu trabalhara, fora procurado pelos “verdes”, que queriam saber de mim.

O quadro se completava. Fausto Fleury (fotógrafo e estudante de Cinema da UFF que viria a se tornar Chefe da Cineteca da Universidade do Chile no seu exílio em Santiago), com quem eu compartilhava um quarto e sala na Senador Vergueiro, já estava em São Paulo, para onde seguira quando recebemos informações sobre a queda do “aparelho” alugado pela VAR em seu nome para abrigar “Sergio” (Francisco Celso Calmon) e outros companheiros, que o abandonaram sem destruir ou levar documentos comprometedores. Pouco depois, Calmon, sua companheira e mais uma militante foram detidos e os militares foram ao meu último endereço conhecido, no qual eu recebera Calmon, ferido, e onde as moças o iam visitar.

Combinamos, Rex e Eu, que não voltaríamos a nos ver (só aconteceu na Oban, em São Paulo, em fins de maio, começo de junho, de 1970. Marcamos um ponto dele com Maria Odila Rangel, minha companheira, para pô-lo a par dos acontecimentos e para que me desse formas de recontatar a organização.

Saí dali, fui à UFF, onde o chefe do gabinete do Reitor Manuel Barreto Neto, José Carlos de Almeida, me pediu para ir falar com o subchefe Vinícius Gomes, que ele estava recebendo visitantes. Eles eram meus chefes diretos, já que eu tinha sido nomeado recentemente Diretor da Imprensa Universitária, para implantar o órgão. Vinícius me recebeu, ansioso e afável. Foi direto: “O delegado Agra quer falar contigo. Pediu para você ir lá no DOPS. Vai e fala sinceramente com ele, ele já sabe que você é da confiança do Reitor e nossa. Parece que tem alguma coisa a ver com o Fausto”. Fausto era bolsista no Setor de Arte Cinematográfica, então Vinícius o conhecia.

Fui para a minha sala, retirei qualquer coisa que pudesse ser considerada comprometedora. Avisei à Odila (que era estagiária no Ateliê de Criação da Imprensa) e lhe disse para ir para a casa de sua mãe, onde pernoitava.

Aproveitei o resto da manhã para ir ao DOPS. Agra, não sei se acreditou em mim ou não quis ficar mal com seus e meus amigos da Reitoria. Recentemente, o gabinete do Reitor havia me defendido quando o órgão de informação do MEC pediu explicações por eu ter sido nomeado Diretor da IU, ressaltando eu ser fichado por minha atuação, sobretudo, junto à UNE, em 63/64/65 e 66. Então, me disse para ir para casa, preparar uma valise e voltar no dia seguinte às 10 horas, pois aquele 19 de novembro era um quarta-feira, então não adiantava nada ele me levar antes de quinta-feira à 2ª Seção da 1ª Região Militar (que viria a transformar-se no DOI-Codi).

Voltei à Reitoria. Pedi ao Érico Silveira, outro estagiário da IU, para encaminhar meus exemplares de “Positif” e “Cahiers de Cinéma” para a Biblioteca montada pela diretora do Iacs, Hagar Espanha Gomes, intelectual e personalidade por quem tenho, até hoje, afeto e admiração. Fiz um outro pacote com materiais mais “perigosos”, cujo conteúdo escapa na minha memória. Carreguei-o comigo. Procurei o dirigente estudantil José da Silva, com quem compartilhara lides intelectuais e boêmias antes que ambos viéssemos para a UFF, em quem podia confiar, e lhe pedi que me seguisse na longa caminhada que faria até o MAM. Saí da Reitoria, a pé, e fui até a Rua Presidente Domiciano 102, onde ficava o Instituto Mario de Andrade, curso pré-vestibular criado pelo saudoso militante anarquista Robson Achiamé, que assumiu a responsabilidade por guardar aqueles documentos e, se eu sobrevivesse, devolvê-los a mim quando fosse possível. O que aconteceu em 1980, quando nos reencontramos. Nos despedimos com carinho. Ele mandou um beijo afetuoso para Odila.

Dali, caminhei até às Barcas, atravessei a baía e continuei a pé até o MAM. Onde esperei o Zé da Silva que vinha alguns metros atrás e confirmou que eu não fora seguido. Emocionados nos despedimos. Só o reencontrei, por acaso, mais de dez anos depois, na entrada do Fórum do Rio. Ele, advogado bem-sucedido. Eu, um desempregado tentando me divorciar da primeira mulher, para viver em paz com Odila. Foi a última vez que nos vimos.

Do museu fui à oficina de serigrafia do Raul, um artista plástico forjado nos primeiros anos da UnB, a quem pedi que levasse um recado para a mãe dos meus filhos já nascidos e que fora uma militante comunista muito engajada: Ela seria convocada no próximo dia pelo Serviço Secreto do Exército e que, em seu depoimento, evitasse dizer coisas por rancor que pudessem prejudicar a Odila, cuja militância era nenhuma naquele então.

Despedi-me de Raul, mais tarde, de minha família, arrumei algumas roupas em uma valise. Fui encontrar Odila no ateliê de Domenico Lazzarini, grande mestre pintor, professor de minha amada companheira e meu amigo, Odila pernoitaria ali. Lazzarini me levaria à Rodoviária, com a cobertura de meu amigo e primo por afinidade, Pedro Moraes, companheiro de minha prima Vera Valdez e pai de Mariana de Moraes, recém-nascida, a quem apelidei de Sofará (homenagem ao personagem de Joanna Fomm em “Macunaíma”. Pedro deveria certificar-se, do mezanino da Rodoviária, que eu havia embarcado sem problemas.

Com Pedro me reencontrei algumas vezes depois de voltar ao Brasil, ainda tenho notícias por suas filhas Mariana e Julia. Lazzarini não vi mais. Puta saudade. No final dos anos 80, em uma vernissage de meu primo Luiz Gonzaga de Mello Gomes, na galeria Bonino, fiquei sabendo por Caio Mourão que ele morrera.

Cheguei a São Paulo pelas seis, sete da manhã, na velha Rodoviária. Fui para a casa de Duddu Barreto Leite, minha irmã, prima, amada, companheira de tantas histórias de vida. Ficaria com ela pouco tempo, só até Odila chegar. Fausto já estava lá. Sairíamos os três para o apartamento de outra personalidade notável, também atriz, produtora, amiga, companheira: Moema Brum, gaúcha de faca na bota. Começava um novo capítulo em nossas vidas, o da Clandestinidade.

Precisei lembrar aquele dia 20 de novembro. Está encravado em mim. Como estão entranhados os personagens que o habitam. E que tornou-se também a data convencional da nossa União, da Odila comigo e de mim com a Odila e que não se encerrou, sequer com sua morte em 07 de abril de 2009.

Balanço amargo e otimista em 1969

Luiz Alberto Sanz

Há quase exatamente 50 anos, pouco antes de ir para a clandestinidade, em 19 de novembro de 1969, mas já consciente de que o cerco se apertava sobre mim, escrevi um ensaio crítico sobre a situação do Teatro Brasileiro. Entreguei-o à editoria do caderno cultural que o Jornal do Commercio publicava aos domingos e fui cuidar dos meus afazeres como Diretor da Imprensa Universitária da Universidade Federal Fluminense e pesquisador-colaborador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Era também um dos críticos de cinema do Jornal do Commercio. Em 23 de novembro, quatro dias depois da fuga, com os militares no meu encalço, o artigo saiu publicado.

Volto a editá-lo aqui e agora por duas razões: continuo a achar que toca em questões importantes ainda hoje sobre o caráter do Teatro que se faz no Brasil e considero que oferece subsídios para as novas gerações entenderem o cenário em que a atividade artística se desenvolvia no Brasil. Pouco tempo depois, clandestino e ilegal, refugiado em São Paulo, integrei-me ao Teatro Popular União e Olho Vivo, então ainda sob a identidade do Teatro do Onze, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Ali, nos ensaios de “O Evangelho Segundo Zebedeu”, de Cesar Vieira, encontrei a arte que preconizava no texto “A vez do cavalo perneta perdedor ou Vamos botar para quebrar seu Edgard”. Comecei a ensaiar como assistente de direção e cheguei a aceitar assumir a Direção de Produção, convidado por Idibal Pivetta, Oswaldo Mello e Belisário Santos Jr.. Mas não deu tempo, fui preso no dia seguinte ao convite.

No artigo chamo a atenção para como É irritante como escorrem besteiras por esta cidade (Rio de Janeiro) desde que o espetáculo de José Celso Martinez Correia entrou em cartaz”. O espetáculo era “Na Selva das Cidades”, de Bertolt Brecht, que provocou um grande impacto e marcou os novos rumos do Oficina. Dito isto, vamos botar pra quebrar seu Edgard.

A vez do cavalo perneta perdedor, ou vamos botar pra quebrar, seu Edgard

Luiz Alberto Sanz

Há nove anos, 1960, eu escrevia o meu primeiro artigo sobre teatro, substituindo Luiza Barreto Leite — então em longas férias europeias.

Foi um — o primeiro — de uma série longa de artigos que redundaram na profissionalização, através da assinatura de colunas diárias de crítica a cinema e a teatro. Agora, hoje, escrevo o último de uma nova série — ainda em substituição a Luiza Barreto Leite, também em férias. Aproveito e dou um pulo até o tempo em que comecei. É um quase balanço do teatro e da política que o envolve. Amargo e otimista.

1960, sem dúvida, foi o ano de A mais valia vai acabar, seu Edgar.

Talvez tenha sido mais o seu ano que o de qualquer outro espetáculo ou texto, mesmo que de muito melhor qualidade (que a sua não era muita).

Propunha-se às claras uma linguagem, uma temática e um comportamento político para o teatro brasileiro. Buscava-se uma plástica e mise-en-scène condizentes e coadunadas com este tipo de expressão (não conduzida pelo conteúdo — como pretende um cavalheiro, G. Marques, que escreveu no Pasquim em defesa da estética tradicional, ou do evolucionismo na arte — mas significado único e indissolúvel, síntese). O espetáculo lançava um novo grupo, o Teatro Jovem, que, após um conflito intestino, rachou-se de cima abaixo, interrompendo-se a carreira da peça, que passou a ser conduzida pelo Centro Popular de Cultura, nascido das ambições e anseios não só dos integrantes dissidentes — os que mantinham a decisão de prosseguir nas apresentações do texto de Oduvaldo Vianna Filho, dirigido por Chico de Assis e musicado por Carlinhos Lira — mas como de outros intelectuais.

O próprio Teatro Jovem era filho do Teatro de Arena — quanto a influências — que viera de se instalar no Rio de Janeiro e cedera alguns dos seus talentos maiores para desenvolver o grupo amador: Oduvaldo, então um autor-promessa-talento e Chico, capaz de um belo espetáculo mesmo que perdendo-se na plasticidade. Mas, após o racha, correria para os braços de Van Jafa e dos autores duvidosos (Ionesco, russos contemporâneos-oficiais etc. etc.) deixando ao CPC o rumo do teatro político, mais tarde desaprendido ou abandonado por ele próprio, graças a concepções niveladoras, estalinistas, pequeno-burguesas que desaguaram mui fertilmente no colaboracionismo do Grupo Opinião da vida.

As razões para lembrar isto repousam no que se pode ver à distância de nove anos e muitas pauladas. Se em 1960 a posição mais progressista e mais avançada do TB era a de tentar-se traduzir a Teoria crítica da mais valia aos palcos — coisa permissível pelas próprias autoridades — hoje, ela está na negação da cultura, no despojamento do intelectual da sua característica de categoria social, no seu suicídio como artista (da forma como o termo se fixou). Hoje, aqueles que explodiram no início da década estão perfeitamente de acordo com um “evolucionismo” duvidoso, em que passaremos —- certamente — de maneira metódica e lógica de aprendizado moderado e contínuo à nova cultura. Serão os princípios estéticos da burguesia que gerarão — dizem-nos os iniciadores dos centros de cultura — de maneira linear, lógica e destiladora a cultura nova. Hoje, como oposição à linguagem da destruição — que por si mesma conduz a um impasse — é defendida a colaboração, não em termos honestos de necessidade comercial de sobrevivência, de subexistência, mas em termos de recuo político para acumular forças, de salvaguardar a cultura progressista.

É irritante como escorrem besteiras por esta cidade desde que o espetáculo de José Celso Martinez Correia entrou em cartaz. É praticamente impossível para quase toda a gente lúcida e bem-pensante, de nossas artes e outras bossas, compreender que do mar de destruição que se busca lançar sobre a plateia e — mais do que tudo — sobre o nosso acervo cultural de classe só pode sair alguma coisa de positivo a partir de uma crítica bem fundada de seus resultados — processada por seus participantes mesmos.

Está criado o impasse no Teatro Brasileiro: as pessoas deverão confessar que o comércio está institucionalizado. Que a única coisa importante é subsistir, que só é fundamental comer duas vezes por dia (pelo menos), que só se continua a fazer teatro porque, no fundo, é a única coisa que se sabe fazer. O poder de exorcismo que “fazer teatro” tinha em tempos melhores — devemos ver — foi transformado em frustação. Pisar num palco e representar, hoje, tem o mesmo gosto que aquele sentido pelo professor de natação obrigado a ensinar à velha e gorda esposa do comendador que procura exibir-se na piscina comprada para “prazer e devassidão das suas filhas”. Porque é tudo falso, porque nós sabemos que não tem mais sentido, que a arte que fazemos esta desligada do mundo, talvez mais próxima do “não-objeto” de Ferreira Gullar do que ele próprio possa admitir. Estamos num mundo a exigir coisas e a receber lixo.

E os nossos bem-pensantes evolucionistas defendem que o lixo não deve ser feito lixo, mas, já não podemos comer a polpa da maçã, podemos satisfazer-nos com as cascas deixadas de lado, em vez de lançá-las à lata e anunciar aos quatro ventos que o que todo o mundo está comendo é lixo, que o que todo mundo está fazendo é representar um quadro de burlesco, que nós não temos que ouvir o que nos dizem e que, se continuarmos a apresentar nos palcos dos teatros, para o público que nos assiste, é para dizer-lhe: olha aqui, meu caro senhor, não vamos servir-lhe Lixo disfarçado em risoto, vamos, sim, mostrar-lhe toda a porcaria contida no prato e na bebida que te servimos normalmente ou que o dono do restaurante nos deixa servir. Isto, se acharmos que é preciso ainda fazer alguma coisa mais ou menos honesta com o teatro, em termos de preocupação intelectual. A outra solução é continuar a servir-lhes lixo, mesmo aquele disfarçado em arte, mas com a consciência e a honestidade supremas para confessar: Olha, eu sou um bom torneiro mecânico, operário especializado, que sei desempenhar as minhas funções e não comprometo nisso a minha própria opinião.

De qualquer das duas formas, é preciso saber, estamos aguçando e apressando o impasse: traçamos o nosso suicídio como gente de teatro. Para a primeira solução, em breve tempo, atingiremos a compreensão de que ou passamos à segunda ou então vamos ser copeiros e caixas. Porque já estamos sendo assimilados às custas de não adicionarmos nada de novo e, portanto, não aproveitarmos as condições que nós mesmos ajudamos a preparar. Na segunda solução, tornar-se-á patente que, por mais eficazes e técnicos que consigamos ser, em pouco tempo estaremos impossibilitados de servir à nova exigência. Afinal a sociedade de consumo se consome.

Botando para quebrar, ou botando para colar, de qualquer forma marchamos para o suicídio, seu Edgard. Tudo que fizemos ou estamos fazendo não tem mais sentido para o momento em que estamos vivendo. O Teatro Brasileiro, ultrapolitizado há nove anos, hoje contempla sua própria morte e lamenta-a.

No fundo, eu acho que estou tocando a trombeta. Nada é mais chato e lamentável do que ver um cavalo perneta tentando correr sem nenhum outro concorrente que não a própria realidade. Ele nunca poderá ganhar, nem mesmo correndo sozinho E isso é ótimo. Os frustrados profissionais que me perdoem.

Jornal do Commercio (RJ), p05, Caderno de Domingo, 23 de novembro de 1969

Rio de Janeiro (RJ) 26/04 e 27/04/19 evento importante para toda a classe trabalhadora

Uma discussão extremamente importante. Reblogo aqui.

Avatar de organizacaopopularOrganização Popular

Autonomia e Organização: Diálogos com a Confederação Nacional do Trabalho (CIT) – Espanha, afiliada da Confederação Internacional do Trabalho (CIT).

Local: SINDIPETRO-RJ, Avenida Passos, 34, Centro, Rio de Janeiro, RJ.

Realização: Núcleo pró-ATB Rio, Organização Popular (OP) – Rede Autônoma de Luta Pela Educação (RALE) e Grupo Autônomo SINDSCOPE.

Apoio: Movimento das Comunidades Populares (MCP), Centro de Mídia Independente (CMI-Rio), Movimento Passe Livre (MPL-Niterói), Biblioteca Engenho do Mato (BEM), Quilombo Cafundá-Astrogilda, TransFormiga, Us Neguin Q Ñ C Kala, Caboata Bazar, Candeias Artesanato e Coletivo Roça.

Contato: organizacaopopular@riseup.net, atb-geral@riseup.net

26/04: Sexta Feira

18:30h Abertura

Pascual Gonzalez: Diálogos com convidado da CNT afiliada da CIT – CNT-Villaverde.

Raquel Simas e Katia Motta: Sindicalismo e Gênero – Grupo Autônomo SINDSCOPE.

André Leonardo: Movimento Popular e Favela – OP e TransFormiga.

João Neto: Mediação Núcleo pró-ATB Rio.

27/04: Sábado

8:30h Mesa

Igor e Anthony Devalle: Sindicato e Movimentos Populares – OP.

Júlio…

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Anarquistas contra o nazismo

Uma leitura muito esclarecedora para a minha ignorância sobre a resistência anarquista na Alemanha Nazista. Recomendo.

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A história da resistência anarquista alemã não é bem conhecida. Por isso tentarei fornecer sistematicamente uma orientação mínima dentro de um tema tão pouco estudado. Para começar, é necessário dizer algumas palavras sobre a história do movimento Anarquista na Alemanha. Max Nettlau (historiador e militante anarquista) identificou suas origens no “Círculo dos livres de Berlin”, que se formou em torno de 1848, onde também faziam parte Max Stirner, os irmãos Bauer entre outros. Na segunda metade do século XIX, gradualmente, toma forma um movimento anarquista que tem a ver com o partido socialdemocrata mais forte da Europa, o SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands).

O pequeno movimento anarquista alemão experimenta um ‘boom’ promissor, mas de curta duração nos anos posteriores a I Guerra Mundial, em muito devido ao antimilitarismo presente na população, exausta pelo conflito e suas pesadas consequências sociais.

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Bom Retiro, meu amor II

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Luka Krsux, Ana Elisa Moro, Flávia Sztutman, Juma Tanaka, Angelita Alves e Leandro Soussa em plena Feira Fashion. No canto direito, o codiretor Rogerio Tarifa.

A nova comunidade tem como finalidade a própria comunidade. Isto, porém, é a interação viva de homens íntegros e de boa têmpera na qual dar é tão abençoado como tomar, uma vez que ambos são um mesmo movimento, visto ora da perspectiva daquele que move, ora daquele que é movido. (Martin Buber)

Onde dar é tão abençoado como tomar

Luiz Alberto Sanz

Fotos: Graciela Rodriguez

Nos meus encontros com o Teatro Popular União e Olho Vivo, ao longo de décadas, foi crescendo um sentimento, uma sensação, de que em seu seio e no de outros grupos que receberam sua influência, como Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta FavelA e Brava Companhia, está em processo uma transformação definida pelo filósofo Martin Buber há muito tempo: o surgimento da Nova Comunidade.

E a nova comunidade tem como finalidade a Vida. Não esta vida ou aquela, vidas delimitadas, em última análise, por delimitações injustificáveis, mas a vida que liberta de limites e conceitos, pois conceitos são curiosas andas para pessoas cujos pés não suportam a terra por ser demasiado áspera e selvagem; entretanto, aquele que conseguiu situar-se na própria vida, aquele que aprendeu a falar a linguagem da ação, festejará sorridente sua libertação da rigidez escravizante do pensamento, e após longo afastamento, a reunificação de suas forças na unidade da vida. Na verdade, há também em homens individuais comunidade e harmonia de contradições que existem lado a lado. (Buber, M., Sobre Comunidade. São Paulo: Perspectiva, p.31 e 32)

Bom Retiro, meu amor, no processo de pesquisa e criação, nos ensaios, nos bastidores, na encenação, nas confraternizações pós-espetáculos e até nas redes sociais, habitualmente espelhos de vaidades, respira e transpira esse espírito de diálogo e comunhão tão fundamental no pensamento e na obra de Buber. O espetáculo e o grupo, em simbiose, formam um caleidoscópio no qual convergências e contradições se harmonizam e vivem lado a lado.

Em seu livro fundamental, Eu e Tu, Buber finca as raízes da Filosofia do Diálogo, que vai desenvolver e enriquecer ao longo de sua obra, especialmente, para mim, nos textos incluídos pela editora Perspectiva nos livros Do diálogo e do dialógico e Sobre comunidade.

Para nós, porém, que queremos criar a comunidade e elevar a Vida, comunidade e Vida são uma só coisa. A comunidade que imaginamos é somente uma expressão de transbordante anseio pela Vida em sua totalidade. Toda Vida nasce de comunidades e aspira a comunidades. A comunidade é fim e fonte de Vida. Nossos sentimentos de vida, os que nos mostram o parentesco e a comunidade de toda vida do mundo, não podem ser exercitados totalmente a não ser em comunidade. E, em uma comunidade pura nada podemos criar que não intensifique o poder, o sentido e o valor da Vida. Vida e comunidade são os dois lados de um mesmo ser. E temos o privilégio de tomar e a oferecer a ambos de modo claro: vida por anseio à vida, comunidade por anseio à comunidade. (idem p32)

É nítida a benção que recebemos dos criadores, executores, produtores e apoiadores de Bom Retiro, meu amor, quando nos oferecem vida por anseio à vida, comunidade por anseio à comunidade. Colhem de nós, público, que a eles os oferecemos prazerosamente, os olhares, os gestos, as atitudes de aprovação ou desaprovação, geradas dialogicamente por suas atitudes, olhares, palavras, gestos, timbres, notas musicais, efeitos sonoros e de luz, cores e formas cenográficas, de adereço e vestuário. Essa beleza que os bons espetáculos transmitem. Omnipresente, Cesar Vieira mostra o caminho, regendo as dramaturgias, observando incansavelmente cada detalhe, aconselhando, sugerindo e harmonizando todos os aspectos do espetáculo que é, sem dúvida, a marca da contemporaneidade do TUOV, resistindo e avançando ininterruptamente há 53 anos.

Forma-se uma comunidade multifacetada na qual interagem bastidores, palco e plateia. Por mais efêmera que seja sua duração, os rastros e consequências continuarão em nossas memórias e sentidos, refletindo-se em nossa atitude perante a vida.

Polifonia

É difícil escrever sobre as partes que compõem um espetáculo verdadeiramente bom. Se algo se destaca a ponto de a plateia notar é sinal de fraqueza, rachaduras no casco do navio.

Sobretudo a boa direção não é obviamente identificada pelo público comum. Apenas lá está, seja individual, em parceria ou coletiva. Sem ela, o espetáculo moderno não existiria, não teria a unidade e a harmonia demonstradas em Bom Retiro, meu amor. Mas é essencial que apreciemos não apenas a “unidade diferenciada de alta complexidade” da Teoria das Estranhezas de UED Maluf, citada aqui no artigo anterior. Os isomorfos, ou fragmentos, que interagem para compor essa unidade têm vida própria. Se não fosse assim, teríamos apenas uma amálgama sólida, mas informe, sem atrativo.

Um dos elementos mais notáveis deste espetáculo, que tem por linha narrativa a diversidade trazida pelas migrações que fizeram a particularidade do Bom Retiro, é seu caráter polifônico. Não tomemos a palavra literalmente, reduzindo-a ao sentido musical. Embora ele possa ser o ponto de partida desta análise. A trilha sonora criada por Rogério Guarapiran (também membro da Comissão de Dramaturgia) é polifônica, estrito senso. Não somente combina músicas independentes, como harmoniza vozes e sons diversos simultaneamente.

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Lívia Loureiro canta “Duerme Negrito”, ladeada por Juma Tanaka e Angelita Alves, enquanto Mei Hua Soares desenreda o fio da história das oficinas de suor.

Isto se evidencia, entre outros pontos, em uma das subcenas mais fortes, que pausa e frisa a cena da tragédia de Romeu e Julieta proletários: Lívia Loureiro interpreta de maneira magnífica e pungente, Duerme Negrito, canção de ninar da região fronteiriça entre Colômbia e Venezuela, capturando a atenção do público com sua voz e a clareza das palavras. Iluminação, música, interpretação, cenário e figurino ressaltam o caráter expressionista desta inserção, quebrando o realismo épico para que volte com ainda mais força. Uma quebra dramática que acrescenta uma nota particular à polifonia do espetáculo.

A trilha contextualiza as épocas de migração associando ritmos delas contemporâneos. Há que destacar todos os membros da “banda”, que tocam e trocam de instrumentos e participam do elenco com talento e maestria. Babi Pacini nos oferece suas belíssimas e suaves voz, postura corporal, face e interpretação. Pedro Fraga, nas cordas e na interpretação e Babi trazem a experiência do conjunto Samba do Bule, assim como o coordenador musical Cesinha Pivetta. Este, desde a infância no TUOV. Na percussão, o também ator Oswaldo Acaleo, aportando a consciência e a práxis que construiu na vida de lutas e na longa jornada do Olho Vivo, no qual foi protagonista de João Cândido do Brasil, a Revolta da Chibata e teve papel relevante em A cobra vai fumar. Desta vez, afastado das atividades teatrais, foi assistir a um ensaio e, convidado, voltou ao grupo, reforçando a interação entre os novos e a tradição.

A polifonia se afirma também na diversidade de vozes que contam uma só história em outra das cenas que mais me impactaram. Um dos clímax da peça: as mulheres da vida. No que seria um monólogo em um teatro dramático tradicional, as atrizes contam na primeira pessoa uma só história que é, em si, a de um mosaico de mulheres levadas à prostituição por uma sociedade injusta e exploradora. Não é a das mulheres que escolhem ser profissionais do sexo, mas das proletárias sem alternativas. Diversas vozes, diversos corpos, diversos movimentos se harmonizam, não afloram as possíveis diferenças técnicas e artísticas, não se rompe o mosaico. São diferentes, mas são uma. Parabéns Juma Tanaka, Ana Elisa Moro, Mei Hua Soares, Angelita Alves, Danila Gonçalves e Flávia Sztutman.

O início e o fim

E assim é, desde o começo da encenação, quando os intérpretes fazem um chamado aos espectadores, cantando o hino do TUOV, para que se tornem público; e será até o final, quando deixam à plateia a responsabilidade de ser atores de sua própria história. Restaura-se um arco que nos leva aos momentos finais do espetáculo fundador do grupo: O Evangelho Segundo Zebedeu, no qual os artistas do circo conclamam a rebelião, sem obter resposta. Então, como agora e sempre, cabe ao público refletir e agir. Suas contribuições à polifonia são o silêncio, as palmas e as vozes que debatem em suas mentes.

Chamados os espectadores a seus lugares, elenco e personagens entram em cortejo, conduzidos pelo Rei Momo (Neriney Moreira), da peça do mesmo nome, ponto alto no repertório do grupo, e seus súditos mestre-sala e porta-bandeira Romeu (Leandro Soussa) e Julieta (Juma Tanaka), compondo a comissão de frente que recepcionará os imigrantes e “costurará” a conexão entre cenas diversas, com destaque no féretro de Julieta e Romeu. Papel semelhante desempenham os intérpretes de Julieta (Mei Hua Soares, também integrante da Comissão de Dramaturgia) e Romeu (Dante Kanenas), cujas personas são aedos desta tragédia, assim como o fantoche Saci (manipulado pela Catadora de Lixo/Danila Gonçalves) que, comenta, desconstrói, critica enredo e falas enganosas.

Juma e Leandro desfilam e dançam com grande habilidade e beleza. É difícil ser porta-bandeira e mestre-sala em qualquer lugar, ainda mais em espaço tão estreito quanto o da passarela do TUOV, com público sentado no chão. Além de dançarem belamente, com postura clássica, como é o desejável, cumprem os preceitos básicos de seus personagens: a bandeira em momento algum deve ou pode tocar ou ser tocada, até que o mestre-sala a segure para beijá-la e exibi-la, aberta, para a plateia. E este deve proteger bandeira e porta-bandeira o tempo todo.

Como todos no elenco, Juma e Leandro assumem outros personagens, seja na greve de Perus, no desfile de modas ou na mobilização das “oficinas de suor” onde costureiras e alfaiates subalimentados trabalham até a exaustão. Mas têm a seu cargo escoltar o Momo que ora quer desanimar os imigrantes desmanchando seus sonhos de um futuro maravilhoso, ora busca submetê-los ao seu poder monárquico, para, logo, curvar-se aos argumentos dos recém-chegados e às ponderações do conselheiro mestre-sala e entregar ao povo sua coroa e deixar a História e a história seguirem seu rumo.

A chegada dos imigrantes é um abre-alas tragicômico em que se associam sofrimento, esperança e farsa. A partir daí, o espetáculo prende a atenção e desperta a curiosidade. É preciso olhar para todos os lados, pois cada ângulo nos conta algo diferente. Assisti ao ensaio geral no sábado 15 e aos dois espetáculos de estreia no domingo 16, sentado em diferentes posições na plateia. Em cada um descobri coisas novas e percebi como toda a equipe aperfeiçoou a encenação, confirmando uma máxima da tradição teatral: o espetáculo só está pronto quando acaba. A cada momento, todos nele envolvidos recebem diferentes estímulos e aprimoram, inovam.

O amor é mais forte que o revólver

O clímax da encenação é a sequência de cenas em torno da indústria da moda, composta pela “feira fashion”, as intervenções da “Catadora de Lixo Fashion” e do seu amigo Saci, as “Oficinas de suor”, o “Romance de Romeu e Julieta costureiros” e seu desfecho com a morte dos amantes resumida na canção “O amor é mais forte que o revólver”, até onde sei, criação coletiva, interpretada por Dante Kanenas em expressivos entoação e “gestus” épico. Do desfile de modas participa praticamente todo o elenco, com Flavia Sztutman, Leandro Soussa e Luka Krsux frisando o tom grotesco e Juma Tanaka, Angelita Alves e Ana Elisa Moro harmonizando a sátira com movimentos incisivos, embora afetados.

danila, o saci, mei hua e eu
Danila Gonçalves e o Saci mantêm o público e seus colegas em suspenso. Vejam o olhar de Mei Hua Soares para ela.

Aqui, preciso falar de Danila Gonçalves. Jamais a vira representar, assim como à grande maioria dos demais membros do elenco. Para mim, é uma atriz completa, que se aperfeiçoará na jornada que tem pela frente. É jovem, mas já nos pega pelo nariz e pode dizer: Estão ouvindo o que estou dizendo? Estão vendo o que estou fazendo? A um tal ponto que seus próprios colegas param para observá-la. Há uma foto que incluí nesta matéria em que aparecemos, o público (eu entre outras pessoas), de um lado, e Mei Hua (outra atriz extraordinária), olhos brilhantes, pendentes de sua interpretação. Na subcena que se segue à feira fashion, em alguns movimentos da melhor tradição circense, Danila coloca um fecho estrondoso à derrocada da indústria.

Nesta sequência, o que se destaca é, mais uma vez, a polifonia no sentido amplo, em que direção, figurinos, adereços, música, iluminação e interpretação se harmonizam e impactam, tecendo uma unidade em que horror e beleza não se opõem. Em que o lindo e bravo casal executado por se amar e seu amigo por defender seu direito ao amor, tornam-se símbolos de uma mudança que há de vir, “uma expressão de transbordante anseio pela Vida em sua totalidade”.

As atuações de Mei Hua Soares e Dante Kanenas têm que ser destacadas. Narram enquanto agem, mantêm o ritmo comedido e a emoção contida, embora intensa, forte. Seu distanciamento permite que o impacto emocional se dê na plateia onde é seu lugar, negando-lhe a catarse. Marcaram-me profundamente.

E o final? O final fica por conta de um diálogo-duelo de dois bons intérpretes, o veterano Neriney Moreira e o novato Luka Krsux, com a plateia. A cada sessão deverá crescer dramaturgicamente.

Um espetáculo com tantos matizes de todos os tipos não existiria sem a Direção Geral e a Codireção sábias e apaixonadas a cargo de Cesar Vieira e Rogerio Tarifa e a Coordenação artística, de cenários e figurinos de Graciela Rodriguez, que já vem, a cada montagem do TUOV, refinando cenários e vestimentas. De gerações e formações distantes, interagem confirmando a frase de que tanto gosto, dita em cena por Dante Kanenas: “O tempo não é dinheiro, é o tecido de nossas vidas”. Juntos, tecem uma nova vida, tendo como parceiros alguns dos melhores profissionais hoje em atividade: Luís Mármora no treinamento de atuação, Ester Freitas no treinamento vocal, Marilda Alface na preparação corporal, Gil Teixeira na iluminação, Walter Quaglia na pesquisa, Maria Tereza Urias na Direção de produção, Natasha Karasek na produção e Renê Kostanny na assistência de produção. Particularmente notável é a equipe de Cenografia e Figurino, com Lívia Loureiro, assistente, e os ajudantes Juma Tanaka e Edson Rocha.

Só posso desejar que os leitores usufruam da encenação como eu estou fazendo.

Serviço: O espetáculo entra em temporada hoje, 12 de janeiro de 2019, no Teatro Popular União e Olho Vivo, à rua Newton Prado 766 no Bom Retiro, São Paulo, Capital. Duas sessões, hoje e amanhã às 16:30 e 19:30h. Ingressos serão distribuídos gratuitamente, com uma hora de antecedência.

O Geógrafo Reclus e sua Anarquia pela Educação

Excelente resenha das obras de Réclus. Um chamamento à leitura deste importante pioneiro do pensamento libertário. Especial atenção para Anarquia pela Educação.

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(por: W. B.*)

A Editora Hedra tem uma bela coleção com mais de cem livros de bolso. Entre eles, o interessantíssimo Anarquia pela Educação, com tradução de Plínio Augusto Coelho. Trata-se duma coletânea de escritos do geógrafo anarquista francês Élissée Reclus. Nascido em Sainte-Foj-la-Grande a 15/03/1830 e falecido em Touhout (Bélgica) em 04/07/1905, esse pensador nos deixou valiosos textos, alguns dos quais figuram no livreto do qual nos ocupamos aqui.

Em “A Anarquia” (elaborado em 1894), Reclus nos fala sobre a gênese do Anarquismo, enfocando suas ideias chave. Estas, na verdade, já precediam em muito o movimento político surgido sob esse nome no século 19. Nesse sentido, a anarquia como ideia e como prática social veio antes do Anarquismo. Sociedades sem Estado e sem exploração são mais do que uma possibilidade: são realidade de muitos lugares em diferentes épocas.

O texto “Por que somos anarquistas?” (1886) é…

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Duddu Barreto Leite, matriarca rebelde II

(18/12/1933 em Bissoram, Guiné Bissau
24/04/2017 em Lorena, SP)

Duddu e Vera BL

Duddu, à direita, com Vera, à esquerda.

Diálogos com Duddu

Infância, venturas, desventuras e Luiza, a protetora

Luiz Alberto Sanz

LAS — Agora, vamos falar de Luiza Barreto Leite.

Duddu — A Luiza[1] é, na verdade, a minha segunda mãe. Teve momentos na vida em que foi a primeira. Quando eu vim pro Brasil, vim com um ano e meio, dois, aproximadamente. Mamãe pariu a Vera[2] e foi buscar o homem dela lá na África.

LAS — Na Guiné.

— Na Guiné Bissau que era onde ela tinha largado o homem dela. Só que ela demorou algum tempo pra voltar ou convencê-lo a vir com ela, isso eu não tenho muito claro na minha cabeça porque eu era uma menina de dois anos e pouco. A tia Luiza, na época, era mulher solteira, então eu era uma bonequinha mesmo, então ela e as sacanas das amigas dela me levavam pra praia porque todo mundo olhava praquela criança que era uma bonequinha e eu tinha mania de chamar todos os homens de mamãe, eu olhava pra cara do homem e chamava ele imediatamente de mamãe, isso levantava uma curiosidade e eu passava a ser o show da festa, eu nunca fui pouco exibida né!? Ao contrário, não sou uma pessoa muito recatada né?! E a tia Luiza dava corda na bonequinha dela. Isso fez com que criasse um vínculo de amizade, que quando o papai veio para o Brasil — que a mamãe consegue colocá-lo numa posição que tem emprego, o diabo a quatro — pouca coisa era séria e ele vai parar lá na Amazônia catando borracha.

Bom, muito bem, a Luiza fez da casa dela a minha segunda porta, ou seja, pra mim, minha rota de fuga era a porta da Luiza era lá que eu ia me esconder dos momentos mais absurdos, ou porque eu brincava que eu estava fugindo ou porque eu brincava que ia me suicidar e também nessas coisas todas eu tinha o lado Gonçalina[3], bem dramático, o ridículo foi a tal ponto que eu abria o gás do banheiro, punha a cabeça pra fora da janela, que eu não era besta e ficava gritando: “eu me mato, nessa casa eu não vivo mais”, e a mamãe batendo desesperadamente na porta: “minha filha pelo amor de Deus, sai daí de dentro”.

LAS — Você tinha que idade?

— Sete, oito. Eu ia pra frente do espelho — eu devia ter uns oito ano de idade, já tinha Os Comediantes[4], é fácil saber — eu ia pra frente do espelho e me matava, me matava assim e aí achava que não tinha ficado bom, aí me matava assado, pra encher o saco da minha mãe porque eu ia me matar na frente dela de uma maneira ou de outra, então eu fazia caras e bocas e me suicidava de diversas maneiras sempre cenicamente muito bem colocada, pra isso eu tive os professores que eu tive, que era Ziembinski, que era Labanca, que era Luiza Barreto Leite em primeiro lugar. Bom, então era muito fácil pra mim esse lado dramalhão gonçalinense , porque isso era claramente a Gonçalina. A Gonçalina não conseguia ir à nossa casa sem levar um frango assado e pelo menos meia dúzia de doces, a mamãe explicava pra ela que nós não estávamos passando fome, ela olhava com uma cara de desprezo como quem dissesse: você pensa que eu sou idiota? Voltava na vez seguinte e trazia o diabo do frango e trazia os tais dos doces pras crianças.

Então, Luiza. Vamos lá colocar a Luiza bem colocada nessa minha visão, (frisa) minha visão. Primeiro: Luiza era uma mulher solteira e livre e pra mim já era uma inspiração porque aquele negócio de obedecer ordem nunca fez muito bem a minha cabeça, nunca, nunca, de pequena querer que eu fizesse B era mandar eu fazer A, era batata, se quisesse que eu fizesse A e mandasse eu fazer B, dava certo, mas se quisesse que eu fizesse B não me mandava fazer porque eu não ia fazer. E a Luiza notou isso, a Luiza percebeu isso, então cada vez que eu ia me matar, que eu ia me suicidar ou que eu ia fugir pra todo o sempre e só voltar quando adulta, a Luiza me dava corda, ela me recebia na casa dela, deixava eu me esconder debaixo da cama quando a Maria ia procurar por mim na casa dela, porque a Maria já sabia de cara onde é que a desgraçada da Luiza Helena estava.

Blenblenblenblen!

Bom, eu vou crescendo, minha vida vai se embrulhando, se embrulhando principalmente com a má gestão da mamãe da própria vida. Naquele eterno internamento, pra uma pessoa libertária como eu fui desde menina, ser internada era o cão.

LAS — Então, conta essa história. Você foi internada a primeira vez com que idade?

— Sete anos.

LAS — E foi mandada pra fora do Rio, não foi?

— Não. A primeira vez, eu fico no Rio, fico num colégio batista. Não, antes do colégio batista, colégio, colégio…

LAS — Sacré Coeur de Marie?

— Não, pior que o Sacré Coeur…

LAS — Sion?

— Não, pior! Era o Regina Coeli[5], em que o nível de aprisionamento era tal que tinha um bondinho que só tinha subida. Não tinha dois, era um[6]. Então, pra você descer tinha que ter alguém chamando aqui embaixo. Então, quem subia ficava. Mas era: subiu ficou! Porque só descia chamado de baixo. Então você não podia entrar lá em cima e apertar em baixo e passar lá para baixo, não. As filhas da puta tinham lá o sistema delas qualquer que elas iam lá em baixo e o bondinho ficava lá em cima. Quando mamães, papais, titias, vovós iam visitar. elas chamavam o bondinho lá em baixo, punham titias, mamães, vovós, subiam desciam e punham outra vez o bondinho lá em baixo, então se qualquer uma de nós tentasse fugir nesse ínterim entre mamães, titias, vovós entrar e o bondinho voltar, não dava mais tempo porque o bondinho era chamado enquanto subia, então era o típico da caserna, não tem outra coisa para dizer porque você ia descer aquele morro, com é que você ia descer aquele morro? Tá lá até hoje, o Regina Coeli tá lá até hoje, com seu bondinho pra quem quiser ver, só que hoje tem outra estrutura.

LAS — Qual era o bairro, você lembra?

— Eu lembro, era Tijuca[7] cortado por trás.

LAS — Pelo morro.

— Eu acho que sim, porque na época aquilo não era um bairro habitado, isso que estou falando eu tinha mais ou menos seis ou sete anos.

LAS — Começo dos anos 40.

— Exatamente, começo dos anos 40. Mamãe acha o colégio tão bom, tão bom, tão bom, tão bom que dois anos depois ou um ano depois põe a Vera lá, e por mais que eu falasse, ninguém me levava a sério mesmo, eu era uma rebelde, então a coisa era a seguinte, a gente acordava com a porra de uma campainha (blenblenblenblen), levantávamos da cama (blenblenblenblen), arrumávamos a cama (blenblenblenblen), e ai de você se não fizer a determinação do (blenblenblenblen), aí tadinhas de nós, saímos ainda vestidinhas de camisola pra frente da nossa bancada higiênica e eles tocavam (blenblenblenblen) pra gente começar a escovar dentes, lavar a cara… e (blenblenblenblen) pra gente parar, aí nós íamos para o dormitório de volta e nos vestíamos entre um (blenblenblenblen) e outro (blenblenblenblen), eu que era espertinha, macaca velha, não era meu primeiro internato, eu ficava pronta

LAS — Não era o primeiro internato, no Regina Coeli?

Duddu aos treze anos, com Maria Barreto e Leite e uma amiga

Duddu aos treze anos, com Maria Barreto Leite e uma amiga

— Era, era o primeiro só que não era o primeiro ano que eu estava internada, então eu já era macaca velha, então eu rapidamente metia minhas calcinhas, ah, e tudo isso tinha pecado então você não podia ficar peladona e depois vestidona, você tinha que tirar a blusa, tirar a camisola sem descobrir o peito, vestia a blusinha por dentro da camisola, então era uma peripécia sem senso e a Vera que sempre foi meio lerdinha, não conseguia entre um (blenblenblenblen) fazer aquela porralhada toda, então o que quê eu fazia? Eu me vestia rapidamente e corria pra Vera, pra conseguir fazer com que a Vera fizesse as tarefas dela entre um (blenblenblenblen) e outro (blenblenblenblen), até que chegava na porra do refeitório. Eu não sei se você lembra, a Vera. Não, você não lembra, você nem tinha nascido ainda. A Vera comia assim: Vera, abre a boca, Vera, fecha a boca, Vera, mastiga, Vera, engole, Vera, bebe água, Vera, abre a boca, Vera, mastiga, Vera, bebe água. Era assim que a mamãe educou ela pra comer, aí ela chegou no Regina Coeli, que era (blenblenblenblen) começa e (blenblenblenblen) acaba e (blenblenblenblen) se você não comesse o prato todo, então o quê que a Dudduzinha fazia? Comia correndo com duas mãos, uma no prato da Vera e uma no prato dela, então era uma garfada de lá e uma garfada de cá, uma garfada de lá e uma garfada de cá, mastigando com a boca cheia pra Vera dar tempo, mas não deu. Tomar banho era o seguinte, Deus estava em todo lugar, era omnipresente, onisciente, oni o cacete. Bom, muito bem, se ele é tão omni, porque que eu não podia tirar a roupa? Ele me via por debaixo da roupa, mas não, eu tinha que vestir meu vestidinho de banho e tomar banho, lógico que a Vera não conseguia fazer isso e eu não podia entrar no banheiro da Vera, então a Vera foi acumulando sujeira até que um dia a mamãe veio nos ver, e a mamãe também era “assídua”, aquelas coisas da mamãe, “assídua”, era pra vir no domingo que vem, dois domingos depois ela aparecia. Quando a mamãe passou a unha na orelha da Vera, saiu um cascão que dava pra tampar um buraco de chave, e ela foi olhar a Vera, a Vera estava encardida, imunda e na beira de ser subnutrida, porque não comia quem comia a comida dela era eu, aí a mamãe tira nós duas do tal desse colégio. Até ali, nós não somos expulsas não, não houve falta de pagamento, nada, tudo certinho, tudo bonitinho. O segundo colégio, já não puseram a Vera interna comigo, porque já iam ver que ia dar besteira e eu não ia conseguir, resolveram me pôr num colégio mais democrata, eu fui pra um colégio chamado Santa Catarina ou Santa qualquer coisa que é em…

LAS — Em Minas.

— Não, lá em cima, Rio de Janeiro, Petrópolis. Em Petrópolis eu era absolutamente liberal, fora de todas as normas, já existia Os comediantes já existia toda essa coisa, e nas férias a minha mãe me levava, eu era tão “comportadinha” que a Mãe Maria[8] não queria ficar comigo, a Luiza tinha que ir pros Comediantes ensaiar. Maria ia junto e a Duddu ia junto, lógico, então, nessa época ela me põe num colégio mais liberal, um colégio chamado Santa qualquer coisa em Belo Horizonte, ai eu já tomava ônibus sozinha pra ir pro Rio de Janeiro, já tomava ônibus sozinha.

LAS — Você já era adolescente?

— Não, eu era uma menina ainda, tinha onze anos.

LAS — Onze anos é em quarenta e cinco (1945).

— Eu era uma menina, só que eu não era tratada como menina, era tratada como a mais velha, então eu ia ali na esquina pra comprar pão, a vozinha vinha lá dentro da sala: Duddu, leva as crianças, e lá saía eu; Vera retardada de um lado, Sandra, um pouquinho menos retardada, o Sergio, insubordinado, não queria obedecer àquela menina de jeito nenhum, você, que era a ternura em pessoa, que era meu predileto e tava na cara, e a Mávia[9] que eu ainda carregava. A Mávia! Então eu sempre carreguei um bando de crianças atrás de mim, sempre.

LAS — A Mávia, vocês se conheceram no…

— Eu pra falar a verdade…

LAS — A Maria Mattos, conheceu no teatro, não é? Ou antes, na turma…

— Eu pra falar a verdade, eu não lembro da minha vida sem a Maria Mattos, a minha vida toda, o que eu tenho de memória da minha vida, a não ser a muito íntima ou o fato do papai ter me levado pra Amazônia , ter me posto num colégio que era o único, coitado, mas era um asilo de menores abandonados, mamãe foi indignada, como é que a filhinha dela ia pra um asilo de crianças abandonadas. Bom, mas era o único colégio que tinha.

Soldado da borracha e filha

LAS — Você foi pra Amazônia com ele?

— Fui, Mato Grosso.

LAS — Mato Grosso.

— É, onde ele cumpria trabalho escravo. Mamãe é que vai lá, põe e faca na cinta, e vai lá e tira o homem dela, porque ele tinha entrado naquele negócio de débito, trabalho escravo.

LAS — Ele trabalhava em quê?

— Na parte de extração de borracha, na época da borracha, os soldados da borracha, não sei quanto da borracha, ele era um dos engenheiros, engenheiros esses que nunca se soube muito bem como ele se formou nessa engenharia, eu sei que num determinado momento devem ter precisado de um engenheiro, a mamãe com aquela imaginação dela e aquela capacidade única que ela tinha que a Luiza nunca teve que era de se infiltrar, a mamãe arranja o título, quem sabe como, de engenheiro pro papai e põe o papai trançando borracha, só que o papai vai se envolvendo também como bom imigrante, vai se envolvendo com a ideia de fazer a América e vai tentando ficar rico com aquele bando daquela gente de gangster formados, ele acabou mesmo foi no trabalho escravo, técnico, mas escravo.

LAS — Mas aí você era bem pequena?

— Eu tinha… Já não era tão pequena, porque a Vera já ia pro colégio sozinha.

LAS — Sim, mais foi antes de você ir pro Regina Coeli?

— Não, foi depois. Quando eles se separam, já estou com seis anos.

LAS — Sim, você disse que foi pro Regina Coeli com sete anos.

— Não, eu devo ter ido com cinco.

LAS — Colégio interno com cinco anos?

— É, colégio interno com cinco anos. Eu devia ter cinco anos.

LAS — O pessoal morava naquela pensão em Copacabana?

— Não, ainda não moravam na pensão.

LAS — Na Tijuca.

— Exatamente, estávamos todos hospedados no apartamento, na época dito como da Gonçalina. A Gonçalina era a matriarca e antes desse apartamento na Tijuca, que é inclusive um apartamento belíssimo, é quando a Mãe Maria entra na nossa vida.

Mãe Maria, Luiza e Gonçalina

LAS — Então isso é 1942.

— É quando mãe Maria entra na nossa vida, porque a mãe Maria vai pra lá pro teu nascimento.

LAS — Que é em 1943.

— É.

LAS — Mas ela já trabalhava há um ano quando eu nasci.

— Trabalhava um ano nada, ela chegou lá, a Luiza estava grávida, ela é contratada porque a Luiza está grávida.

LAS — Ela que dizia isso, que já trabalhava há um ano lá.

— É porque ela contava mal contado o tempo porque a Luiza vai pra esse apartamento, a Luiza topa meter num apartamento Sanz[10], Gonçalina, Maria Barreto Leite, tudo num canto só, é porque ela tá muito necessitada de tomarem conta dela, até aquele instante, a vovó que era uma ótima dona de casa, uma excelente cozinheira, uma artesã sem tamanho, então de um jeito ou de outro sem cair num fato de ser uma obreira, mantendo-se uma Lady que foi o que ela manteve ate morrer, ela ainda tinha dinheiro, porque ela foi perdendo dinheiro no jogo.

No meio desse charivari[11], Luiza fica grávida de você, e quando ela fica grávida de você a Gonçalina tinha como hábito colocar todas as empregadas que a tia Luiza contratasse pra rua e a tia Luiza não sabia fritar um ovo. Uma vez, ela resolveu fazer um refogadinho muito saudável pras crianças, pegou uma bonita peça de alface e simplesmente refogou-a. Aquela merda ficou amarga, horrível; quando acendia o fogo pra fritar o ovo, ela se colocava a meio metro do fogão, punha aquela porra daquela gordura a mil e jogava o ovo daqui pra lá. Se caísse dentro, caía, se caísse fora, caía, ficava por conta e ela misturava com arroz e nós achávamos uma delícia. Até o dia do refogado, aí nós protestamos, porque aí a brincadeira já tinha ido longe demais.

A tia Luiza teve uma conversa séria com a vovó e disse pra vovó: “se você puser mais uma das minhas empregadas na rua eu saio de casa”. Se a Luiza dizia, eu saio de casa, resumia-se em dizer duas coisas, primeiro: “vocês vão pegar dinheiro na puta que os pariu”, porque o dinheiro vinha dela. Segundo: “eu saio com a maioria do patrimônio dessa casa”, porque a cortina era dela, o sofá era dela, a cama era dela, tudo era dela, então, quando a Luiza dizia, eu saio, todo mundo mão pro alto, porque ali o perigo estava armado.

Então, essa é a Luiza da minha primeiríssima infância, é aquela pessoa que me defende, é aquela pessoa que deixa eu me esconder debaixo da cama, porque a Gonçalina punha fogo na fogueira, ela punha gasolina na fogueira, quando o António Valdez entrava porta a dentro metendo a mão na cara de quem estivesse pela frente e a mamãe muito maluca revidava, então virava uma tragédia, todo mundo gritava e isso eu tinha seis anos. Quando eles se separaram eu tinha seis pra sete anos, então esse negócio da Amazônia eles já estão separados porque ele vivia reclamando de que se ela não fizesse isso ele tirava as crianças dela, se ela não fizesse aquilo ele tirava as crianças dela. Um dia — a mamãe tinha como característica, entre outras coisas, encher o saco e quando ela enchia o saco, saísse de perto porque ela vinha que nem um trator — a um determinado momento, ela exatamente encheu o saco, no que o papai disse: “porque eu levo as crianças”, ela disse: “já levou, pode deixar, espera aí, pode ficar parado aí, sentado”. Pegou minhas coisinhas, meteu tudo numa mala e me mandou com ele e ele, que não queria absolutamente aquela criança, ele tava lá se saindo muito bem na tal ascensão na carreira de escravo, teve que carregar, porque tinha dito: “eu levo as crianças, eu levo as crianças, eu levo as crianças”, ela deu as crianças.

LAS — Mas só levou você?

— Só a mim, sempre era comigo, a coisa era sempre comigo. A Vera, o apelido da Vera era peruzinho, porque chamava peruzinho? Porque os peruzinhos, ao contrário de galinha, pato, esses negócios, que saem à caça, o peru não, o bebê peru fica em volta da perua e não sai à caça, a minhoca pode estar aqui nos cornos do peruzinho, a perua tem que tirar a minhoca, meter na boca do desgraçado pra ele comer. Então, o apelido da Vera era peruzinho exatamente por isso, porque ela se agarrava na saia da mamãe e ficava. E pronto!

A moleca e seu fiel amigo Lobo

Mais tarde, nós já grandotas, eu resolvi meter a mão, até ali eu era uma menina rebelde mas não era agressiva e, aí sim, nós já estamos morando no edifício Andraus[12], era do lado da pensão em que a gente morava, logicamente, bancado pela dona Luiza. A Sandra tem o primeiro ataque epilético dela, ela tem nessa pensão. E o Lobo, o tal cachorro que fazia dupla comigo, que é quando eu começo a dar porrada, começo a dar porrada porque eu tenho ele como guardião das minhas porradas, ele era cachorro treinado, eu achei ele debaixo de um carro, fui chamando, ele foi vindo e fizemos uma amizade, amizade essa que um dia a mamãe foi me dar uma surra e deixou a janela aberta, no que ela deu a primeira porrada e eu fiz ‘ai’, esse cachorro pulou pra dentro da janela se pôs entre eu e ela e ia avançar se as pessoas não fossem lá tirar o couro dela da boca do cachorro, é aí eu vi que aquele cachorro me daria proteção contra qualquer coisa. Ninguém mais tocou em mim, ninguém mais me bateu, ninguém mais fez nada dessas coisas porque eu metia a mão mesmo e nunca se aproximavam pra resolver, dar de volta o murro que eu tinha acabado de dar, o lobo se colocava do lado e rugia. Você já viu cachorro capa preta quando ele ruge? Ele tem a gengiva toda preta, a gengiva fica toda preta quando ele tá com raiva. Então, ele rugia e pronto, Maria da Gloria! O capa preta na época era o cachorro do exército, eram os pit bulls de hoje.

LAS — É. Chamavam de cão policial.

— Isso mesmo. Exatamente. Então, eu com o Lobo nas costas, minha filha, nem a mamãe me batia mais e se fosse bater fechasse tudo bem fechado, porque se não ele entrava e atacava, ele não respeitava ninguém. A única voz de comando que ele aceitava era a minha, mais ninguém. Bom, aí eu fiquei a rainha da cocada preta, porque era tudo que eu precisava, era um protetor maior que a Luiza.

A grande piada da época: a Luiza tava nessa pensão e os meninos conseguiram cercar uma árvore em que eu subi e cachorro não sobe em arvore, né? Então, eu andava pra lá o cachorro, ia pra lá, mas enquanto eu andava pra lá, a garotada subia na árvore do lado de cá, quando eu andava pra cá, o cachorro vinha pra cá, aí eu gritei pra uma mulher que tava na janela: “minha senhora, eu tenho minha tia que mora no telefone tal e tal, liga pra ela e diz pra ela vir salvar minha vida!”. A tia Luiza, não passou nem dez minutos, já tava lá: “sai daí garotada”, acho que a mãe Maria também já tava: “vão, vão, vão, todo mundo andando!” Eu  desci com o cachorro na mão e fui diretinho pra casa.

Então essa foi a grande piada. A outra grande piada da tia Luiza: quando eu fui parida a coitadinha da mamãe com apenas dezoito anos de idade, numa tribo em que não havia crianças brancas, existiam adultos brancos, se duvidar eram o papai, a mamãe e mais uns dois casais brancos, criança branca mesmo não existia. Quando eu nasci teve duas coisas, a primeira é a mamãe que pariu nessa tribo sem nenhuma condição de assepsia e na hora em que eu nasci, o médico teve uma convulsão de sífilis e enlouqueceu, só voltou dois dias depois. Mamãe toda… Nem posso imaginar, não posso descrever a mamãe dois dias em um lugar sem assepsia e esse cara consegue então salvar a minha vida e a vida da mamãe fazendo lá as coisas dele, porque ele também era negro, era um médico negro, e nessa época a tia Luiza dizia assim: “o primeiro homem que a Duddu enlouqueceu foi na data do seu nascimento”, outra piadinha da Luiza.

Essa tribo não conhecia criança branca e o adulto branco na África por mais que se proteja com aqueles chapelões e o diabo a quatro adquire uma cor mais escura porque é impossível não adquirir uma cor mais escura, mas o feto recém-nascido devia ser uma coisa nojenta pra eles né? Aí, eles olhavam pra mim e diziam: “Dudu, Dudu”. A mamãe que foi sempre pretensiosa achou que eles estavam dizendo que eu era tão linda quanto leite e aí me pôs o apelido de Duddu porque eu era branquinha como leite. Não é nada disso, o que eles diziam era o seguinte: quando o café negro cai sobre o leite branco é dudu, quando o dia está acabando e a noite vai tomar conta do dia é dudu. Então o que eles estavam dizendo era o seguinte: “essa pobre dessa lesma vai ter uma corzinha, não vai? Então dudu queria dizer que vai adquirir uma corzinha, não vai ficar essa lesma pro resto da vida. E aí, quando eu soube o real valor da palavra dudu, assumi pra mim, ajudada muito pela Cacilda Becker, o codinome de Duddu.

Bom, vou crescendo, vou crescendo e chego à adolescência , chego à adolescência bem antes das outras crianças, pra falar a verdade eu faço tudo bem antes que as outras crianças, em todos os níveis, a única coisa que eu não fiz na frente das outras crianças foi estudar, porque como eu era disléxica e eles não tinham o conhecimento da dislexia e eu era o demônio mesmo, cada vez que eu cometia um erro, porque o que eu fazia, pra poder pegar a leitura que era uma das matérias importantes no primário, era pela orelhada, eu ouvia e tentava reproduzir pra na hora que eu ler não cometer tantos erros, só que eu ia assim, o texto por exemplo estava dizendo: “Antônio foi à feira e comprou quatro tomates, entre os tomates, tinha um podre”. A Duddu lia: “Antônio foi à feira com os tomates e entre os tomates dois estavam podres”. Bom, primeiro que Antonio não foi à feira com os tomates, mas era o que eu tinha guardado na audição, aí a sala rachava de rir e todo mundo chegava à brilhante conclusão de que eu tinha feito aquilo de propósito. Como se dislexia não fosse pouco, eu tinha dificuldade, porque quando eu chego no Brasil eu falo português de Portugal ou melhor, nem de Portugal, eu falo um dialeto de português da Guiné Bissau.

— Crioulo.

— É. Então, eu levo isso o resto da minha vida, eu não falo igual às outras pessoas desde menina, eu tinha algumas referências vamos dizer, que eram referencias da primeira infância que no primeiro momento quando eu vivi com a tia Luiza, aquilo era uma gracinha, mas que, depois, passou a ser uma coisa incômoda. Aí, a tia Luiza dizia que eu era uma pessoa muito inteligente, muito competente e muito intelectual, mas era a única intelectual analfabeta que ela conhecia.

[1] Luiza Barreto Leite, tia materna de Duddu, atriz, educadora e jornalista.

[2] Vera Barreto Valdez, conhecida no Teatro como Vera Barreto Leite e, no mundo da moda, como Vera Valdez, irmã caçula de Duddu.

[3] Nossa avó materna, Gonçalina Azevedo Barreto Leite. Uma Grande Senhora da Aristocracia falida dos Pampas e figura notável, “gaúcha de faca na bota”, difícil de enfrentar.

[4] Os Comediantes, grupo renovador do Teatro Brasileiro, fundado em 1938 por Luiza, Brutus Pedreira e Santa Rosa, de cujo elenco, Maria Barreto Lei, a mãe de Duddu, fazia parte.

[5] Colégio fundado em 1908 pela criadora da Ordem das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, a italiana Madre Francisca Xavier Cabrini. Hoje não funciona mais como colégio, mas mantém um centro de Retiro e Eventos ainda mantido pelas Irmãs Missionárias.

[6] Agora, são dois bondinhos em duas linhas no plano inclinado.

[7] Situado na Usina da Tijuca, na Avenida Conde de Bonfim, que corta a parte mais alta do bairro, rumo ao Alto da Boa Vista.

[8] Ver “Maria Augusta, mãe de todos nós”: http://redesina.com.br/maria-augusta-mae-de-todos-nos/?bclid=IwAR0nlYlHv0fhGRkXK1tN2TwdPaI7LtMfcXtuRQAQS5Zx7dhyzY8UuEDbLQ8

[9] Mávia Zettel, filha da atriz e radialista Maria Mattos, prima afetiva de todos nós, até hoje. Mãe da atriz Ana Zettel e do cineasta e diretor de TV Ivan Zettel.

[10] Durante a terceira gravidez e até o meu nascimento, Sanz estava em Belo Horizonte, para tratar-se de um problema nos pulmões, por isso os amigos mais próximos de Luiza, João Ângelo Labanca e Paschoal Carlos Magno, presentes no Hospital Espanhol durante o parto, alegavam ser os meus verdadeiros pais. E me trataram como filho por toda a vida.

[11] Substantivo feminino francês: Confusão.

[12] Na Avenida Copacabana, prédio recuado no fundo da arborizada Praça Sara Kubistchek. Provavelmente o lugar em que Duddu passou a aventura que relata a seguir..

Bom Retiro, meu amor

Flavia Sztutman (de costas), Danila Gonçalves, Angelita Alves, Mei Hua Soares e Ana Elisa Moro, em uma das cenas mais fortes e belas da ópera: As mulheres da Vida.

A ópera da diversidade

Luiz Alberto Sanz
Fotos: Graciela Rodriguez

O novo espetáculo do Teatro Popular União e Olho Vivo é, de todo o seu repertório, o mais identificado com a concepção brechtiana de um teatro épico, não aristotélico. As façanhas e desventuras de seus personagens e das gentes que simbolizam são relatadas pelos atores e avivadas por primorosos figurinos, adereços, objetos de cena, música, direção e interpretações. Um mosaico no qual interagem os 53 anos da História construída pelo grupo, a experiência de profissionais que a ele somaram sua técnica e uma nova geração de intérpretes, muitos enfrentando o público pela primeira vez neste domingo 16. Não-aristotélico, contemporâneo e bem brasileiro.

Epopeia dos desvalidos

À medida que conta a história de Neriney Moreira e do TUOV, o espetáculo descortina a vida dos migrantes que contribuíram para tornar o bairro e a capital paulistana referências cosmopolitas, onde se enraizaram e enraízam trabalhadores, artistas, educadores e esportistas, das mais diferentes origens, e de seus descendentes. A marca cosmopolita está expressa em cena, mas também na composição do elenco, sem ter sido intencional. Basta ler a ficha técnica para encontrar nomes e sobrenomes eslavos, judaicos, italianos, grego, castelhanos e aqueles adotados pela imensidão de escravos trazidos para dar conforto e fazer o trabalho sujo e pesado para os primeiros colonizadores, fugidos da pobreza em Portugal e tornados senhores na terra brasilis.
A cruel exploração da mão de obra começou com a captura, servidão e, finalmente, dizimação dos orgulhosos e resilientes tupis e guaranis, seus habitantes originais, lembrada cirurgicamente pelo Saci, boneco que se torna um dos protagonistas, continuou e continua com os africanos, imigrantes forçados, judeus, turcos, árabes, bolivianos, italianos, coreanos, refugiados econômicos e políticos que vieram “fazer a América”, aqui descobriram que a vida não era tão acolhedora quanto esperavam. Mas esta epopeia é contada e cantada à brasileira, com canções e palavras fortes e belas, que nos fazem pensar e refletir. O público das duas sessões de domingo (teatro à “antiga”, atores estreantes enfrentando duas sessões “de cara”) evidenciava estar refletindo sobre o que se passava na “passarela” da rua Newton Prado 766. Compenetrado, aplaudiu algumas vezes em cena aberta e foi até o final pendente do que lhe diziam as vozes, os olhares, a expressão corporal, as peças de vestuário e adereços, os instrumentos musicais, a iluminação, o cenário minimalista, os objetos de cena variados e de um refinamento notáveis, em contraste e, ao mesmo tempo, dialogando com o velho galpão em que “mora” o TUOV. Fechado o portão, na escuridão do final, explodiu em aplausos. Não foram submetidos à catarse aristotélica, mas levantaram-se para aplaudir de pé o chamado para retomar a vida e agir para mudá-la.

Mosaico da Liberdade

A linha condutora da dramaturgia do TUOV é contar e fazer refletir sobre as lutas de nosso povo pela Liberdade. É uma linha que, pelo caminho, foi adotando métodos libertários e avançou no processo de criação coletiva, presenteando-nos com este espetáculo pesquisado no bairro, nos livros, em documentos e entrevistando quem pudesse contribuir para formar tal mosaico, pois como diz o narrador, “tempo não é dinheiro, é o tecido de nossas vidas”, criado e costurado em cena, ensaio por ensaio, para só virar texto quando amadurecido como pedras que ferem a boca e só se tornam palavras quando definitivamente ditas.
O filósofo Ued Maluf, meu colega e mestre, na sua Teoria das Estranhezas, formulou o conceito de “mosaico de isomorfos”, muito próximo às teorias de Proudhon, que, simplificando, estabelece que um mosaico de isomorfos apreciado no seu conjunto é uma “unidade diferenciada de alta complexidade”, mas os isomorfos, que se modificam na mútua interação, não perdem sua individualidade e podem ser apreciados como os fragmentos que são. “Bom Retiro, meu amor” é um perfeito exemplo de um mosaico de isomorfos. Seus fragmentos interagem e formam uma unidade complexa, mas podem ser recombinados sem que o conjunto se perca. O que eu quero dizer?
Quase todas as cenas podem ser mudadas de lugar, sem que a coerência da história se perca, os atores, se necessário podem dizer as falas de outros, acrescentando um elemento novo, uma “quebra dramática” à narrativa. E o elenco não é homogêneo, não sofre dessa doença que infecta as artes e a vida, a pasteurização. Eles são um coletivo, criam em conjunto, mas mantêm sua individualidade: olham em nossos olhos com olhares pessoais e intransferíveis; fazem suas coreografias e movem-se, mesmo em grupo, com seus toques próprios, revelando, no “subtexto” o notável trabalho de Marilda Alface, a preparadora corporal. É um teatro coletivo feito por indivíduos, em um grupo teatral autogestionário.
A pergunta de uma imigrante, logo ao começo, “Quem é dono aqui” não tem resposta possível e este espetáculo mostra isto. Provavelmente, não seria o que Cesar Vieira teria escrito só, mas é o que grupo pôs em cena, como queria pôr e que ele aclamou. Ali, naquele galpão, encenado como Teatro de Cortejo, está o passado do União e Olho Vivo e do Bom Retiro, mas está também seu presente e seu futuro, nos corpos e nos sentimentos dos jovens que se somaram aos veteranos em busca de uma nova vida.

 
Ficha Técnica
Coordenação Geral: César Vieira (Idibal Pivetta), Graciela Rodriguez e Neriney Moreira/Direção Teatral e Dramaturgia: César Vieira (Idibal Pivetta)/Codireção Teatral: Rogerio Tarifa/Comissão de Dramaturgia: Mei Hua Soares, Rogerio Guarapiran/Coordenação Artística, Cenografia e Figurino: Graciela Rodriguez/Direção Musical: Rogerio Guarapiran/Coordenação Musical: Cesinha Pivetta, Rogerio Guarapiran/Elenco: Ana Elisa, Angelita Alves, Babi Pacini, Danila Gonçalves, Dante Kanenas, Edson Rocha, Flávia Sztutman, Juma Tanaka, Leandro Soussa, Lívia Loureiro, Lucas Cruz, Mei Hua Soares, Neriney Moreira, Oswaldo Ribeiro, Pedro Fraga, Rogerio Guarapiran/Músicos: Babi Pacini, Oswaldo Ribeiro, Pedro Fraga, Rogerio Guarapiran/Preparação corporal: Marilda Alface/Iluminação: Gil Teixeira/Assistência de Cenografia e Figurino: Lívia Loureiro/Ajudantes de Cenografia e Figurino: Juma Tanaka, Edson Rocha/Treinamento de Atuação: Luís Mármora/Treinamento Vocal: Ester Freire/Colaboração na Pesquisa: Walter Quaglia e Luiz Alberto Sanz/Direção de Produção: Maria Tereza Urias/Produção: Natasha Karasek/Assistência de Produção: Renê Costanny/Assessoria de Imprensa: Luciana Gandelini/Registro Fotográfico: Graciela Rodriguez/Registro Audiovisual: Nana Ribeiro, Pedro Cortese/Design Gráfico: Julia Pinto
Temporada 12 a 20 de janeiro de 2019 – Sextas às 21h
Sábados e Domingos às 16h30 e 20h/Classificação: Livre – Ingressos: Gratuitos/Onde: Teatro Popular União e Olho Vivo
Rua Newton Prado, 766, Bom Retiro – São Paulo-SP Informações: (011) 33311001 / teatropopularuniaoeolhovivo@gmail.com http://www.facebook.com/tuovivo
Dante Kanenas introduz os imigrantes, enquanto Luka Krsux,
Angelita Alves, Edson Rocha, Flávia Gonçalves e
Ana Elisa Moro se adereçam para a vida no Bom Retiro.

Maria Augusta, mãe de todos nós

LUIZ ALBERTO SANZ

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