Mãe Maria: 101 anos de Amor e Sabedoria

(☼12/12/1923, em Atafona, Campos, RJ, † 05/06/2001 no Rio de Janeiro, RJ)

Em 1923, dia 12, Maria Augusta Correia dos Santos ─ mãe, avó e bisavó afetiva e sempre presente de todas as gerações que se seguiram da grande família formada por Luiza Barreto Leite ─ viu a luz em Atafona (então, distrito de Campos dos Goitacazes, hoje, de São João da Barra), no Norte Fluminense.
Como diz sua neta Jussara “Sassá” Araújo (também chamada de “Sara”) é sempre tempo de homenagear quem acalentou em seus braços pelo menos três gerações de filhos que não pariu, Maria Augusta, Mãe Maria, Iá, Ciloca (apelido que trouxe da família em que foi gerada).
Esta página reúne depoimentos, saudades, lembranças, em palavras e fotos, de alguns membros e amigos dessa família. Há muitos mais.
Sandra Sanz de Oliveira (filha), Nathália de Oliveira Jorge (bisneta), Delvira Barroso de Araújo (filha), Luiza Barreto Leite (amiga e patroa), Joana Sanz (bisneta), Mônica Sanz Jorge (neta) e Mariana de Moraes (sobrinha-neta), em torno à Mãe Maria, na cozinha do apartamento 809 da rua Senador Vergueiro 200.

Sandra

Hoje é dia de Mãe Maria.

Muita saudade, nossa mãe negra.
Que nos criou, nos amou, que viveu a vida inteira … Era menina, quando foi trabalhar em nossa casa, virou nossa mãe. Muito atenciosa, muito querida.
Obrigada, Mãe Maria, nunca esquecerei todas as coisas boas que você fez por mim. Obrigada, obrigada, você foi maravilhosa. Está fazendo aniversário hoje.

Não te esqueço nunca, eu sonho com você, você me faz muita falta.
Muitos beijos e abraços.
Obrigada!
  • Sandra Sanz de Oliveira, ativista social, 87anos, Niterói
Mavia Zettel, Sebastião de Oliveira, Maria do Carmo Carvalho Cabral, Sandra Sanz de Oliveira, Duddu Barreto Leite e Mariana de Moraes.

Mavia

Mãe Preta!

Mãe Maria! Mãe antes do nome caracteriza bem o que ela sempre foi: o que nossa literatura chama de MÃE PRETA! Maria nasceu para ser mãe e foi a mãe preta de seus filhos brancos, filhos da maravilhosa atriz Luiza Barreto Leite que pôde dedicar-se à sua carreira graças à confiança que tinha em Maria! Lembro-me de vê-la no playground com uma colher em uma das mãos e um xarope na outra. Não interrompia o jogo, fosse qual fosse. Esperava o momento oportuno, dava o remédio na boca de quem precisava e deixava que o jogo continuasse. Mãe amorosa e atenta a todos os detalhes e necessidades de seus filhos. Do caçula dizia: este é meu filho mesmo! Esse eu vi nascer! E Luiza, com seu maravilhoso senso de humor, perguntava: e eu? Sou o quê? O pai? Também inesquecível foram suas ceias de Natal! Sempre excelentes! A mãe preta nunca passava o Natal longe de seus filhos brancos! Com muito amor, carinho e dedicação! Mãe Maria! Vejo-a no céu! Um céu como só ela merece! Cercada de anjos e do amor do Criador! E nós também a amaremos para sempre!

  • Mavia Zettel, sobrinha afetiva, professora de Inglês e Literatura Inglesa, Rio das Ostras
Delvira Araújo, Jussara Araújo, Mãe Maria, Maria Odila (Didi) Rangel, Joca Sanz e Maria Luiza Araújo.

Jussara (Sassá)

Rainha Mãe!

Minha Rainha! Era assim que a Iá me chamava. Mas eu achava que ela era a Rainha que reinava no reino dos Barreto Leite.

Mãe de Neném, Sérgio, Sandra e Delvira e até em alguns momentos de Luiza Barreto Leite.

Só que toda Rainha tem que ter um Rei, e ele se chamava Mário Sérgio que disputava comigo a atenção da Rainha Mãe (Iá).

Essa era a minha avó que apesar do momento que me revelou que eu não era a sua neta de sangue, me desesperei mas depois fiquei bem, porque independente disso, foi essa mulher que me criou, educou, me amou e mesmo sendo analfabeta era uma pessoa sábia. E meu amor só aumentou.

Iá, vó, mãe, agradeço tudo que fez por mim, seu amor, paciência, dedicação, sua vida.

Não posso esquecer do jeito afetuoso que tratava todos os netos, bisnetos e todos aqueles que eram bem-vindos lá em casa. Sempre com um almoço maravilhoso que deixava todos com o gostinho de quero mais.

Sem falar da Delvira, minha mãe, que ela acolheu como filha e ensinou de tudo para que ela se tornasse uma pessoa do bem, amorosa e linda por dentro.

Delvira e Iá. Pessoas como elas, difíceis de encontrar.

Lembrança boa dos almoços de domingo com todos reunidos com a matriarca vó Luiza. Enfim, saudades de tudo que vivi na minha infância e adolescência

Te amo, de Rainha para Rainha 👑

  • Jussara Araújo (Sassá, Sara), neta, contadora, Rio de Janeiro
Maria Luiza (Lulu) Araújo e a Vó Iá (Mãe Maria), na última casa em que esta viveu, na Vila Kennedy, Rio.

Maria Luiza (Lulu)

Princesa

Morei com a minha mãe Delvira até os meus 12 anos. Nesse tempo, só ia à casa da Vó Luiza (no Flamengo) nos finais de semana e nas férias.

Até que um dia, fui morar no Flamengo. No início foi difícil, pois percebia que a Iá dava mais importância a minha irmã do que a mim.

Ela chamava a Sara sempre de rainha e um dia perguntei: “Iá, eu não sou rainha também, não?”

Ela respondeu: você é princesa (achei que ela fosse dizer que eu era rainha também kkkk).

No início foi uma luta muito grande enfrentar à Fera e esperar igualdade, mas depois entendi que essas “prioridades” eram devido à maternidade desses longos anos com a Sara e eu tinha acabado de chegar, não tinha tanta proximidade de afeto com ela.

Com o passar do tempo, fomos nos entendendo e nos conhecendo. Percebi que as prioridades já estavam “quase” iguais às da minha irmã.

Quando eu tinha algum problema na escola ou ficava triste, sempre desabafava com ela.

Lembro que deitava minha cabeça sobre sua barriga, em sua cama, assistindo televisão e quando tinha algo engraçado ela ria e sua barriga subia e descia e a minha cabeça junto, era muito divertido Rsrs.

Ficávamos assistindo TV (Jô Soares, Jerry Lewis, filmes do Corujão) e comendo balas de caramelo de madrugada até terminarem as programações. Momentos inesquecíveis!

Como a minha mãe Delvira não estava sempre presente, a Iá acabou se tornando o meu porto seguro.

A história de “rainha e princesa” já não tinha importância, pois a sua demonstração de amor, acolhimento e proteção foi maior.

Ficava admirada com essa mulher que era analfabeta, mas tinha uma inteligência, uma visão, um conhecimento inacreditável.

Honro em carregar o nome, dessas duas potências, que fizeram parte da minha vida

– Maria e Luiza.

Maria Luiza Araújo (Lulu) Neta, Contadora, Rio de Janeiro

Mãe Maria, frente ao fogão em que não deixava ninguém mexer, a não ser para consertar.

Regina

Viva a Iá

Cheguei do exílio no Chile, em 1973, direto para a casa da Luiza, minha sogra querida, que estava na Suécia. Ali ficamos, eu, Sérgio e Claudinha, até mudarmos para a nossa casa na Rua Visconde de Caravelas.

Quem me recebeu foi mãe Maria. Recebeu, mas não acolheu logo de cara! Era desconfiada e não gostava de muita graça. Eu pisava em ovos para não desagradá-la e fazia de um tudo para que me aceitasse.

Era ciumenta por demais e cheia de preferências em seus afetos.

Ralei muito para conquistá-la. Consegui!! Ficamos amigas e ela me respeitava.

Imagina que me deixava cuidar de seu maior tesouro e a mim confiava seu bem mais precioso ─ Sassá!!

No seu fogão e panelas ninguém mexia. Seu arroz era cuidadosamente retirado da panela para a travessa, e para isso havia uma técnica que me deu a honra de conhecer.

Foram muitos anos de uma convivência cercada de respeito e carinho. Muitas receitas e conselhos culinários recebi dessa pessoa tão especial! Observá-la no seu dia a dia era um aprendizado de vida.

Seu quarto, como disse a Claudinha, cercado de mistério. Suas noites sentada na cozinha preparando os quitutes com que nos presenteava nos almoços de fim de semana eram instigantes. No mínimo curiosas!

Sua sabedoria era grande e sua vida nos mostrou isso. Suas netas são a prova de que ela sabia aonde queria ir, o que pretendia da vida e o que esperava dela. Sucesso!!!

Não havia língua melhor que a dela, com seu molho de champignon, nem biscoitos de nata mais perfeitos! Sua comida era deliciosa!!!

Viva mãe Maria! Viva a Iá!

Regina Paixão Linhares, nora, atriz, advogada, professora e chef de cuisine,
Paquetá, Rio de Janeiro
Mãe Maria não gostava de ser fotografada. Esta, Neném tirou sem que ela percebesse.

Carolina (Carol)

Chegando pela cozinha

Não sei o que escrever!! São tantas memórias boas!!! A vovó IÁ era muito especial!! Elas eram uma dupla perfeita, um verdadeiro casal!!! A vó IÁ cozinhava, cuidava da casa, a Vó Luiza trabalhava fora, era muito à frente da sua geração, foi sempre minha inspiração. 

Lembro da mesa do almoço com tantas opções, ela fazia a preferência de cada um… eu amava os biscoitos de nata mais torradinhos, amava roubar as batatas fritas, suspiros, pastéis. Papai amava o doce de nozes (era um pudim, né?).

A imagem da mesa posta com tantas opções é bem viva.

A geladeira que ficava no corredor!!

Sempre chegávamos pela porta dos fundos, e todas as vezes ela estava sentada cozinhando, ao lado da porta do quarto dela.

Quando eu estava na adolescência, sempre saía do colégio e ia almoçar por lá!!

Amo essa família!
  • Maria Carolina Paixão Linhares (Carol), neta, piloto da Aviação Civil, Rio de Janeiro
Mãe Maria e Mário Sergio Sanz de Oliveira, que dividia o trono com Jussara Barroso de Araújo, a Sassá. Usurpando a preferência por Neném, o Gato, que ela teve durante cerca de 20 anos.

Léa Maria Aarão Reis

Maria, de Neném e Luiza

Quando eu era bem jovem, um dos maiores prazeres que eu tinha era visitar minha amiga Luiza Barreto Leite e a sua família, no apartamento de um prédio do chamado Edifício dos Bancários, na rua Senador Vergueiro, no Flamengo. Eu me deliciava com ela e com dois filhos, Sergio e Luiz Alberto (até hoje, para mim ele é o Neném), com a filha Sandra, suave e tímida, com o Tião, seu marido, e com os netos que começavam a nascer. Quanta alegria! Mas havia também uma pessoa querida, a Maria, cozinheira e amiga de Luiza, que comandava a casa junto com uma assessora um pouco mais jovem, a Delvira, e sua bebê, recém-nascida.

Maria, séria e de poucas palavras, e sempre atenta às necessidades de cada um de nós, moradores da casa e visitantes como eu, foi talvez a mais marcante personagem daquele ninho criado por Luiza, naquela altura da minha vida. Fora a chamada ‘dona da casa’, claro.

E o que guardo da Maria, sentindo meu coração aquecido por ela até hoje, foi a sua constante sabedoria silenciosa, seu sorriso discretíssimo, e sua sensibilidade, que eu sabia, fazia com que ela adivinhasse tudo que se passava dentro de nós. Fora os pasteizinhos que costumava fazer e colocava diante da gente, sempre em silêncio, na mesa que ficava no meio das nossas conversas intermináveis. Os melhores, inigualáveis pasteizinhos que comi na minha vida de tantas andanças por aí. Muita paz, querida Maria. E nos proteja aí, de onde você está.

Léa Maria Aarão Reis, jornalista, Rio de Janeiro

Mãe Maria com Paulo (Paulinho) Cabral Sanz, seu bisneto e neto do Neném.

Luiz Alberto (Neném)

O garoto feio

Contava minha mãe Luiza que, em 1943, ao me ver recém-nascido, aquela mulher negra bela e esbelta, que só andava bem penteada e de unhas feitas ─ embora cozinhasse, limpasse, lavasse e passasse, além de ajudar a cuidar de minha irmã e meu irmão mais velhos enquanto a patroa se virava em no mínimo três empregos ─ exclamou: “Mas que menino mais feio!”. Pois a guerreira de ébano e o roliço e careca “barata descascada” se amaram pela vida toda e fui o preferido (ela me chamava de “Gato”) até que surgissem um outro branquela espaçoso e uma negrinha linda de morrer e espevitada a mais não poder, Mário Sergio Sanz de Oliveira e Jussara Araújo, a Sassá. Foi Mário Sergio, o Mario Oliveira das redes sociais, que passou a chamá-la de Iá. Sem nunca imaginar que, em iorubá, IYÁ é MÃE.

Mais tarde, no exílio em Santiago do Chile, lhe escrevi uma carta cheia de esperanças. Era 25 de agosto de 1972 e eu acabara de me mudar para um sítio que os camaradas Bona García e Roberto Fortini pediram a mim e à minha companheira Didi para cuidar. Mãe Maria nos estivera visitando no começo do ano, junto com Luiza, Sandra, José Luiz, Mônica, Mário Sergio e Sassá. Na carta, eu os convidava para voltar e ficar. Nem imaginava que passado pouco mais de um ano, o mundo cairia em nossa cabeça com o golpe de 11 de setembro. Aí vão alguns trechos:

“Meu amor, a gente vai ficando velho aqui longe da terra. As pessoas que a gente conheceu desde quando era pequenininho não estão ao nosso lado. Não é fácil! (…)”

“Aqui nessa casa vai haver lugar para quem quiser construir, viver junto e cuidar de mim (…). Tem um lugar especial para uma mãe negra e gorda, para umas crianças louras, para uma negrinha desbocada, para uma velha branca teimosa, para todo o mundo (Também, e ela sabe, para meu amor eterno, Dudu).

Repito agora, atualizando, o que publiquei sobre ela no site Rede Sina e no blog Mosaicos Mouriscos em 14 de dezembro de 2018:

“Mãe Maria, no que seria seu aniversário de número 95, declaro, mais uma vez, meu amor edipiano e agradeço tudo que você fez por mim e por nós, abrindo mão de muitas coisas e transformando a nossa vida, de todos nós, na sua vida. E transformando-nos no processo.

Evoé!!!!!

Neném (Gato)”

Luiz Alberto Sanz, professor de Jornalismo e Artes Cênicas, jornalista, sindicalista, 81 anos, Niterói